[Está crónica tornar-se-á repetitiva – como repetitivo foi o FC Porto a atacar. Vai ler incontáveis vezes o apelido Moreira no texto. Culpa dele, José Moreira, que teimou em defender tudo. Ou quase.]

— Olha lá, aquele não é o…
— É ele, é.

Não está tão diferente assim. Olhando-o de longe, da bancada, fora a barba cerradíssima que não tinha, está tal e qual. Ninguém diz dele que já é trintão. Mas é. O miúdo que o Benfica foi contratar ao velhinho estádio Vidal Pinheiro, vindo dos juniores do Salgueiros para os bês do Benfica, cresceu. Fez-se homem. Mas fez-se longe da vista. Foi dele e só dele a baliza do Benfica em 2004, foi-a partilhando com Quim depois, perdendo-a, de época para a época, para Quim e para quem viesse — e vieram muitos –, tanto que acabou por deixar a Luz em 2011. Andou pelo País de Gales e pelo Swansea, mas pouco jogou. Como pouco jogaria nas três temporadas seguintes, no Omonia do Chipre, país onde os portugueses tem ido procurar a reforma. José Moreira não se reformou. Voltou a “casa”, começou o ano passado na Segunda Liga com o Olhanense, mas este está na Primeira, com o Estoril. De Moreira se dirá que não teve o sucesso que desde cedo se lhe augurava. Talvez não. Mas dele nunca se dirá que foi mau. Que é mau. Este sábado à noite, e apesar de o Estoril ter saído derrotado (1-0) do Dragão, não foi por Moreira que o saiu.

Bem cedo, logo aos oito minutos, não uma, mas duas defesas de Moreira, a evitar o golo do FC Porto. Primeiro, e depois de um canto à direita de Layún, Otávio (que até é meia-leca) saltou ao primeiro poste (sem oposição!) e desviou de cabeça para golo. Valeu ao Estoril que o guarda-redes, desperto, deu uma “sapatada” na bola e fê-la sair por cima da barra — mas não sem esta tocar levemente no ferro. Depois, no seguimento da jogada, bola cá, bola lá, o Estoril não a cortava da defesa, o FC Porto insistia em colocá-la precisamente na defesa contrária, os centrais Felipe e Marcano continuavam à espera de cruzamento, não desciam, e Maxi fê-lo mesmo, cabeceando Marcano. Moreira voou. E defendeu, rente à barra.

O FC Porto sufocava o Estoril. Atacava, atacava e votaria a atacar, vezes sem conta, sucessivamente. E só em Moreira, seguro, os canarinhos tinham uma botija de oxigénio. Aos 17′, e depois de um cruzamento (longuíssimo) à direita de Rúben Neves, Dankler cortou a bola de cabeça dentro da área, evitou que este caísse na de André Silva, mas não evitou que Otávio a recebesse à entrada da área sozinho e rematasse, de primeira e na passada. Mas Moreira (que se fez enorme e à baliza pequena) teve reflexos para desviar. E quanto não era Moreira, era a barra (24′) a valer ao Estoril. Layún cruzou para a área desde a esquerda, quis cruzar para André Silva ao primeiro poste, mas Dankler, mais veloz, antecipou-se ao ponta-de-lança do FC Porto. Foi veloz, mas foi atabalhoado no corte, tanto que este esbarrou em cheio na barra da própria baliza, desceu depois em direção à linha de golo, mas tocou-a por fora e tudo quanto se ouviu no Dragão foi um uníssono brrrrruaaa e não gooooolo.

E Estoril? Viu-se aqui, aos 36′. Anderson recuperou a bola a meio-campo e começou o contra-ataque em força, Matheus deu-lhe técnica e passe, e através deles a bola chegou à esquerda e a Alisson. Maxi não se fez à marcação, Varela idem, Alisson foi ajeitando a bola, ajeitando, ajeitando, até que encontrou colocação para ela, no canto superior direito da baliza de Casillas. O espanhol evitou que esta lá chegasse, mas não evitou desviá-la para canto. E do Estoril foi tudo quanto se viu. Não na primeira parte, mas em todo o jogo. Sim, leu bem: todo-o-jogo. É curto.

O intervalo ia chegando, mas nem por isso o FC Porto desacelerava e desistia de sair para ele em vantagem. Ora, adivinhe lá quem evitou (43′) o golo do FC Porto? Foi Moreira, pois claro. Sobre a direita, Maxi ameaçou que cruzava, não cruzou, foi deixando Joel de cabeça à roda com tanto vai, não vai, até que lá se decidiu a ir e cruzou mesmo, para trás, Corona rematou de primeira e Moreira, estendido na relva, desviou para fora dali. No minuto seguinte, mais uma defesa. E esta foi “monstruosa”, não há como adjetivá-la de outra forma. O FC Porto foi tricotando a bola à frente da área do Estoril, ora vira para a esquerda, ora para a direita, e foi da direita que Herrera cruzou a bola para a área, colocando-a por cima dos centrais canarinhos. Quem a foi receber foi André Silva, e desviou-a de cabeça, com um toque só, ligeiríssimo, mas capaz de colocar a bola entre Moreira e o poste direito. Só que… não. Moreira não deixou. E foi lá, elástico, atirar para canto com a luva direita. Depois, aproximou a direita à esquerda, e bateu-as, aplaudindo-se e puxando pela atenção dos seus.

Adrián entrou ao intervalo. E pouco depois, aos 51′, nem quis acreditar na fífia de Dankler. Só isso pode explicar o golo que acabou por falhar. Maxi desmarcou Corona nas costas de Joel, o mexicano foi cruzar à linha de fundo, tão no fundo e tão veloz ele ia, que esbarrou (depois do cruzamento feito) nos painéis publicitários, a bola caiu no segundo poste, Dankler saltou alto mas não cortou, Adrién nem saltou para ter que cabecear, a bola foi-lhe mais à cabeça do que a cabeça à procura da bola, e esta saiu muito por cima da barra.

Nuno Espírito Santo não estava satisfeito com o que via. E resolveu-se a fazer mudanças, aos 69′. Otávio e Herrera saíram. Sérgio Oliveira e André André fizeram-lhes as vezes. A ideia? Talvez forçar a entrada na área do Estoril pelo corredor central. Pelas alas — onde muitas vezes Otávio e Herrera descaíam, o primeiro à esquerda e o segundo à direita — estava visto que o FC Porto não entraria. O mais que conseguia fazer era cruzar. E insistia, vira o disco e toca o mesmo, nos cruzamentos de Maxi e Layún. Resultado? Zero. Ou melhor, zero a zero, e o empate não havia forma de se desempatar. É verdade: o FC Porto controlava o jogo. Mas a criatividade (mais a mais com a saída de Otávio) na construção ofensiva escasseava. Tudo era monótono, lateralizado em demasia, e os defesas do Estoril tiravam rapidamente a pinta — e, com ela, o perigo — aos ataques do FC Porto.

Nada se alterou na tática. Nem no que esta oferecia ao jogo. Mas Sérgio Oliveira, o tal que entrou para pensar pelo centro o ataque do FC Porto, foi pelo centro — mas na área — que quase fez o 1-0. Layún cruzou desde a esquerda, mas Sérgio (que se antecipou bem ao central Thiago Cardoso) falhou o desvio para a baliza; tal como falhou Corona, ao não desviar ao segundo poste o primeiro (e torto) cabeceamento de Sérgio. Mas lá diz o ditado, tantas vezes o cântaro vai à fonte… Foi tudo tirado a papel químico, não só do lance anterior, como de todos os lances. Layún, à esquerda, puxa a bola para dentro e cruza para a área com o pé direito. Invariavelmente, Dankler antecipava-se a André Silva e cortava. Agora foi o oposto, antecipou-se André, e cabeceou para o 1-0, desviando de Moreira. André que marca há cinco jogos consecutivos.

A fechar, mais uma defesa de Moreira. Ele que só não foi um cinco no Totoloto porque não travou o cabeceamento (perfeito, de cima para baixo) de André Silva. Sérgio Oliveira colocou (91′) a bola, milimétrica, na esquina da área, ligeiramente à esquerda, e Felipe ganhou a frente Lucas Farias. Depois, tentou rematar. E rematou. Só não fez o golo, o 2-0, porque o guarda-redes do Estoril foi veloz a sair da baliza, fez a “mancha”, e evitou males maiores. Mas o “mal” estava feito: o FC Porto venceu.