“Esta é uma história simples de amor” anuncia o trailer do filme Refrigerantes e Canções de Amor pela voz do seu argumentista, Nuno Markl. O tema pode não ser inovador, no entanto o enredo e as personagens vêm mostrar que a história quer fugir do habitual. Na realização está Luís Galvão Teles e o elenco engloba nomes tão diferentes como Victoria Guerra, Sérgio Godinho ou Ruy de Carvalho. Estreia esta quinta-feira, 25 de agosto, nos cinemas, mas antes o Observador falou com alguns membros do elenco e da equipa.

E são estes os primeiros a adjetivar o filme de “bizarro” e “insólito”. Refrigerantes e Canções de Amor conta a história de um músico, Lucas Mateus (interpretado por Ivo Canelas) e do seu amigo Pedro Capelo (João Tempera). Ambos tentam singrar no mundo da música, Lucas não consegue, ao contrário de Pedro, cuja carreira a solo segue consolidada. Entre a relação de amizade surge uma mulher, a agente de ambos — representada por Lúcia Moniz — que embora enamorada por Lucas acaba por traí-lo com o amigo. O desgosto emocional e profissional de Lucas, embora visível, é interrompido. O músico começa a fazer jingles publicitários para a empresa Dinosumos, onde vai encontrar um novo amor.

[Veja aqui o trailer do filme Refrigerantes e Canções de Amor]

https://www.youtube.com/watch?v=qBgRrWqk9qo

A paixão acaba por acontecer de forma estranha — a amada é a mascote da empresa Dinosumos, que apesar da voz feminina e doce e da descontração com Lucas, não retira a máscara de dinossauro. O romance continua com os mesmos rituais de um casal apaixonado: há declarações de amor e jantares românticos, e há sempre um fato cor-de-rosa pelo meio do enredo.

Tendo Nuno Markl como argumentista, a comédia não falta, mas a música também não. “Achei que deveria retirar a história do universo dos humoristas, porque sentia que me estava a expor demais, por isso coloquei músicos como protagonistas”, diz ao Observador. Embora o centro seja a história de amor de Lucas e da dinossaura cor-de-rosa, há narrativas paralelas a acontecer. Como Pedro Capelo a desejar mais sucesso na música, os planos maquiavélicos de um assassino — interpretado pelo cantor Sérgio Godinho –, ou até Jorge Palma — que surge em nome próprio no filme — como conselheiro de Lucas.

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O cartaz do filme com o elenco principal

Este novo filme surge depois de O Gelo, com Luís Galvão Teles a passar de um drama para uma comédia romântica com uns toques de musical. O realizador afirmou ao Observador que “a dupla personalidade” do seu trabalho, entre o sério e o cómico, tornou o argumento de Nuno Markl “algo curioso e apetecível”. “Atraiu-me muito a ideia de uma comédia do Markl, com um humor multifacetado, mas também iconoclasta: histórias que vão além do já dito e que significam algo para as pessoas”, afirmou.

O realizador adquiriu os direitos do texto do humorista e tentou durante algum tempo reunir financiamento. A preparação do filme começou em fevereiro, em abril iniciaram a rodagem e a 5 de julho as gravações estavam fechadas. “Foi um filme em modo expresso, mas ainda assim, cuidadoso”, confessa Luís Galvão Teles.

Embora alguns pormenores do texto fossem constantemente debatidos entre o argumentista e o realizador, Luís Galvão Teles defende que parte da “riqueza” de Refrigerantes e Canções de Amor veio do facto de já ter sido idealizado para cinema. “O Nuno Markl é um grande admirador de cinema, portanto procurei manter a fidelidade à história que tinha escrito”, refere.

A vida de Nuno Markl num supermercado

Além de gostar de cinema, o humorista utiliza grande parte dos episódios do quotidiano no trabalho que produz. Exemplo disso são os sketches de comédia que já realizou ou as rubricas radiofónicas a que dá voz. Este filme não é exceção. “A base de Refrigerantes e Canções de Amor foi o fim do meu primeiro casamento e a constatação surreal que na ida ao supermercado eu não fiquei a pensar nas coisas boas da nossa relação. Fiquei a pensar na estupidez de me ver entre o papel higiénico, os produtos de limpeza e as bolachas. O que não é nada romântico”, confessou.

O “momento de depressão” foi transformado em algo positivo: colocou as suas “mágoas” em frente a um computador e na escrita de um guião de cinema. Depressa percebeu que a solidão não estava a resultar em algo bonito, o texto estava a tornar-se cínico, sem esperança no amor e triste. “A história estava a ser sobre um homem que ficou viciado no supermercado do bairro dele, porque lembrava-se das idas às compras com a esposa”, afirma. Quando Nuno Markl voltou a apaixonar-se, introduziu a personagem da dinossaura cor-de-rosa, que acabou por revelar-se uma das figuras mais emblemáticas do filme.

Ilustração de Nuno Markl em alusão ao filme

Além de pretender saber o que leva a uma pessoa a apaixonar-se por outra, da qual não conhece o rosto ou o corpo, o argumentista revê-se em Lucas no que toca ao processo criativo: “Ele está indeciso se a música que faz é lixo ou se é culturalmente relevante. O mesmo que eu penso todos os dias relativamente ao que faço”, diz entre risos.

Nos papéis principais, João Tempera interpreta o músico Pedro Capelo e Victoria Guerra é a dinossaura cor-de-rosa. Se o ator dá voz a uma ambição desmedida pelo sucesso na música, já a atriz passa a maior parte do tempo coberta e escondida dos olhares de todos.

“É uma personagem idiota e divertida, que tem muito a ver com o universo do Nuno Markl”, diz João Tempera relativamente a Pedro Capelo. No entanto, o ator refere que Refrigerantes e Canções de Amor foi um desafio duplo. Além de iniciar-se no registo da comédia, que “obriga a estar descontraído perante o ridículo e a infantilidade”, Tempera escreveu também algumas canções para a banda-sonora do filme.

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João Tempera e Sérgio Godinho a contracenar juntos em Refrigerantes e Canções de Amor

Já Victoria Guerra confessa que assim que leu o argumento, não hesitou: “Disse que queria dar vida a esta dinossaura, dar vida a este nonsense tão bonito e tão ingénuo, sem pretensiosismo nenhum”. Ficar várias horas dentro de um fato de dinossauro foi mais uma aprendizagem, sobretudo o conseguir expressar-se corporalmente através da pelugem cor-de-rosa. A voz tornou-se um dos instrumentos de trabalho.

“Enquanto atriz deu-me muito gosto fazer isto, porque não pude aproveitar-me do meu olhar e de certas coisas que conseguimos passar enquanto atores. Era mais do que uma cara bonita e eu até agradeço que me tenham colocado debaixo daquele fato”, disse.

Refrigerantes e Canções de Amor estreia-se esta quinta-feira, 25 de agosto, nos cinemas.