Crítica de Livros

Se beber não guie: leia. Mas longe da civilização

Entre os atractivos de "Um Copo de Cólera"? A forma como o enredo e a voz se misturam, de tal forma que a linguagem poética nunca tira o pé do chão, escreve Carlos Maria Bobone sobre Raduan Nassar.

Klaus Mitteldorf

Autor
  • Carlos Maria Bobone

Título: “Um copo de cólera”
Autor: Raduan Nassar
Editora: Companhia das letras
Páginas: 116 pp

Um copo de colera

É um copo mas podia ser um gole, já que a beber se beberia de um trago. Nassar concentrou a tão expansiva raiva num livrinho, de tal forma que o resultado só podia ser este: um livro explosivo, que à boa maneira colérica, rebenta com tudo o que o rodeia.

O livro, a que um autor verboso chamaria conto e a que um tímido chamaria romance, tem o artigo indefinido bem posto: descreve apenas um, entre tantos, episódios de cólera. Prova-o não só o capítulo final da narrativa, em que a rapariga volta ao quarto do seu amante adversário, como se a normalidade regressasse ao lar, já habituada à tormenta; mas mostra-o também o princípio, que só o é do livro, da vida é apenas um dos muitos meios, que a apanha já bem avançada. Nassar começa a história com “E quando cheguei à tarde na minha casa…”, como se continuasse uma conversa já começada, como se transpusesse apenas uma talhada de um romance já posto a meio. De facto, não há apresentações nem primícias narrativas, apenas uns capítulos de proscénio em que já se pressente a ira, a levedar com paciência nos porões da Natureza. Apanhamos o barco já em trânsito, meio zonzos do embate repentino, não só com a fúria, mas com a própria linguagem.

É que este é um dos grandes atractivos de Um Copo de Cólera: a forma como o enredo e a voz se misturam, de tal forma que a linguagem poética nunca tira o pé do chão, nem a fúria despe a casaca da elegância; e, mais até do que a forma como se misturam, a forma como se mantêm apartados, cada um com o seu interesse próprio e original.

A linguagem tem – passe o pleonasmo – muito que se lhe diga. Não só pela forma original de conjugar, de misturar tempos verbais, mas sobretudo pela habilidade necessária para não empecer com isto a história e conseguir ainda acrescentar-lhe elasticidade. Faz lembrar, nisso, o Almeida Faria da Paixão (veja-se o princípio, por exemplo, para perceber como é possível contar uma história a partir do infinitivo); noutros pontos, lembra e junta com vantagem uma série de tradições literárias que, independentes, já ensonam a literatura dos seus países de origem.

Em Portugal, já dizia Joaquim Paço d’Arcos numa conferência sobre a sua Ana Paula, parece difícil fazer estilo literário sem dar ao leitor a sensação de que repontam uns bigodes oitocentistas, de uma perda de autenticidade, como se um monóculo vítreo vedasse o acesso dos olhos à vida romanceada e sem que do uso de mais algum vocabulário não ressumbres sempre uns ressaibos de ironia queirosiana, impressos a sépia, sem o donaire original. Fora da escola regional, à Camilo, e da Escola primária – uma e outra das mais fluorescentes entre as letras – qualquer aspiração a elegância que escape ao círculo maldito da escrita de chofre parece apenas uma edição pirata da Campanha Alegre.

Noutros portos de língua portuguesa, porém, o fantasma que inquina a mão dos escritores é outro: João Guimarães-Rosa, o inventor de um crioulo próprio, arrancado ao português mas preso apenas às suas reminiscências, nem à sua gramática nem ao seu vocabulário, obriga os vates modernos a igual esforço criativo. Todo o português é remexido para tirar uma invenção semântica ou uma confusão gramatical, como se a libertação do português fosse garantia da emancipação colonial.

Dominar a linguagem

Nassar, no entanto, junta o melhor dos dois mundos e descarta o resto. Liberta o bom português da serventia à descrição irónica, é inventivo no uso da gramática, mas não cai no forçado labor de um novo dicionário que tem impedido aos escritores a criação de uma nova literatura. A linguagem é dominada com perfeição, não à maneira de um erudito coca-bichinhos, mas com a cultura de um Homem de gosto, não se exime de usar as grandes palavras para os grandes temas, sem a vergonha que leva a tradição portuguesa a querer usá-las, desde que protegida pelo artifício irónico, tem gosto para distinguir o trigo do joio no que toca a experimentalismos e sabe fundir a elegância com as baixezas próprias da fúria. A sabedoria discreta casa com a rusticidade própria de uma personagem (pelo menos, imaginamo-lo) criada a maço de operário, junta bem o que é de cortesão e o que é de carroceiro, de roça e de carroça, rústico e ordinário, de Portugal ou do Brasil, Guimarães ou Nouveau Roman ou Fruelas portucalenses.

Entra sem cerimónia no terreno dos maiores, dos grandes clássicos, e não só em matéria de estilo: a cólera também é terreno em que se experimentaram os mais autorizados autores, com Séneca à cabeça de todos, a fazer de coroa. Do Romano saiu uma longa carta, em vários livros (De Ira), sobre o assunto. Glosa sobre os males, sobre as personagens que mais penderam para ela, sobre o rugir de faces e os rugidos de leão, as manifestações corporais e os efeitos éticos da ira. Nassar escusou-se a tudo isto, mas aquilo que Séneca descreveu, Nassar mostrou.

Explica o romano que a Ira não vem da injúria; os leitores do brasileiro percebem-no quando um pormenor tão comezinho – uma cerca estragada – espoleta uma cólera soberba sobre a namorada, que nada tem que ver com o assunto. Nassar segue Séneca no modo – este diz que a fúria não vem por etapas, que de uma assentada destrói tudo, o querido e o não querido; também a tempestade no copo é confusa, mistura traumas, discussões ideológicas, verga trabalhadores e hipoteca amores. Séneca dá como causa para a Ira a cedência aos prazeres da sensibilidade, Nassar cria um preâmbulo sexual que o comprova. Séneca acusa a ira de fraqueza, defeito que a namorada também aponta ao principal. Séneca diz que a ira nasce da vontade de reparar uma injustiça, justaposta à impotência para o conseguir; que a ira é o consolo dos fracos, incapazes de corrigir o mal e que por isso, não o destroem a ele, mas tudo o que os rodeia. Ora, também a cólera de Nassar poreja em toda a parte impotência: a mulher chama ao principal “fascistão” pela sua vontade de domínio, por querer mostrar que ela aprendeu tudo com ele; o Homem tem consciência da meia falsidade da cólera, da sua e da dela, pois que, como explica Séneca, a ira nunca se alimenta do íntimo, nem é imediata, implica um esforço de manutenção.

A obra de Nassar, embora confusa por seguir a rota da cólera – talvez a mais desordenada das paixões – traz alguns elementos filosóficos interessantes: na forma como a conversa gira sobre vários assuntos, além de nos dar a conta-gotas informação sobre o carácter das personagens (mais misantropo um, mais pretensiosa outra…), provoca uma reflexão perturbadora sobre a contradição do Homem que magoa para ser amado, sobre a forma como o sexo se traduz em vontade de poder, em domínio maternal, ou sobre o carácter efémero de uma paixão – qualquer que ela seja –tão violenta.

O livro peca, por vezes, por excesso de análise no diálogo, coisa aliás difícil de evitar: como o narrador é parte interessada no diálogo, tem por vezes de o interromper para lhe depurar a substância. Pese embora isto (que, a bem dizer, pesa muito pouco), é admirável a forma como se seguem assuntos importantes uns atrás dos outros, marcas de carácter, problemas sociais, sem que haja – uma vez que seja – saltos notórios, cortes na cena perceptíveis a olho nu. Dizia-se de Zola que a precisão naturalista era tanta que, se a um estudante de medicina não lhe apetecesse pegar no Harrison’s, podia procurar nos Rougon-Maquart a gripe de uma personagem que aí teria a descrição científica precisa; aos casuístas psicológicos poderíamos dizer o mesmo deste livro de Nassar: tem o comportamento, as causas, as soluções, e ainda um acrescento de beleza para as naturezas médicas mais sensíveis.

Não há grande hipótese: meio cheio ou meio vazio, é sempre um belíssimo copo.

Carlos Maria Bobone é licenciado em Filosofia. Colabora no site Velho Critério.

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