Rádio Observador

Vodafone Paredes de Coura

Vodafone Vozes da Escrita – Bem dita poesia

Gisela, Samuel, Capicua e Adolfo protagonizaram leituras fatídicas, apaixonadas, melancólicas e revoltadas. O público testemunhou a eternidade de um momento improvável: poesia num festival de verão.

Gisela João

Por ocasião da 24ª edição do mítico Festival Vodafone Paredes de Coura, a Vodafone reeditou o sucesso da iniciativa que fez subir ao palco a literatura através da voz de quem a diz. No verão passado, o Vodafone Vozes da Escrita contou com a participação de Matilde Campilho, Pedro Mexia, Carlos Vaz Marques e Rui Cardoso Martins. Sem limites de género literário ou de modos de leitura, os textos escolhidos brotavam dos campos da poesia, das letras de canções, de excertos de romances ou até de crónicas. Este ano, nada mudou no conceito, houve apenas uma ligeira alteração no que respeita à atividade principal dos intérpretes. Se a primeira edição contou com a presença de escritores, tradutores e jornalistas, enfim, gente das letras, este ano os convidados foram todos eles gente da música.

Apresentaram-se aos pares para subirem ao palco em dias diferentes. A 18 de agosto, a sessão do Vodafone Vozes da Escrita abriu com Gisela João e Samuel Úria. Dois dias depois, foi a vez de Capicua e Adolfo Luxúria Canibal. Estará agora a pensar que, afinal, também estes são nomes da escrita. Sim, todos estes músicos ou cantores são também, em certa medida, autores e intérpretes de letras cuja densidade literária é tudo menos acessória. Lá está. Mais uma razão para darem voz a esta segunda edição do evento.

Bem cedo para o horário dos festivaleiros (pela hora do almoço), o Palco Jazz na relva revelou ser uma boa alternativa aos banhos de rio. Com algum frenesim ambiente e a expectativa pelo concerto dos cabeça de cartaz, LCD Soundsystem, que iriam aquecer a noite deste dia, Gisela João atrai a si, sem grande dificuldade, a atenção de um público blasé que a força da palavra não tardaria a emocionar.

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LCD SoundSystem levaram uma multidão ao Vodafone Paredes de Coura / OBSERVADOR

A fadista de Barcelos e o cantautor de Tondela cruzam palavras. Samuel Úria lê: «Leva esta saudade embora da minha língua / Quaisquer coisas inúteis que estas mãos fizeram / Deixam-me ver a tua beleza quebrada / Tal como farias por aquele que amas». Gisela responde: «Vem matar essa paixão / que me devora o coração / e só assim então / serei feliz, bem feliz…» e, com sotaque brasileiro, a fadista interpela o público: «Não é tão lindo!?».

Antes da atuação, Gisela João confessou, no portal Instagram, que vinha ao festival dar uns mergulhos e matar saudades dos tempos de menina mas, depois de ter sido envolvida pela poesia, acabou por mostra-se rendida. Para as câmaras do canal de televisão oficial do Festival Vodafone Paredes de Coura, sublinhou o encanto da experiência de subir a um palco «partilhado por outra pessoa que também vai dizer poesia».

Inicialmente receosa de que este poderia ser um evento «um bocado pesado, num momento do dia em que a malta está a curtir no rio», confessa a surpresa positiva: «estou feliz, acho que as pessoas gostaram muito e foram super-receptivas».

Já Samuel Úria aceitou o convite prontamente, dado que é uma matéria que lhe é cara e com a qual se «apraz e recreia», acabando depois por confessar o motivo extra que é a sua admiração pela colega de palco: «era com a Gisela e ainda havia a suspeição ou esperança de que ela pudesse cantar, por isso o verão estava salvo».

Para Samuel, o trabalho de seleção de textos incidiu na maior parte em letras de canções, dado que se tratava de um evento num festival. E se a barcelense escolheu sobretudo textos escritos originalmente em português, de Portugal e do Brasil, Samuel Úria trouxe consigo traduções de sua autoria feitas «de uma forma muito literal mas que pareceram soar bem na nossa língua», dando voz às palavras de Tom Waits, Will Oldham, Leonard Cohen e Nick Cave, que ecoaram aos ouvidos de um público cada vez mais rendido a esta iniciativa.

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Samuel Úria / RITA CARMO

Por seu turno, Gisela dirigiu a sua caravela para o Brasil. Anunciando que vai casar «Não sei quando, nem com quem, mas vou!», deu à sua voz poesia pura e dura como o poema «Meteorológica», de Adília Lopes.

No dia 20, o palco recebeu uma nova dupla: Capicua, alter ego de Ana Matos Fernandes, rapper e cronista, e Adolfo Luxúria Canibal, fundador dos Mão Morta, com vários títulos editados que reúnem poemas, crónicas, ensaios e contos. Dois artistas com um sentido crítico apuradíssimo sobre a atualidade e sobre… a escrita. Em dia de mais músicas nos palcos principais, como os The Tallest Man on Earth ou os Chvrches, e também em pleno dia, o Palco Jazz na relva ouviu a voz da rapper com palavras como estas: «Já se vê Lisboa ao fundo que amanhece sonolenta / e o motor do barco reza numa lenga-lenga lenta».

Capicua deu voz à escrita na praia fluvial do Taboão, falando depois para as câmaras da televisão oficial do festival: «é inevitável cantarolar um bocadinho», porque «a minha ligação à música é através da escrita e está por isso integrada». Numa só frase, esta mulher da música, dos espetáculos e dos palcos resume o que é o Vodafone Vozes da Escrita: «para mim, música e palavras vêm juntas».

E foi assim que se abriu esta segunda sessão que depressa fluiria para outra voz, outro tom, mais intenso e não menos poético. O vocalista e mentor dos Mão Morta, Adolfo Luxúria Canibal, optou, entre outros textos, por um poema dos Cantos de Maldoror, de Isidore Ducasse (mais conhecido pelo seu pseudónimo literário, Conde de Lautréamont). Depois da sua leitura, garantiu ter escolhido textos especiais, senão mesmo difíceis: «Não era propriamente poesia muito digesta, era preciso algum estômago», mas confiou no público presente, garantindo que «as pessoas que frequentam Paredes de Coura têm estômago».

Para ficarmos com uma ideia da densidade do texto, ficam os primeiros versos de um dos poemas ditos: «Estou sujo. Roído de piolhos. Os porcos, quando olham para mim, vomitam».

A voz hipnótica de Adolfo protagonizou uma sessão de leitura junto ao rio Coura, foi ritmada pelo cadência da rapper Capicua, emocional e fatídica como as promessas de amor num incerto futuro que nunca chega mas pelo qual se sofre hoje, Gisela João, numa melancolia negra mas encantada como só o sabem escrever Nick Cave ou Leonard Cohen, contou-nos Samuel Úria. Para o ano há mais.

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