A última vez que Michelle Santana Ferreira conversou com a melhor amiga foi algures na última semana de janeiro. “Nós falávamos muito, mas víamo-nos pouco. O último contacto que tive com ela foi pelo chat do Facebook, por aí a 23 de janeiro”, conta ao Observador esta brasileira que vive em Portugal, mas prefere manter o anonimato por “medo”, ao supor que há mais uma pessoa envolvida no crime (embora segundo o “i”, a Polícia Judiciária pense que não houve qualquer cúmplice). Foi nesse dia que a amiga soube que Michelle estava grávida e que se preparava para ir a uma consulta médica no mês seguinte. “Eu ia ser madrinha do bebé e ela estava muito feliz”. Sinais de medo, nenhuns. Às amigas, Michelle tinha garantido que a relação com Dinai Alves Mendes, com quem namorava havia quatro anos, estava “muito boa”. Antes, no entanto, a história entre ambos tinha sido muito atribulada.

O corpo de Michelle Santana Ferreira, uma brasileira natural de Minas Gerais, com 28 anos, foi encontrado em avançado estado de decomposição esta sexta-feira no poço junto a um hotel para cães em Tires, no concelho de Cascais. Dentro do poço foram encontrados outros dois cadáveres: de Lidiana Neves Santana, a sua irmã de 16 anos, que tinha vindo para Portugal no final do ano passado, e Thayane Mendes Dias, uma jovem de 21 anos, que chegara a Lisboa a 21 de janeiro. Thayane e Lidiana eram namoradas. Segundo o i, a Polícia Judiciária acredita que o crime possa estar relacionado com a homossexualidade das raparigas, porque Dinai Alves é muito conservador. As três tinham sido dadas como desaparecidas a 11 de fevereiro, data do último contacto que Michelle manteve com a família.

As suspeitas recaem agora sobre Dinai Alves Mendes, namorado de Michelle, que trabalhava há dez anos no hotel para cães junto ao poço onde as três foram encontradas. Novas informações dadas ao Observador sugerem que Dinai terá agido com a ajuda de um cúmplice. Este dado ainda não foi confirmado.

Isto mesmo contou Solange Santana Leite, mãe de Michelle, à TV Record em abril, quando o caso chegou aos canais de televisão. A 11 de fevereiro, Solange recebeu mensagens vindas do número de telefone da filha mais velha, mas pressentiu que algo não estava bem. “Senti que não era ela que me estava a mandar aquelas mensagens. Disse que fez um teste de gravidez de farmácia e que já estava grávida de dois meses”, contou a mulher ao canal de televisão brasileiro. À mãe, Michelle nunca confessou temer pela vida, nem sequer que era vítima de violência. Mas esse seria um comportamento normal nela, diz ao Observador Maria Aparecida, cunhada das irmãs: “Quando ela foi para Portugal passou muito mau. Passava fome e tudo, mas nós sabíamos só muito tempo depois. Ela não queria preocupar a família“. As amigas, no entanto, contam uma história diferente: “Ela já me tinha dito que tinha de ter muito cuidado. O Dinai já lhe tinha dito que, se ela engravidasse, a mataria e atiraria o corpo dela para um poço”, conta uma das amigas ao Observador.

A melhor amiga da vítima confirma essa informação ao Observador. Quando conheceu o casal, em 2014, durante uma excursão em Portugal, a mulher avisou Michelle para a forma como Dinai a tratava em público. “Disse-lhe para largar aquele homem, que aquilo não era amor, não era como uma relação devia ser”. Os quatro anos do namoro entre Michelle e Dinai eram marcados por constante brigas: “Ele era violento, mas não fisicamente. Se ele alguma vez lhe bateu, ela nunca nos contou. Mas tratava-a mal em público, era verbalmente agressivo“. Quando as amigas chamavam a atenção para aquele tipo de tratamento, Michelle relativizava: “Ele é assim em público, mas em casa trata-me bem”.

Os dois tinham-se conhecido porque Michelle era amiga de uma das mulheres de Dinai. O homem brasileiro tinha duas famílias em sítios diferentes no Brasil. Com uma das mulheres, que estava grávida, Dinai já tinha um filho. Com a outra também tinha um menino. Era com esta última que Michelle se relacionava, numa época em que a brasileira de 28 anos namorava com outro rapaz. Entretanto, esse namoro acabou. E quando a amiga de Michelle voltou para o Brasil, Dinai ter-se-á apaixonado por ela.

Semanas antes de as três mulheres terem desaparecido, quando o casal estava separado, Michelle foi assaltada enquanto conversava com uma amiga ao telemóvel no percurso entre o trabalho e casa. “A nossa amiga disse que só ouvia socos e a Michelle a gritar por socorro”. Depois o telefone desligou-se. A amiga voltou a ligar e ameaçou o suposto ladrão de que iria avisar a polícia, mas a chamada caiu. Entretanto, conseguiu entrar em contacto com Dinai. “Eu não vou ter com ela”, terá dito o homem. “Ela vai achar que eu só quero ir atrás dela”. Mas acabou por encontrar-se com Michelle que, nesse momento, já estava a ser colocada na ambulância para seguir para o hospital. Michelle passou a noite na casa de Dinai, em São Domingos de Rana. Dois dias depois, voltou ao apartamento onde vivia em Lisboa. O quarto de Michelle tinha sido assaltado. Todas as outras divisões estavam intactas.

Do quarto de Michelle, que ela usava quando estava separada do namorado, desapareceram todos os documentos que estava a reunir para pedir nacionalidade portuguesa. Isso incluía a certidão de nascimento e o passaporte. Também o computador e o dinheiro que Michelle tinha amealhado se tinham evaporado. Nas restantes divisões, tudo estava normal. “A senhoria de Michelle até estranhou. Disse que a fechadura não tinha sido arrombada, por isso teve de ser alguém com acesso à chave“, explica ao Observador a melhor amiga, que só soube do assalto já depois do desaparecimento das amigas.

Michelle não desconfiava de Dinai, que até parecia mostrar preocupação pela namorada. “O Dinai não a queria deixar sozinha, por isso é que chamou a irmã dela, a Lidiana”, conta a amiga das vítimas. “Mas agora, olhando para trás, isso também nos assusta um pouco”, confessa. Na altura em que Lidiana foi convidada pela irmã para vir para Portugal, o cunhado também terá chamado uma terceira irmã de Michelle. “Mas entretanto soube-se que a outra irmã estava grávida. Quando Dinai soube disso, disse-nos ‘Então essa não precisa de vir. Aqui não nos serve de nada‘”. Quando o desaparecimento das três mulheres foi reportado à polícia, a família concluiu destas palavras que ele teria intenção de as vender ou traficar. A morte nunca lhes tinha passado pela mente.

Uma semana antes do desaparecimento de Michelle, da irmã e da cunhada, a esposa que Dinai mantinha no Brasil veio a Portugal. O homem disse aos amigos e à família de Michelle que as três raparigas tinham ido morar para “o outro lado do rio” e que tinham saído das redes sociais para não serem encontradas pela patroas. Pouco depois, voltou para o Brasil e deu outra versão: “Ele disse que a Michelle estava sempre a dizer que queria ir para a Inglaterra ou para os Estados Unidos. Mas é tudo mentira”, garante uma amiga. Mas não havia registo nem da saída de Portugal, nem de uma entrada no Reino Unido. De acordo com a cunhada de Michelle, a versão dada por Dinai pode basear-se num boato que havia surgido pouco antes de Thayane ter ido para Lisboa: “Dizia-se que a Thayane tinha conhecido um rapaz em Inglaterra que a tinha enchido de promessas. Mas depois nunca mais ouvimos falar de nada”.

Dinai Alves Mendes é descrito como “um homem calmo” pela melhor amiga de Michelle. “Eu tinha de olhar nos olhos dele para acreditar que foi ele quem fez isto. O meu filho adorava-o. Eu cheguei a confiar-lhe o meu filho uma tarde, durante uma viagem, e correu tudo bem”. De acordo com as declarações do comandante do Bombeiro Voluntário de Parede à agência Lusa, “o alegado autor dos crimes já estava no Brasil e através da investigação das autoridades portuguesas e brasileiras o suspeito foi detido e foi possível localizar os corpos”. Os três cadáveres já estão no Instituto de Medicina Legal.