Michael Phelps, Simone Biles, Usain Bolt. O fim dos Jogos Olímpicos Rio-2016 tem uma semana de vida e já é coisa de um passado distante. Que isso não se traduza em ausência de medalhas. Nem pensar. Ouro, prata e bronze é uma tripla essencial ao nosso bem-estar. Para evitar um desprendimento quase total com as emoções olímpicas, sugerimos Bruno César, Rúben Semedo e Gelson como ouro, prata e bronze do clássico em Alvalade, bem ganho pelo Sporting ao apático Porto (2-1), para a 3ª jornada do campeonato.

Para começar, um pormenor delicioso sobre os guarda-redes, ambos campeões europeus de selecções (Patrício de um lado, Iker do outro). É a magia do futebol português a funcionar. O Porto até entra bem melhor, com André André a coordenar o ataque portista e a alimentar os avanços relâmpagos de André Silva. Como tal, a equipa de Nuno é premiada com o golo de Felipe. Isso mesmo, o central brasileiro volta a marcar depois do 1-0 em Roma, na terça-feira, para o play-off da Liga dos Campeões. De uma falta de Adrien sobre Danilo, resulta o livre de Layún para o segundo poste. Felipe aproveita a desatenção de Bryan e empurra a bola com o pé direito para a baliza de Patrício. É o primeiro golo sofrido pelo Sporting no campeonato 2016-17, ao fim de 189 minutos. E é também o primeiro sofrido por Patrício desde o 1-0 do polaco Lewandowski nos ¼ do Euro – daí para cá, 517 minutos a zero. É obra. Mais, o Porto não marcava em Alvalade desde 2010, por Falcao. Até hoje, uns quantos zeros e o autogolo de Sarr há três anos.

No banco, Jesus faz o que lhe compete e muda inteligentemente o esquema táctico ao puxar Bruno César para o meio e empurrar Bryan para a linha. O Sporting dá finalmente um ar de sua graça e assume-se anfitrião. O Porto desaparece momentaneamente do radar. Aos 13’, livre a favor do Sporting. Na marcação, Bruno César atira ao poste com Casillas pregado do relvado. Na recarga, Gelson domina com a coxa e atira à baliza. O braço de Casillas impede a bola de entrar e ei-la a cirindar a linha. De trás, Slimani vem com força e toma lá disto. È o 1-1. E é também o quarto golo do argelino ao Porto na 1ª divisão. O último sportinguista a consegui-lo é Jordão, em 1983.

Cresce o Porto, com os Andrés mais Otavio a dar água pela barba a quem lhes aparecesse à frente. Pormenor: Patrício não é tido nem achado nestes movimentos portistas. Ou seja, o meio-campo do Sporting deixa-se dominar, a defesa nunca. E porquê? Simples, Rúben Semedo faz uma das melhores exibições de sempre. Se é ultrapassado em velocidade por André Silva, corta in extremis de carrinho, cheio de carrinho. Se é apanhado em contrapé, joga na antecipação com uma classe do além. Medalha de prata para o homem, pá.

Aos 26’, o momento da viragem por Gelson. O cruzamento para a área é de Bruno César e Felipe corta de cabeça contra o corpo de Bryan. A bola sobra para o miúdo, autor de um pontapé forte e colocado, fora da área. É o compreensível delírio nas bancadas. Quer dizer, o Sporting não vira um resultado no clássico em Alvalade desde 1976. Sim, mil-nove-e-setenta-e-seis. Há 40 anos. Na altura, um bis de Chico anula o atrevimento do grande, enorme Cubillas. Agora é um rapaz a mexer com a história. Gelson, de seu nome. Está no 1-1 e é autor do 2-1. Mágico. Bronze com ele, só pode.

E o ouro? Bruno César. O número 11 é mais um 31 para o Porto pela maneira como enche o campo em diagonais, umas vistosas, outras invisíveis. Por falar nisto, o Porto não aparece. E assim será em quase toda a segunda parte. Nem com Óliver. Como no clássico de Alvalade em 2014, o espanhol entra ao intervalo (na altura, substitui Ruben Neves; agora, é Corona quem sai) e nada muda. Um passito p’a atrás, outro adelante é pouco, muy pouco. Compreende-se. Falta-lhe rotina. O Porto ressente-se imenso e não incomoda Patrício, um dos 49.399 espectadores em Alvalade. Bom, com ele será conta certa: 49.400.

E não mexe mais. Porque o Porto não carbura. Otávio é o único a soltar-se e tem um detalhe delicioso aos 66’, em libertar-se de dois sportinguistas num palmo de terreno. Acto contínuo, liberta a bola para Marcano cujo remate sai-lhe torto, sem nexo. Tal como o cabeceamento por cima de André Silva, ligeiramente mais tarde. Mais perigoso, muito mais, é William: aos 53’, obriga Casillas à defesa da tarde na sequência de um canto de Bruno César (lá estáááááá); aos 89’, faz um passe para o guarda-redes num lance em que está totalmente enquadrado com a baliza e isolado até mais não.

Atenção, temos de puxar o filme atrás. A culpa é de William, recuperador de uma bola a meias com um cotovelo na cara de Otávio. O árbitro Tiago Martins (receberia o diploma olímpico pelo juízo dos lances e tranquilidade total) pára o jogo e mostra-lhe amarelo. Cai o Carmo e a Trinidade. Mais Jesus. E ainda Varandas. Ambos recebem ordem de expulsão por protestos airosos. No banco sportinguista, mantêm-se Raúl José, Octávio Machado e Bruno de Carvalho. É esta tripla (atribua-lhes, o leitor, as medalhas pela ordem desejada) a acabar o clássico na maior serenidade possível. Aos 90’+3, todos os jogadores, à excepção de Bruno Paulista, arrastam-se pelo campo e pedem o soar do apito. Quando este chega, o Sporting celebra uma vitória justa mais a liderança isolada. Pela primeira vez desde Abril 1988, o Sporting ganha dois clássicos seguidos ao Porto em Alvalade para a 1ª divisão. E pela primeira vez desde Fevereiro 1976, o Sporting ganha três clássicos seguidos ao Porto na 1ª divisão (inclui-se aqui Antas ou Dragão, conforme os tempos).

Aí estão os 31 artistas da tarde

Sob a arbitragem de Tiago Martins (Lisboa)

SPORTING: Patrício; João Pereira, Coates, Semedo e Zeegelaar; Gelson (Campell, 69’), William, Adrien (cap) e Bruno César (Mané, 88’); Bryan (Bruno Paulista, 69’) e Slimani

Treinador: Jorge Jesus (português)
PORTO: Casillas; Layún, Felipe, Marcano e Teles; Herrera (cap), André André (Delpoitre, 74’) e Danilo; Corona (Óliver, 46’), André Silva e Otávio (Adrián, 84’)

Treinador: Nuno Espírito Santo (português)

Marcadores: 0-1, Felipe (9’); 1-1, Slimani (14’); 2-1, Gelson (26’)

Indisciplina: expulsão do treinador sportinguista Jesus (61’) e do médico sportinguista Frederico Varandas (61’)