Título: “Espanha”
Autor: Jan Morris
Editora: Tinta-da-China
Páginas: 234

espanha

À literatura de viagens, o último século sonegou grande parte do seu maná. Na Europa antiga, uma grande viagem era também uma grande excepção, que por si só merecia o registo livresco: Egéria a peregrinar a Jerusalém, Marco Polo pelo Oriente, Montecorvino a converter Tártaros e Arménios… todos eles podiam dedicar-se a uma relação aturada dos costumes diferentes e modos pitorescos, gestas do exótico, que com isso logo ganhavam com a verdade todo o capital que só a custo de muita imaginação os outros conquistavam.

Depois, os descobrimentos trouxeram a bonança ao viajante, a viagem à moda, e a literatura mais fértil sobre os recantos desconhecidos pela Europa: não falamos apenas da Carta de Pêro Vaz de Caminha ou da azáfama da Peregrinação; a viagem deixou de ser a Covadonga de aventureiros e penitentes, para lustrar também raciocínios filosóficos. Gracián, Montesquieu, Persas, Índios, mais tarde mandarins queirosianos e abencerragens à Chateaubriand: a própria ideia de estrangeiro motivou discussões sobre a universalidade da moral ou vícios de razão despida; ao arquivo pitoresco, com as usanças singulares, juntou-se a fenomenologia do estrangeiro, com os costumes universais.

Agora, com a vulgarização da viagem, em que não há troglodita que não tenha a toca futucada por um curioso ocidental, nem tuaregue em romagem sem uma procissão de touristes no encalço; agora que é mais fácil encontrar o nome de Ronaldo numa camisola amazónica e os Tupis a flautearem John Lennon no Rossio, do que encontrar um Tupi na Amazónia e um português no Rossio; agora que os viajantes conhecem melhor os costumes peculiares do que os próprios locais e que a tão estafada globalização vai aplanando a moral própria, de que é que se pode valer a literatura de viagens?

Jan Morris, como boa viajante, não fica para responder à pergunta: foge. Foge para o único lugar da Europa em que ainda é possível encontrar um país autocentrado – Espanha (originalmente publicado em 1964) é um livro sobre o entono fidalgo de um “país absurdo”, mórbido, romântico como um cigano, grandioso e estilizado. País de luz e sombra, de flora agreste e pobreza, de grandeza perdida, orgulho ferido e uma estranha e já rara solidão, que lhe dá um carácter singular numa Europa uniformizada.

Morris organiza Espanha à volta de quatro cidades e mais três regiões. Salamanca, Ávila, Castela e Toledo, a que se juntam a Andaluzia, Catalunha e País Basco. A cidade das enfunações escolásticas, a cidade religiosa, o bastião da autoridade e o alcácer do casticismo por excelência. A estas juntam-se a região romântica e as regiões cosmopolitas. É à volta destes elementos que todos os temas – da pintura à política, da História à etnografia – circulam.

Com maior ou menor descrição geográfica, Jan Morris caça algumas características basilares de Espanha e todo o resto varia sobre essas características. A arte, seja de Goya ou de El Greco, de Cervantes ou de Lorca, tem o realismo estilizado dos espanhóis; os lemas da falange, os episódios do Alcazar de Toledo, os 16 mil padres mártires num dia sem que um só apostasiasse, confirmam o espanhol como um povo de relação peculiar com a morte; a profusão de padres, Torquemada, o tratamento dos Judeus ou Salamanca deserta são o lado sombrio de um autoritarismo espanhol; os ciganos, o Alhambra, os ademanes do Al-Andalus, castanholas e flamenco, símbolo da Espanha em festa, romântica, que seduz os passantes.

Como a própria autora diz, há pouca coisa que se possa afirmar sobre Espanha sem que o contrário não seja também verdade. Do livro, no entanto, não se pode dizer o mesmo: o que falha é, precisamente, a riqueza que se nota na diversidade espanhola. O método é sempre o mesmo: confirmar exaustivamente, com exemplos, as impressões vagas de carácter popular, e topografar a paisagem completa ao som da petite-histoire: anedotas como a do Duque de Valência que, na última confissão, não tinha inimigos a quem perdoar, porque os tinha matado a todos.

O livro tem interesse, sem dúvida, mas no “sim sim, não não” que, segundo a autora, é tão característico de Espanha, este livro podia ser a bissectriz. O encanto do livro não vem de Jan Morris ter escrito uma grande obra; mais do que o catálogo, interessa a colecção: enquanto arquivista de costumes e de curiosidades, Jan Morris tem interesse, mas porque Espanha tem interesse. O encanto quixotesco, a coragem bélica, a “fúria”, o “viva la muerte” dos falangistas, têm interesse por si sós; o dedo de Jan Morris não entra onde entraram os olhos dela.

Podia melhorar o livro com alguns pensadores essenciais sobre as “dos Espanas”, explorar a literatura para lá do Quixote, para a hispanidad mais pura de Bécquer ou Maeztu, conhecer as famílias que Espanha honra, subir ao Cristo do sorriso que reina sobre Xavier, enfim. A preocupação, note-se, não passa por ser exaustivo. Até podia não ter visto a dama de Elche, não conhecer o Quixote nem ter ensanchas de ouvir o flamenco, tapar o coração céptico às montanhas de Loyola e à lírica de Teresa de Ávila. Podia, se lhe interessasse mais o estudo de carácter, da religião ou do povo Espanhol, do que interessa a historieta. Esta, embora entretenha, é pequena, não só em extensão mas em alcance.

Talvez com uma viagem não se possa alcançar mais; mas quando, em qualquer parte do mundo, é já mais fácil ir a Espanha do que encontrar um bom livro sobre ela, a obra não pode reflectir apenas uma viagem, mesmo que em boa companhia.

Carlos Maria Bobone é licenciado em Filosofia. Colabora no site Velho Critério.