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Acabou. Depois do Sporting-FC Porto, acabou. Slimani deve realizar este domingo, no clássico, o derradeiro jogo pelo Sporting.

A “novela” em torno da saída ou não do argelino durou o verão todo. Até ao dia 15 de julho, a cláusula de rescisão de Slimani era de 30 milhões de euros. Quem o quisesse — e muitos queriam, da China a Inglaterra –, teria que os pagar. Ninguém pagou. Depois desse dia, e com a cláusula expirada, Slimani só deixaria o Sporting pelo valor que o clube entendesse. Ou melhor, que Bruno de Carvalho entendesse. Agora, e com dinheiro a rodos vindo da Premier League e dos direitos televisivos em Inglaterra, dois clubes, West Bromwich Albion e Leicester, tentam a contratação do argelino a poucos dias do encerramento do mercado de transferências. E estão dispostos a pagar 30 milhões de euros.

— Então, mas a cláusula não expirou?

Expirou. O que não quer dizer que o Sporting não venda Slimani por esse valor. Ou menos. Ou mais. Pouco antes da tal cláusula expirar, o presidente do Sporting falou de uma proposta de “80 milhões” (não se sabe se de yuans ou euros) que recebeu da China. O pagamento era “a pronto”, lembrou Bruno de Carvalho. Mas, verdade seja dita, não disse “S-l-i-m-a-n-i” com todas as letras — embora deixasse entender que o pretendido pelos chineses era mesmo o argelino. Nessa altura, e entre os dois, Bruno e Slimani, terá sido acordado — num acordo de cavalheiros –, que se chegasse a Alvalade (de Inglaterra ou não) uma proposta de 30 milhões de euros pelo nove do Sporting, o clube aceitaria negociá-lo pelo valor da anterior cláusula. E essa proposta terá mesmo chegado — ou está em vias de chegar, formalmente. Tanto que, na última quinta-feira, deu entrada na Embaixada do Reino Unido um pedido de licença de trabalho para terras de sua majestade. O requerente? Um tal de “Islam Slimani”.

Uma coisa é certa: Slimani será titular amanhã contra o FC Porto. Para mal dos pecados de Nuno Espírito Santo, será. É que o ponta-de-lança argelino é, em Portugal, quem mais golos faz aos portistas. Na primeira época, 2012/13, só fez um, à 23.ª jornada. Na época seguinte, “bola”, nem um. Mas na última, não só molhou a sopa em Alvalade e no Dragão, como bisou nos dois jogos. Ao todo, cinco golos. Ninguém, nem Jonas, nem Mitroglou, nem Teo Gutiérrez — entretanto “despachado” para a Argentina –, fez tantos. Ninguém.

Quem não jogará o clássico, e isso também é certo, é João Mário, que já está confirmado em Milão e anunciado o seu contrato com o Inter. Contra o Marítimo, na primeira jornada, João Mário ainda foi titular, mas em Paços de Ferreira, na segunda, nem sinais dele. E aí, na Mata Real, Jorge Jesus teve que inventar um “Manel” — a expressão é do próprio e é antiga, surgindo aquando da escolha do mister para substituir Matic no Benfica. Contra o Paços, o escolhido para ser “Manel” foi Gelson Martins. Mas Gelson não é João Mário; é mais extremo do que médio-ala, o que deixou o lateral João Pereira com água pela barba, pois o flanco fica muitas vezes a descoberto de quem por ele quiser subir na direção da área do Sporting. E o FC Porto também não é o Paços de Ferreira. Com Ótavio e Alex Telles na esquerda portista, ou bem que Gelson defende, ou bem que João Pereira não dá sozinho conta do recado. E se Gelson sair? Há dois “Maneis” à espreita: ou Marcelo Meli ou Joel Campbell. Mas trocar Gelson por Campbell não aquece nem arrefece. Pelo menos defensivamente. O costa-riquenho até pode ser titular, mas a sê-lo, será sempre no apoio a Slimani, numa posição mais central e de segundo avançado — como a que outro costa-riquenho, Bryan Ruiz, vem fazendo, derivando Bryan mais para um das alas. Só este domingo, às 18h00, se saberá em que “Maneis” aposta Jesus, se em um, se em mais.

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Sporting: Patrício; J. Pereira, Coates, R. Semedo e Bruno César; William, Adrien, Meli e B. Ruiz; Campbell e Slimani.
FC Porto: Casillas, Layún, Felipe, Marcano e A. Telles; Danilo, Herrera e Óliver; Corona, Otávio e A. Silva.

Quanto ao FC Porto, e depois da vitória (ou melhor: goleada, 3-0) no estádio Olímpico, em Roma, está mais motivado do que nunca. É verdade que não deslumbrou (nem o Sporting, diga-se) nas primeiras jornadas “caseiras”. Não tanto quanto no derradeiro jogo da 3.ª pré-eliminatória da Champions, mas também é verdade que é líder (seis pontos) a par do adversário no clássico.

Entretanto, e depois da vitória diante da AS Roma, Nuno Espírito Santo teve um Natal fora de época. De uma assentada, teve um par de reforços — e que reforços! Diogo Jota e Óliver Torres, ambos emprestados pelo Atlético de Madrid. Ao contrário do Sporting, não são “Maneis” para substituir quem está de partida, como João Mário. Mas podem ser “Maneis” em Alvalade, quem sabe titulares. Mas a haver um titular dos dois, esse será sempre Óliver. Estando Otávio e Corona a dar conta do recado na esquerda e na direita, dificilmente Jota entrará tão cedo. Mas o caso de Óliver é diferente: o dez espanhol é um regressado e conhece os cantos ao Dragão.

— Mas, afinal, quem sai para que ele entre?

André André. Ou Herrera. Nuno que escolha. Não que algum deles tenha estado particularmente mal até aqui; não esteve. Mas Óliver acrescenta criatividade, visão de jogo e qualidade (com rapidez) na circulação de bola. E André ou Herrera? Sim, mas não tanto. Óliver é de outra estirpe. E não “estirpe” de banco. Um e outro, André e Herrera, defendem tão bem quanto atacam. Mas André defende mais do que ataca. E contra o Sporting, mais a mais em Alvalade, o resultado decide-se, mais do que no ataque, na defesa. Once again, Nuno Espírito Santo — tal como Jesus — que escolha. E que bom é ter dores de cabeça como as que ele tem.

Sporting. Um recorde com 46 anos à distância de uma vitória

É muito tempo. O FC Porto não vence há sete épocas no estádio José Alvalade. A última vitória foi, curiosamente, também num domingo, mas a 5 de outubro 2008. Então, Lisandro López fez o primeiro golo, João Moutinho empatou de grande penalidade, tendo Bruno Alves “arrumado” o resultado ainda na primeira parte. Contas feitas, vitória (2-1) do FC Porto de Jesualdo Ferreira diante do Sporting de Paulo Bento.

Nuno Espírito Santo quererá matar o borrego de sete épocas já este domingo. E distanciar-se do Sporting logo à terceira jornada. Mas o Sporting também terá um “borrego” para sacrificar — perdoem-me os vegetarianos, vegans e afins, tanta metáfora com carne. Se vencer, o Sporting igualará um feito que vem da época 1969/70: três vitórias consecutivas sobre o FC Porto. Na última época foram duas – as tais em que Slimani bisou sempre. Falta uma. Esta.

É preciso recuar ao velhinho estádio das Antas e a um domingo, 8 de fevereiro de 1970, para relembrar tal feito, o das três vitórias de enfiada. O Sporting era o de Fernando Faz. O FC Porto, o de Manuel Vieira, ou “Vieirinha”, treinador que só esteve sete jogos à frente dos dragões — Vieirinha veio “tapar buracos”; os portistas foram treinados, antes, pelo romeno Elek Schwartz e pelo escocês Tommy Docherty em 1969/70.

Os portistas, à época, tinham Vaz na baliza, Valdemar Barros na defesa e Nóbrega lá na frente. Mas o melhor de todos até estava a meio-campo: o malogrado Pavão. Quanto ao Sporting, era do melhor que à época se via em Portugal: Damas — quem mais? — era o guarda-redes, Pedro Gomes e Hilários dois laterais com pinta de extremo, e havia também uma santíssima trindade de avançados: Joaquim Dinis, Marinho e Lourenço. E foi Lourenço, aos 23′, quem fez o único golo do jogo e estabeleceu um recorde que ainda perdura.

Se vai perdurar mais uns anos ou será igualado já este domingo? Por Slimani não perdurará. Por Óliver, sim. Assim haja Óliver. Slimani vai haver por certo. Pela última vez…