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Manuela de Azevedo. A jornalista que se “apaixonou pelos problemas dos outros”

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Foi a primeira jornalista com carteira profissional e uma das primeiras sócias do Sindicato. Aos 105 anos, Manuela de Azevedo é homenageada numa galeria virtual pelo Museu Nacional de Imprensa.

Manuela de Azevedo foi a primeira mulher a ter carteira profissional de jornalista em Portugal

Autor
  • Rita Neves Costa

Esta quarta-feira, dia 31, Manuela de Azevedo celebra 105 anos e o Museu Nacional de Imprensa preparou uma surpresa para a aniversariante. A jornalista não sabe do lançamento da galeria virtual — que mostra e acompanha a sua vida profissional — criado pelo Museu e apresentado no Sindicato dos Jornalistas, em Lisboa. O projeto engloba vários tipos de materiais como fotografias, entrevistas em vídeo e textos escritos pela própria ao longo da carreira.

A ideia do trabalho surgiu de “forma simples” pelo Museu Nacional de Imprensa, numa altura em que a tecnologia “dá quase tudo à mão de semear”, segundo Luís Humberto, diretor da instituição e coordenador da galeria. Além de ser uma exposição do trabalho jornalístico de Manuela de Azevedo, é também uma panorâmica sobre aquilo que era ser profissional da comunicação social.

Contrariamente ao próprio meio onde a galeria está visível — “não está na rua, num museu físico, mas está na Internet” –, a jornalista de 105 anos nunca escreveu na máquina de escrever ou no computador. Recusou sempre os automatismos e fez-se valer das suas mãos para redigir os artigos. Os últimos livros que publicou foram escritos primeiro à mão e só depois transcritos para um computador.

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Cartão de sócio de Manuela de Azevedo no Sindicato dos Jornalistas © Museu Nacional de Imprensa

É também de Manuela de Azevedo que Luís Humberto recorda ao Observador algumas frases emblemáticas, que serviriam quase de mantras no jornalismo. “Saí do jornalismo com as mãos limpas”, quando se reformou aos 85 anos no Diário de Notícias. Ainda em 1996, a jornalista afirmava uma total independência face aos poderes instalados, fossem eles políticos durante o Estado Novo ou económicos e financeiros.

A defesa do jornalismo enquanto serviço público foi algo que a guiou durante toda a profissão”, diz o diretor do Museu Nacional de Imprensa.

Foi a “paixão pelos problemas dos outros” que a fizeram “escavar” cada uma das histórias da sociedade portuguesa, mas não só. Entrevistou o rei Humberto II de Itália e “ainda ganhou umas libras” quando vendeu o trabalho para meios de comunicação social estrangeiros.

A reportagem em série foi um dos géneros jornalísticos que Luís Humberto acredita Manuela de Azevedo ter inaugurado no meio. “Ao longo de dez reportagens, a jornalista esmiuçou o tema do vinho do Porto, quase como se cada artigo fosse um capítulo de um livro”, afirma. Manuela de Azevedo começou no jornal República, passou pelo Diário de Lisboa e terminou no Diário de Notícias, entre outras publicações onde trabalhou.

Nasceu em Lisboa, mas passou a infância e a adolescência em Viseu. O convite para trabalhar num jornal fê-la viajar para a capital, onde o “ordenado mal chegava para pagar a renda da casa que alugou”. As colaborações no jornalismo tornaram-se mais firmes e a estabilidade financeira chegou. Mais tarde, publicou alguns livros como Claridade (1935), Filhos do Diabo (1954) e Guerra Junqueiro (1981).

Luís Humberto destaca ainda a vertente da jornalista enquanto crítica de teatro. Ao mesmo tempo, realça o impulso que Manuela de Azevedo deu ao ballet da Gulbenkian em conjunto com Madalena Perdigão, esposa de José de Azeredo Perdigão, o primeiro presidente da Fundação Calouste Gulbenkian. Embora aos 105 anos não baixe os braços perante o trabalho — está a preparar um livro com cartas de diversas personalidades portuguesas — já vacilou perante a idade avançada e a morte de um familiar, a irmã.

Ela escreveu um texto sobre o seu gato, Jeremias, e disse-lhe ‘espero que morras antes de mim, senão vais ficar abandonado’”, acrescenta o diretor do Museu.

Dias depois, o animal de estimação morreu e aos 95 anos de Manuela somaram-se mais dez — celebra 105 esta quarta-feira.

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A jornalista também escreveu peças de teatro © Museu Nacional de Imprensa

A “sensibilidade que tinha na vida pessoal” demonstrava-a nas histórias que escrevia nas páginas dos jornais: uma característica que Luís Humberto diz ser diferenciadora “da força que se apropria de uma profissão como o jornalismo”. Manuela de Azevedo foi ainda a primeira mulher a ter carteira profissional de jornalista e é a sócia número 7 do Sindicato dos Jornalistas (SJ). A galeria virtual estará acessível ao público, a partir desta quarta-feira, no site do Museu Nacional de Imprensa.

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Editado por Tiago Pereira
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