Começa a ganhar forma a corrida às eleições presidenciais francesas. Esta terça-feira, Emmanuel Macron, ministro da Economia, apresentou formalmente a demissão, confirmando um rumor que vinha ganhando força há vários meses. Peça-chave do Executivo de Manuel Valls, muito popular entre os franceses, tudo indica que Macron seja candidato à sucessão de François Hollande, nas eleições de 2017. E um sério candidato.

Os sinais da rutura entre Macron e o Executivo francês vinham-se acumulando há muito tempo. A rutura formal, embora desmentida várias vezes pelo próprio, acabou por se confirmar sem grande surpresa. Depois de uma reunião de cerca de 40 minutos com François Hollande, o gabinete do Presidente francês emitiu um comunicado em que confirma a demissão de Macron e a sua substituição pelo experiente Michael Sapin, que acumulará a Economia com a pasta das Finanças.

No primeiro discurso como ex-ministro da Economia, Macron não assumiu formalmente a candidatura às eleições presidenciais de 2017. Ainda assim, na declaração que fez ao país, deixou sinais evidentes sobre os seus planos: “Estou determinado a fazer tudo para que os nossos valores, as nossas ideias e a nossa ação possam transformar a França no próximo ano”.

E ainda deixou uma crítica implícita às políticas adotadas pelo Governo socialista para travar a ameaça do terrorismo. “À ameaça de um declínio coletivo veio juntar-se outra, de perigo físico, o terrorismo. Não temos o direito, nesta situação, de replicar comportamentos [radicais], nem de pensar que a nossa organização política é imutável. Essa seria a melhor maneira de entregar o nosso país ao extremismo”, sublinhou Macron.

Depois de ter tomado posse em 2014, Macron deixa o Executivo francês para se dedicar ao seu “movimento político”, como se pode ler no comunicado emitido pelo Palácio do Eliseu. Criado a 6 de abril, o movimento “Em Marcha!” quer afirmar-se como não partidário, “tanto de esquerda como de direita” e politicamente situado “entre os progressistas e os conservadores” franceses. Uma resposta alternativa aos eleitores que não se reveem nos partidos políticos mais tradicionais e uma rampa de lançamento — pelo menos é essa a expectativa de grande parte dos media franceses — para a corrida ao Eliseu.

Com 38 anos, Macron é, por esta altura, um dos mais populares políticos franceses — de acordo com uma sondagem do Insituto Odoxa, citado pelo jornal francês Aujourd’hui en France, 36% dos franceses desejam que ex-banqueiro de investimento avance para a corrida eleitoral. Seria uma forma de desafiar Hollande, que o trouxe para a política como assessor económico antes de o nomear ministro.

Conhecido pela sua veia liberal, Macron chegou a afirmar recentemente que não era “socialista” — gesto que foi encarado como a última provocação ao Governo francês. Antes, o agora ex-ministro da Economia já tinha sido responsável pela aprovação da Lei Macron, uma reforma liberal que provocou uma intensa vaga de protestos — Valls acabaria por ser obrigado a forçar a aprovação da lei sem passar no Parlamento, recorrendo ao parágrafo 3 do artigo 49.º da Constituição francesa, que confere ao primeiro-ministro um poder especial, mas raramente utilizado.

Criado numa família de classe média-alta, Macron estudou Filosofia e Ciência Política no liceu, onde acabaria por conhecer a mulher, Brigitte Trogneux, então sua professora e 20 anos mais velha do que ele. Terminado o liceu, entrou na ENA (Escola Nacional de Administração) em Estrasburgo, que lhe daria as ferramentas necessárias para ingressar, primeiro, na Inspeção dos Impostos e, depois, e já no setor privado, no banco de investimentos Rotschild & Cie. Pianista, praticante de futebol e boxe francês é há muito uma figura controversa para ala mais à esquerda do Partido Socialista francês, que nunca compreendeu como é que uma figura sem experiência política e com ideias não raras vezes conflituantes com o programa socialista, ganhou tal preponderância.

Em agosto de 2014, o Observador deixava algumas pistas que ajudavam a explicar o fenómeno “Macron”: a nomeação do antigo banqueiro como ministro da economia era encarada como uma manobra arriscada que poderia significar a salvação ou fim político de François Hollande e de Manuel Valls. O desfecho desta terça-feira parece confirmar o segundo cenário.