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Dilma Rousseff declarou, esta quarta-feira, que os “senadores que votaram pelo impeachment rasgaram a Constituição Federal”. No seu primeiro discurso após ser afastada da Presidência do Brasil, a petista qualificou a decisão de “golpe de Estado” e sentenciou que a decisão foi “uma inequívoca eleição indireta”. “Os derrotados nas últimas quatro eleições, que não atendem pelo voto direto, como eu e Lula [da Silva] fizemos, apropriam-se do poder por meio de um golpe de Estado”, sentenciou.

A ex-Presidente do Brasil relatou que este foi o “segundo golpe” que sofreu na sua vida, em referência ao seu passado político, quando foi presa e torturada durante o período de ditadura militar no Brasil. “O primeiro, o golpe militar apoiado na truculência das armas da repressão e tortura que me atingiu quando era jovem. O segundo, o golpe parlamentar desfechado hoje por meio de uma farsa jurídica, me derruba do cargo para o qual fui eleita pelo povo.”

Dilma Rousseff voltou a fazer referências ao “machismo” e “misoginia”, que acredita ter marcado todo o seu processo de destituição, ao relembrar que foi “a primeira mulher eleita Presidente do país”. “Às mulheres brasileiras, que me cobriram de flores e de carinho, peço que acreditem que vocês podem. As futuras gerações de brasileiras saberão que, na primeira vez que uma mulher assumiu a Presidência do Brasil, o machismo e a misoginia mostraram as suas feias faces. Abrimos um caminho de mão única em direção à igualdade de género. Nada nos fará recuar”.

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A petista defendeu o legado do seu Governo e citou alguns movimentos sociais que poderão “ser atingidos pelo golpe”:

O golpe é contra os movimentos sociais e sindicais e contra os que lutam por direitos em todas as suas aceções: direito ao trabalho e à proteção de leis trabalhistas; direito a uma aposentadoria justa; direito à moradia e à terra; direito à educação, à saúde e à cultura; direito aos jovens de protagonizarem sua história; direitos dos negros, dos indígenas, da população LGBT, das mulheres; direito de se manifestar sem ser reprimido.”

A ex-Presidente anunciou que vai recorrer da decisão “em todas as instâncias possíveis”, pois “61 senadores não substituem a vontade expressa por 54,5 milhões de votos” e disse que vai fazer “a mais determinada e enérgica oposição que um governo golpista pode sofrer” contra o governo de Michel Temer.

Dilma prometeu continuar a sua “jornada contra o retrocesso, a agenda conservadora e pelo reestabelecimento pleno da democracia” e fez um apelo: “Não desistam da luta. Ouçam bem. Eles pensam que nos venceram, mas estão enganados. Sei que todos nós vamos lutar. Haverá contra eles”.

No fim do seu discurso, recusou-se a despedir-se. “Neste momento, não direi adeus a vocês. Tenho certeza de que posso dizer até daqui a pouco”. Estiveram ao lado da ex-Presidente senadores e deputados aliados e o ex-Presidente Lula da Silva.

Dilma Rousseff foi afastada da Presidência do Brasil pelo Senado 61 votos favoráveis e 20 contrários. Os parlamentares rejeitam, no entanto, a pena de inabilitação por oito anos para a ocupação de cargos públicos, o que incluía não poder candidatar-se a eleições.

Michel Temer, que era vice-Presidente e estava a exercer o cargo de Presidente interino durante o afastamento temporário de Dilma Rousseff, passa a ser Presidente efetivo e deve terminar o mandato que era da petista e que termina em 31 de dezembro de 2018.