Inês é a “boadrasta” de Zé. Aos 20 anos, o rapaz viveu quase metade da sua vida debaixo do mesmo teto que alberga a segunda mulher do pai. Fala dela com gosto, encarando-a como uma figura de autoridade e, ao mesmo tempo, um porto de abrigo, e recusa-se a chamá-la de madrasta. Sempre foi assim e a explicação é simples: “na primária tinha amigos que tinham madrastas, daquelas más. E, depois, havia os bonecos animados”.

Nem de propósito. Uma incursão rápida pelo universo da Disney permite ver que além de donzelas em perigo e de príncipes encantados há também madrastas do piorio. Das que obrigam a enteada a limpar a casa de uma ponta à outra e proíbem-na de ir ao tão aguardado baile, às que contratam um caçador para lhe arrancar, literalmente, o coração.

De bruxa má a fada madrinha

Não se sabe ao certo o que levou a Disney a querer tramar as madrastas, mas a verdade é que a perceção do papel desempenhado por estas mulheres tem vindo a mudar. Para melhor. Sim, ainda existem vestígios que associam as madrasta a bruxas más — isto sem esquecer que cada caso é um caso –, mas algumas transformações sociais, como o aumento do divórcio nas últimas décadas e o surgimento de diferentes estruturas familiares, vieram abalar o conto de fadas, tal como explica a mediadora familiar Margarida Vieitez.

O estigma de madrasta, esse, sempre esteve lá — segundo o dicionário Priberam, e além da definição tradicional, o termo madrasta pode ser depreciativo para “mãe que não cuida bem dos filhos” ou pura e simplesmente “mulher má”. Mas há 15 ou 20 anos havia mais estigma, confirma a psicóloga clínica e terapeuta familiar Sofia Nunes da Silva, que fala empiricamente na existência de relações mais próximas e com maior flexibilidade, o que leva a uma maior aceitação de novos modelos relacionais.

“A ‘madrasta má’ é [agora] substituída pela ‘madrasta amiga e cuidadora’, embora não possamos generalizar”, diz Vieitez, que defende que a palavra “madrasta” está a cair em desuso, com as crianças a tratarem cada vez mais as companheiras dos pais pelo nome próprio. É o caso de Zé que, Inês para cá e Inês para lá, explica a dinâmica familiar em casa: “A Inês sempre foi muito recetiva. Fala connosco e preocupa-se genuinamente com o nosso bem-estar. Foi das poucas pessoas que se sentou comigo a estudar”, conta, salientando quem nem sempre foi um ás na escola.

Zé não olha para a sua “boadrasta” como olha para a mãe, mas reconhece o esforço feito por Inês: nunca se impôs e foi ganhando o seu próprio espaço com o passar do tempo. Elogios semelhantes são feitos à madrasta de Inês Moreira que também não gosta de tratar a companheira do pai por este nome. “Acho que a nossa relação sempre foi fácil, acho que arranjámos um bom equilíbrio. Ela trata-me como se eu fosse sua filha, no sentido em que tenho tantas obrigações como os filhos dela, mas não se mete no lugar da minha mãe“, diz a estudante de 22 anos. Ao contrário de Zé, Inês não vive com a “boadrasta” e visita-a duas vezes por semana.

Um novo conto de fadas

Já antes a professora catedrática no ISCSP Anatália Torres explicara ao Observador que, hoje em dia, tanto os padrastos como as madrastas coexistem com os pais biológicos, quando antes surgiam apenas na viuvez de um pai ou de uma mãe. Além disso, há agora mais padrastos do que madrastas porque são as mães que tendem a ficar com os filhos em caso de separação — segundo o livro “Famílias nos Censos 2011: Diversidade e Mudança”, publicado em 2014 pelo INE, a situação mais comum é aquela em que os filhos não comuns de um casal são apenas filhos da mulher (78% em 2011).

A socióloga Susana Atalaia é uma das autoras do referido estudo e, baseando-se no que diz a literatura, vai mais longe: o papel da madrasta é muito mais difícil do que o do padrasto quando há convivência diária com os enteados. É que além de haver mais exigências num lar, continuamente associadas à mulher, as madrastas acabam por ser mais escrutinadas. “Em família, o que é exigido às mulheres é diferente dos homens. O papel do padrasto acaba por ser secundário, espera-se sempre mais das mulheres.”

Uma coisa é certa: não é fácil ser-se madrasta. “Acho que é uma relação muito difícil, que exige uma grande construção e respeito pelo passado de cada um. Acho que há um discurso facilitista em relação às novas famílias”, atira Sofia Nunes da Silva, fazendo referência às famílias ditas recompostas. Afirma também que a relação madrasta-enteado/a implica tempo e conhecer os limites de cada uma das partes.

E viveram felizes para sempre?

O papel da madrasta e de padrasto é um papel de suporte e não de decisões ao nível educativo — pressupondo que a criança tem pai e mãe. E quanto mais a relação evoluir pacificamente, mais poder de opinião é dado à madrasta. Caso contrário, a interferência deverá ser significativamente menor.

As maiores dificuldades que uma madrasta enfrenta passa pela construção de afetos, mas também pela gestão de ciúmes. “O facto de ter ou não filhos pode influenciar a referida construção, na medida em que se já for mãe poderá ter uma experiência diferente no que respeita ao relacionamento com os filhos do companheiro”, assegura Margarida Vieitez. O importante é não forçar essa mesma construção, não assumir o papel de mãe e respeitar o tempo exclusivo do companheiro com os filhos.

E o que dizer da autoridade? Que nenhuma criança reconhece qualquer tipo de autoridade sem primeiro existirem laços de confiança e de afetos. “Ela [a madrasta] tem autoridade, mas nunca se impõe. Nunca diz ‘não te deixo fazer isto’, tem mais uma postura de aconselhar. Ela põe as coisas de maneira a que não tenha uma palavra final”, conta Inês Moreira.

O mesmo defende Zé Simões de Almeida. Quando foi viver com o pai e a nova mulher, o casal deu-lhe um ano e meio para se habituar à nova vida e à nova rotina. Passado esse tempo, começaram a existir outro tipo de exigências, mas da parte da “boadrasta” nunca recebeu ordens, apenas vontades expressas: ao fim de um ano e meio Inês já dizia “por favor, não deixes os ténis no hall de entrada”. “A Inês tem uma regra, isto é, a autoridade não pode ser imposta com autoridade, antes disso é preciso dar afeto”.

Aos 20 anos, Zé sente-se um rapaz com sorte. Não só porque tem dois pais que continuam a dar-se bem e estão presentes na sua vida, mas também porque tem “uma boadrasta magnífica”.