Título: “Marques (História dum Perseguido)”
Autor: Afonso Lopes Vieira
Editora: Imprensa Nacional – Casa da Moeda
Páginas: 184
Preço: 15 €

Capa ALF Marques

O património literário português precisa, grosso modo, de ser restaurado em edições fidedignas e de preço acessível e convidativo. Não sendo uma literatura excepcional —como convém reconhecer —, contém ainda assim obras de valor capazes de satisfazer quem ocupe o seu tempo não apenas com a «obrigação» de conhecê-las, mas também com o gosto e o proveito de lê-las e depois lembrar-se delas.

Claro que isso tem muitos adversários, desde logo o próprio Estado, por absurdo que seja, pois irradicou do currículo escolar o cânone literário, dissuadindo ou penalizando quem pretendesse investir em conservá-lo em edições novas, qualificadas e de venda mínima. Mas outros há, como a «grande» indústria editorial, que prefere escritores vivos que possa levar a feiras e promover em circuitos festivaleiros, ocupando-lhes cada vez mais (e eu diria inadvertidamente) um tempo que se supõe precioso para a sua própria oficina solitária de escrita, leitura e imaginação.

Essa exigente manobra de forçada contemporanização do que deve e afinal pode ser lido num país tão antigo como o nosso, fazendo tábua rasa de pelo menos meio milénio de literatura, é um dos traços mais gravosos da nossa decrepitude —substanciada também na oficialização duma «nova» mas desastrosa ortografia —, e poucas são as sirenes de alerta que berrem por uma salvaguarda cultural. A universidade é o que é, e o nosso espírito manso tudo consente…

Também por isso, não merece passar em claro, como tantas vezes injustamente acontece a livros interessantes, este Marques (História dum Perseguido) de Afonso Lopes Vieira (1878-1946), que a Imprensa Nacional lançou numa segunda edição — mais de cem anos depois da sua impressão em 1903.

Como ninguém, Cristina Nobre fez um extraordinário trabalho pela memória do poeta tão ligado à praia de São Pedro de Moel, mas quer na sua dissertação de doutoramento (publicada quatro anos depois como Afonso Lopes Vieira: a reescrita de Portugal, dois grossos volumes também da INCM, de 2005) quer na Fotobiografia do poeta (2007) não dedicou senão quatro ou cinco linhas muito apressadas a este livrinho que considerou como obra de circunstância (um «mero acidente de percurso», p. 164), mas agora pode ser lido de um modo totalmente diferente, valorizado graças ao extenso ensaio de contextualização do seu tempo histórico-cultural e do seu ambiente literário, que Eduardo Cintra Torres lhe dedicou e ocupa tantas páginas quantas as da narrativa. Pode então dizer-se que foi a atenção incisiva do conhecido crítico de televisão que levou Cristina Nobre a reavaliar Marques, como fez no texto que aqui publica (pp. 153-73).

Folheamos, portanto, um livro subestimado pela crítica da época — como sucedera, entre tantos, a O Livro de Cesário Verde (1887) — e esquecido pelos editores, ainda que, ao longo do século passado, influentes críticos tenham reconhecido a esta novela escrita aos 25 anos de idade uma «impressionante modernidade» (David Mourão-Ferreira, 1979), o estatuto de «surpreendente obra novelística» (José Carlos Seabra Pereira, 1995) e o brilho de «obra-prima da ficção portuguesa» (João Gaspar Simões, 1974), ou «flagrante antecipação à técnica interseccionista» dos modernistas de Orpheu reconhecida por Paulo Alexandre Pereira num verbete para um dicionário pessoano.

O protagonista é Marcos, mas o seu enorme infortúnio atinge e começa no próprio nome, que todos confundem com Marques («sofrera com salivações amargosas na boca esta corrupção do seu nome», p. 13). Além disso, nascera numa terça-feira de entrudo, «não tivera mãe [que morrera no parto]; não se lembrava do pai» (p. 39).

Logo de início, numa cena de antologia que dá mostra do talento de Lopes Vieira, o narrador trava conhecimento com ele num carro eléctrico, num domingo de sol a caminho de Belém: o modesto funcionário público veio sentar-se no banco defronte, «baixo e atarracado, de cheio rosto moreno, onde abriam lealmente, assustadiços mas graves, dois grandes olhos castanhos». Traz o laço da gravata «de banda» que entorta ainda mais, num gesto habitual. Quando vem o cobrador, mexe e remexe nos bolsos do casaco e do colete, palpa as algibeiras das calças, para «abrasadoramente corado» perceber, diante da impaciência do bilhetineiro e do «arzinho de prazer mudo» dos restantes passageiros, que se esquecera da carteira, e foi então que o narrador participou na própria acção da novela:

Erguendo o meu chapéu, pedi licença para prestar àquele senhor um pequeno serviço. E antes que Marcos, mudo e escarlate, tivesse tempo de me agradecer, dei o dinheiro ao condutor, que esperava” (p. 16).

«A Vida é uma farsa porque todos pagam à Vida o seu lúgubre imposto de grotesco» (p. 32), mas a humilhação atinge todos os momentos da existência do personagem desta novela, desde o aniversário carnavalesco a inesquecíveis cenas da infância: «Olhem, ele faz hoje anos! Vamos enfarinhá-lo! Vamos enfarruscá-lo! — E enfarinhavam-me, enfarruscavam-me» (p. 29); «um padre de óculos às gargalhadas para os colegas: “Ele nem sabe onde é o Congo! Ele nem sabe onde é o Congo!…» (p. 73).

Marcos ou Marques é o anti-flâneur, aquele que «esbarra com toda a gente!» (p. 28), que é humilhado até pelo fumador de rua a quem pede fogo, e como detesta a cidade luminosa e frenética, que diz ser um «monstro formigante e imóvel» (p. 94), «uma brutalidade» (p. 69), percorre-a a horas mortas, «pelas longas ruas negras e desertas» (p. 41) e pelos recantos sórdidos, na companhia de dois parceiros de ideias e traumas — Roldão, um amanuense corcunda e misógino, vagamente filosofante, de guarda-chuva em riste, «achatado sob o monte da marreca eloquente» (p. 41); e Benvindo, um poeta sonhador, inédito, utópico, metido num fraque roçado e de mangas curtas.

Este trio de «fala-sós» cruza-se ocasionalmente com guardas-nocturnos, cocheiros, trapeiros («grandes vírgulas rebuscando nos despojos da Cidade o trapo, a côdea, as jóias perdidas»), varredores, «bêbados fala-sós, que escrevem S S na sombra» (p. 51) — «bichos da Noite [que] tragicamente cumpriam este serviço trágico: escovar a Cidade, arrumá-la, desentupi-la do lixo com que um dia a deixara porca», «o lixo de todas as misérias de um dia» (p. 52).

Nessa derrota sem porto, vagueando pelo «pavoroso deserto da Cidade adormecida» (p. 42), o insólito trio demora-se por vezes nos «terraços dos chafarizes, procurando ler as datas, reconhecer as armas que os encimavam» (p. 43), mas é sob o portal de velha igreja num adrozinho de lajes polidas, «desolado e calmo», a que o corcunda chamou «salão de leitura», que Bemvindo lhes lê três breves narrativas que logo lembram os escritos de Raul Brandão reunidos em 1896 no volume História dum Palhaço e de outros que ficariam dispersos até 2013 — e embutidas na novela vieirense constituem uma novidade estilística. (Cintra Torres reconheceu tal familiaridade literária, e teria sido ainda mais assertivo se soubesse que na Sociedade Martins Sarmento, em Guimarães, se guarda um exemplar de «Marques» com dedicatória «a Raul Brandão, cordialmente, o seu camarada — Afonso Lopes Vieira».)

Não há nada que não aconteça a este zé-ninguém ou homem sem qualidades, casado com Carminho «para nunca estar só» (p. 35) e pai duma criança que morre tuberculosa, a quem também é dado sonhar com a sua própria morte e funeral, em que explicita uma utopia igualitária, fazendo dele «astro desajeitado, árvore inútil, calhau infeliz» (p. 33) que acaba por se suicidar — coitado, até nisso foi um pouco desajeitado… —, e merecer por isso ser notícia um canto de página de jornal («uma miudeza desinteressante e seca», p. 96).

Para quem tenha de Afonso Lopes Vieira a comum ideia dum escritor nacionalista, que deu a si mesmo o encargo de ser o «nobre arauto do lirismo da alma lusitana», na expressão de Carolina Michaëlis — com trabalhos que ainda hoje podem ser muito apreciados —, esta novela de juventude é uma enorme surpresa, mostrando-nos um inegável talento narrativo que todavia não frutificou mais, por razões complexas que sempre ocorrem e que os trabalhos de Eduardo Cintra Torres e Cristina Nobre — indispensáveis em edições deste tipo — de alguma forma nos ajudam a compreender.

A verdade é que o escritor reagiu à indiferença ou acinte da crítica com a intenção de escrever um complemento a esta novela intitulado Humilhados, nunca concretizado, e persistiu por algum tempo em ideias anarquistas, um «ar do tempo» que o levou a traduzir Pietr Kropotkine no ano seguinte (algo ligeiramente insólito, diga-se de passagem, para quem, à época, era redactor da Câmara dos Deputados) e a escrever poemas e um conto de Natal imbuídos de «anarquismo cristão», «temperado de bom gosto e de nativa bondade» (cit. p. 112) — o que mais tarde o incomodaria, a ponto de os excluir da sua biobibliografia e de os recolher de livrarias e alfarrabistas, e de, no seu espólio, que Cristina Nobre conhece muito bem, manuscritos avulsos indiciarem um plano de reconstrução, melhor seria dizer de demolição da novela, dando-lhe um final campestre, não trágico.

Seja como for, o virtuosismo literário de Lopes Vieira viria a dar-nos uma outra pérola especial, também ela pouco conhecida: Éclogas de Agora, escritas em Setembro-Outubro de 1935 e lançadas em edição de autor que nunca chegou às livrarias (apenas passou de mão em mão), um livrinho de 36 páginas apenas que David Mourão-Ferreira (1979) classificou como «um dos primeiros espécimes, se não o primeiro, daquilo a que muito depois viria a chamar-se a poesia de resistência contra o regime instaurado em 1926», e manifesto duma oposição monárquica em letra de forma e linguagem críptica, «que não tornava transparentes, a um largo público, as alusões que lá se faziam» — e que a INCM talvez queira reeditar, com comentários tão elucidativos quanto estes que agora acompanham «Marques» (a última edição das Éclogas foi feita em 1986).