A delegação do governo regional catalão inaugurada esta segunda-feira em Lisboa constitui “uma voz própria” da Catalunha em Portugal, enquanto a região não se converte num Estado com embaixadas próprias, disse o conselheiro de Assuntos Exteriores da Generalitat.

“Esta é uma delegação. A Catalunha está a viver um momento importante de mudança, de transformação, com um mandato democrático muito claro [para promover um referendo sobre a independência da região face a Espanha]”, considerou Raul Romeva no decorrer do ato oficial da abertura da Delegação da Generalitat na Avenida da Liberdade, em Lisboa.

Questionado sobre se o espaço inaugurado esta segunda-feira constitui “um embrião” para uma futura embaixada da Catalunha em Portugal, o conselheiro de Assuntos Exteriores respondeu: “Evidentemente que há uma vocação para que no futuro, se as maiorias democráticas assim o desejarem, a Catalunha venha a ser um Estado e um Estado tem embaixadas”.

Sublinhou, no entanto, que por enquanto a delegação não passa disso mesmo, mas com “a vocação de ligar a Catalunha ao mundo, como acontece com todas as delegações”.

“A Catalunha quer ser um Estado. Isso não é nenhum segredo e creio que há legitimidades democrática [para isso]. E um país como a Catalunha tem de ter uma presença internacional dinâmica, ativa, dialogante e aberta, que é o que a Catalunha é e quer ser”, concluiu.

Romeva sublinhou que Portugal é o país com maior número de empresas catalãs e o quarto maior destino das exportações com origem na Catalunha.

“Portugal é um país com o qual a Catalunha tem relações fluidas, constantes e — atrevo-me a dizer — privilegiadas. Mas é normal: as relações culturais, económicas, sociais entre os dois países são históricas. As boas relações entre a Catalunha e Portugal — em qualquer cenário, em qualquer contexto — são uma prioridade, para a Generalitat e para a Catalunha em geral”, disse Raul Romeva.

Lisboa integra assim a rede de sete delegações da Genelitat na Europa (incluindo Bruxelas, Londres, Paris, Berlim, Viena e Roma) e uma em Washington (Estados Unidos).

“Esta delegação tem vocação para ser uma voz ativa e própria [da Catalunha] no Mundo, que nos permita fortalecer as relações com toda a gente”, disse o conselheiro, desvalorizando eventuais pressões do Governo de Madrid quanto à abertura de uma delegação com estas características em Lisboa.

Raul Romeva escusou-se ainda a esclarecer se a Generalitat mantêm ou pensa manter contactos com o Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal, que apenas lida oficialmente com Espanha através da sua embaixada em Lisboa.

“A vontade da Generalitat é de falar com toda a gente, entender-se e manter boas relações com toda a gente. É com essa intenção que abrimos esta delegação”, disse apenas Raul Romeva.

A delegação da Generalitat em Lisboa terá como responsável Ramon Font, ex-jornalista catalão há muitos anos em Portugal.

“Hoje é um grande dia e a história depois vai ditar se foi mais do que isso”, afirmou Font durante o ato oficial, sublinhando as dificuldades em torná-la realidade.

Font disse que a Generalitat tem um mandato, consagrado no Estatuto da Catalunha, para “projetar a região no exterior”, pelo que “não era normal manter um vazio”.

“Seja bem-vindo quem vier por bem, e se houver quem não queira trá-lo contigo também”, afirmou Ramon Font, citando Zeca Afonso.