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Portugal, zero pontos. Portugal, cero puntos. Portogallo, zero punti. Portugal, zéro points. Portugal, zero points. Fosse isto o festival da canção ou os Jogos sem Fronteiras e a selecção nacional seria varrida desta maneira multicultural. Imagine-se isto com a voz do Eládio Clímaco ou da Serenella Andrade. Uh la la. Como é só o arranque da qualificação para o Mundial-2018, é Португалия, ноль точек em russo.

Um zero, sim. Um zero à direita (no marcador: Suíça 2 Portugal 0). E outro à esquerda, pela extraordinária falta de pontaria. Um zero em pontos e outro zero em golos. Sommer sai de Basileia sem fazer uma defesa digna de registo e só isso já reflecte o nosso jogo pouco esclarecido, sem atinar com a baliza. Para cúmulo, o único remate vai ao poste, já com 2-0 no marcador. Obra do capitão Nani, após cruzamento delicioso de Quaresma. E é esse o problema: vivemos de pormenores. Só. Quer dizer, Bernardo é um encanto, desdobra-se com uma facilidade do além. Por duas vezes, finta um, dois, três suíços num espaço exíguo. Quaresma entra a 20 minutos e passa o tempo a fazer cruzamentos da direita e da esquerda como se estivesse a jogar sozinho. Fonte corta bolas na antecipação com uma classe fora do comum (a imagem da televisão dá um suíço isolado e, de repente, aparece o central vindo do nada a fazer o corte mais tranquilo deste mundo, com passe imediato para o contra-ataque). Raphaël corre para a frente e para trás sem se cansar (é dele o último pontapé inofensivo, aos 90’+2).

Há futebol nos pés, falta o resto. E o resto é todo um mundo de artimanhas e cinismos pouco ou nada explorados. A Suíça, invicta no Euro-2016 (uma vitória e três empates), entrega a bola a Portugal e deixa-se ficar a ver o espectáculo. O nosso início é prometedor. O meio-campo deles é nosso, as bancadas também. Ouve-se Portugal a plenos pulmões. Até parece que jogamos em casa. A partir dos 20 minutos, a Suíça cresce aqui e ali. Aos 23’, falta de Adrien sobre Embolo. Bem o árbitro espanhol Mateu Lahoz. Enquanto a barreira se junta e tal, filma-se o ilustre Ottmar Hitzfeld na zona VIP. O homem das duas Liga dos Campeões, uma pelo Dortmund e outra pelo Bayern. Que categoria. Quando o livre é marcado, o sorriso desaparece automaticamente. O lateral-esquerdo Rodríguez atira, Patrício defende para a frente e Embolo faz a recarga, de cabeça. É a loucura em Basileia com centenas de bandeiras a esvoçoar no estádio. Acaba-se assim a imbatibilidade de Patrício desde o 1-0 do polaco Lewandowski nos 1/4 final do Euro. Daí para cá, 441 minutos. Tssss tssss.

Em desvantagem, Portugal assume o jogo. Não, isso não. É a Suíça que continua a criar mais perigo. Fonte estica-se todo para evitar a bola nos pés de Dzemali e cede canto, aos 28’. Menos de 200 segundos depois, o segundo golo. Olha m’estes: Mehmedi, com toda a calma, recebe de Seferovic à entrada da área e atira sem hipótese para Patrício na conclusão de um contra-ataque rápido. Para Mehmedi, é a concretização de um velho sonho: em 2011, durante um Zurique-Sporting para a Liga Europa, atirara duas bolas ao poste de Patrício; cinco anos depois, a bola ao ângulo superior.

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À meia-hora, dois-secos. Assim mesmo, sem espinhas. Há dois anos, um outro Portugal-Suíça demora bem mais tempo. É o Roger Federer vs João Sousa em Halle (Alemanha). E o português até ganha o primeiro set. Em Basileia, not a chance. Portugal cria muito, sem incomodar minimanente Sommer. Chega-se então à conclusão que é a primeira vez desde 1993 (Roberto Baggio e Pierluigi Casiraghi nas Antas) que sofremos dois golos até ao intervalo numa qualificação para o Mundial.

Para a segunda parte, Santos faz dupla substituição com as entradas de João Mário e André Silvas nos lugares de William e Éder – convém aqui registar que o onze inicial apresenta três mudanças em relação à final do Euro (entram Moutinho, Bernardo e Éder, saem João Mário, Renato e Ronaldo). A selecção cresce, de facto, e empurra os suíços. Só não hé efeitos práticos, a não ser uma quantidade de cantos e a tal bola ao poste de Nani. Antes, Dzemali falha o 3-0 e Xhaka prova os reflexos de Patrício. Ainda entra Quaresma, óptimo a destabilizar os laterais suíços e a revitalizar o jogo ofensivo com sucessivos cruzamentos venenosos para a área. Nada feito, o dia não é nosso. Portugal, zero. Para rectificar já já já a seguir, na dupla jornada de outubro, com Andorra e Ilhas Faroé. Com os comentários de Eládio Clímaco e Serenella Andrade.

Sob a arbitragem do espanhol Mateu Lahoz, eis os actores:

SUÍÇA: Sommer; Lichtsteiner (Widmer, 70’), Schär, Djourou e Rodríguez; Behrami e Xhaka; Embolo, Dzemaili (Gelson Fernandes, 90’) e Mehmedi; Seferovic (Derdiyok, 78’). Seleccionador: Vladimir Petkovic (bósnio)

PORTUGAL: Patrício, Cédric, Fonte, Pepe e Raphaël; William (João Mário, 46’), Moutinho (Quaresma, 69’), Adrien e Bernardo; Éder (André Silva, 46’) e Nani. Seleccionador: Fernando Santos (português)

Marcadores: 1-0, Embolo (23’); 2-0, Mehmedi (30’)

Indisciplina: expulsão do suíço Xhaka (90, duplo amarelo)