A história dos guarda-redes da seleção portuguesa é uma viagem e tanto. Começa a 18 de dezembro de 1921, com Carlos Guimarães (do CIF, vulgo Internacional), e desagua a 29 de maio de 2016, com Anthony Lopes. Nesse hiato temporal, um sem número de artistas desfilam pela baliza nacional. Uns mais talentosos, outros mais sortudos. Todos com internacionalizações no seu currículo. Que seja uma só, não interessa. Chega e sobra.

Veja-se o caso de Bruno Vale. Aos 20 anos, e sem qualquer jogo na 1ª divisão, é chamado por Luiz Felipe Scolari para o insonso particular de agosto, com o Cazaquistão, em Chaves. Na mesma convocatória, um tal Cristiano Ronaldo. Bom, adiante. Scolari tem os dois miúdos na mão. O extremo entra ao intervalo, para o lugar de Figo, o guarda-redes substitui Ricardo aos 81 minutos. Durante 540 segundos, o momento é dele. Bruno Vale é o guarda-redes de Portugal. Até rima. Naquela conjuntura, a situação é sui generis. Porque o Porto refila refila refila e refila, parece o Mutley depois de apanhar do seu dono Dick Dastardly. O motivo é a mais-que-aparente aversão do treinador brasileiro a Vítor Baía. Vai daí, Scolari convoca o titular da equipa B. B-r-i-n-c-a-d-e-i-r-a.

Outro exemplo de um episódio pitoresco: António Roquete é o supra-sumo dos guarda-redes em Portugal Continental e Ilhas. Titular do Casa Pia, dá o salto para a seleção com naturalidade e é ele quem defende as nossas redes no primeiro evento internacional (Jogos Olímpicos Amesterdão-1928). Um ano depois, entra para a Polícia Internacional, criada em agosto de 1928. Durante três anos, entre 1931 e 1934, Roquete é o guarda de serviço nos postos fronteiriços em Marvão, Elvas e Valença enquanto joga no Elvas e Valenciano. Depressa passa a agente de 1ª classe pelos bons serviços prestados aos olhos do capitão Agostinho Lourenço, então diretor da PVDE (Polícia de Vigilância e Defesa do Estado, antecessora da PIDE), e é promovido a inspetor da fronteira.

Passam-se uns anos e o seu nome é tristemente associado a dois acontecimentos horripilantes de 1942: a prisão mais espancamento do amigo/jornalista/treinador Cândido de Oliveira (capitão da primeira seleção de sempre, em 1921) e assassinato do médico comunista António Carlos Ferreira Soares. Para afastá-lo da polémica, é elevado a chefe de secção de um corpo policial em Lourenço Marques (Moçambique), onde passa 13 anos a reprimir o mais leve movimento comunista. Com o 25 de Abril de 1974, o seu nome desaparece de circulação. Daí em diante, as poucas notícias sobre Roquete são uma homenagem aqui, outra ali e mais uma acolá, sempre através da Casa Pia. Quando se lhe fala sobre esses tempos negros, Roquete retrai-se constantemente.

Carlos Guimarães, Anthony Lopes, Bruno Vale e António Roquete. Há mais histórias por aí? O caso ingrato de Carlos Silva, pobre coitado. O guarda-redes do União de Lisboa só tem uma internacionalização e seis golos sofridos. Seis, isso mesmo. Em Milão, com a Itália, em dezembro de 1929. Boa, boa, essa dos golos sofridos. Quem é o guarda-redes português mais batido de sempre? Manuel Galrinho Bento. Desde o 1-0 de Lato (Polónia) em outubro de 1976 até ao 3-0 de Ernst (RDA) em fevereiro de 1986, o homem acumula 63 internacionalizações e sofre 77 golos. Ainda evita uns quantos, como aquela mágica exibição na Escócia a segurar o nulo em 1980 ou o penálti defendido de Rontved (Dinamarca) em 1977.

Atrás de Bento, quem vem lá? É ele Ricardo, com 79 internacionalizações e 65 golos sofridos, entre o 1-0 de Roy Keane em junho de 2001 e o 2-0 de Yakin em junho de 2008. Ao contrário de Bento, zero penáltis defendidos. Em tempo útil, queremos dizer. Nos dois desempates com a Inglaterra, detém o de Vassell no Euro-2004 e os de Lampard, Gerrard mais Carragher no Mundial-2006. Quatro, ao todo. É bem ò Ricardo.

Atrás de Ricardo, quem vem lá? Vítor Baía, ainda hoje o guarda-redes português mais internacional à conta dos 80 jogos. No percurso de 12 anos, entre Dezembro de 1990 e Junho de 2002, Baía sofre 48 golos e ainda defende dois penáltis: um do grego Poursanidis em 1997, outro do turco Arif em 2000. E há um terceiro ainda. Ora veja lá.

Por força da regularidade, Rui Patrício ameaça entrar no pódio. O primeiro de todos a enganá-lo é até seu companheiro no Sporting. Chama-se Matías Fernández e marca-lhe um golo de livre direto, em Leiria (Março 2011). Seguem-se três golos de rajada da Islândia naquele impensável 5-3 no Dragão. E mais dois da Dinamarca. E outros dois da Bósnia. Fecha-se o ano de 2011 com oito golos sofridos. No Europeu do ano seguinte, mais quatro, nenhum deles na fase a eliminar (1-0 à República Checa e 0-0 vs Espanha). Aos jogos sem trabalho nem golos sofridos, aparecem uns mais complicados de quando em vez: três de Israel em Telavive, três do Brasil em Foxborough, quatro da Alemanha em Salvador e três da Hungria em Lyon.

Por essa altura, Patrício já acumula um número simpático de golos sofridos: 46. Baía, cuida-te. Um do polaco Lewandowski em Marselha e sobe para 47. O terceiro lugar vai ter um novo inquilino. Patrício enche-se então de brio e fecha a baliza com Gales mais França para se sagrar campeão. Que honra. Há quem sugira Pepe como o melhor representante português no Euro. Compreende-se, sim. Só que Patrício eleva a fasquia como ninguém na qualidade de herói no desempate de penáltis com a Polónia (dez remates e só um é desviado – por ele, precisamente) e de super-herói na final.

No regresso do sonho, o pesadelo de Basileia no arranque da qualificação para o Mundial-2018. Embolo faz o 1-0, de cabeça, Mehmedi o 2-0, com uma bola na gaveta. De uma assentada, em menos de cinco minutos, Patrício ultrapassa Baía. Em 54 internacionalizações, 48 golos sofridos – um número para manter seguramente nos próximos 180 minutos, tal a fragilidade dos adversários na próxima dupla jornada de apuramento (Andorra e Ilhas Faroé).

Muito bem, Bento 77, Ricardo 65, Patrício 48, Baía 47. A seguir, quem vem lá? Azevedo e Costa Pereira, ambos 37. Damas 36, Barrigana 30, Carlos Gomes 29, Roquete 28. Olha olha se não é o inspetor da fronteira da PIDE.