O presidente do Banco Central Europeu (BCE), Mario Draghi, resistiu à pressão dos mercados para anunciar, desde já, um prolongamento do programa de dívida (que termina em março). O Conselho do BCE decidiu, sim, encarregar algumas equipas do banco central para analisarem eventuais medidas que possam garantir que o programa continua a funcionar normalmente. Reconhecendo, porém, os limites da política monetária, Draghi voltou a defender que os países que têm margem de manobra em termos orçamentais e da conta corrente devem usá-la. “E a Alemanha tem margem de manobra”, atirou o responsável.

O excedente comercial da Alemanha tem estado próximo de recorde, o que é uma violação das recomendações de Bruxelas. Desde 2013 que a Comissão exige a Berlim uma diminuição do excedente alemão. Nesse contexto, Mario Draghi mostrou, esta quinta-feira, após a reunião do Conselho do BCE, que é expectável que a inflação acelere um pouco nos próximos meses (face aos 0,2% atuais) mas não escondeu que a política económica (às escalas nacional e europeia) deveria dar uma ajuda a estimular a procura interna onde existir margem para isso ser feito. Ainda assim, Draghi confessou que se sente “confuso com algumas coisas que se dizem, por vezes”.

“Não é possível carregar num botão e o excedente da conta corrente desaparece. Não é assim que as coisas funcionam”.

Por outras palavras, “não estamos a falar de economias planeadas. Se uma economia é naturalmente competitiva, a única coisa que é possível fazer é ter políticas económicas que tirem partido desse excedente e transformá-lo em procura interna”. Ainda assim, Draghi não discorda que “países que têm margem orçamental, devem usá-la”. Por outro lado, “os que não têm, devem ter muita atenção à composição das políticas”, que é tão ou mais importante do que o volume [dos estímulos orçamentais], segundo Draghi.

Numa conferência de imprensa, como se previa, com pouca história, Mario Draghi evitou anunciar, para já, um reforço dos estímulos — seja no tempo seja no tipo de políticas. Mas deixou claro que o programa de compra de ativos irá manter-se “até que seja discernível uma tendência de aumento da inflação” para mais perto do objetivo de perto de 2%.

As taxas de juro, essas, vão continuar em níveis baixos “bem além do nosso horizonte da política monetária”, o que indica que as taxas de juro na zona euro não irão subir de forma significativa nos próximos anos. Boas notícias para quem tem créditos, péssimas notícias para quem tem poupanças.

E péssimas notícias, também, para o setor financeiro europeu — de onde têm vindo muitas críticas às políticas do BCE, sobretudo a taxa dos depósitos em terreno negativo (-0,4%). Um dos bancos que mais tem criticado Mario Draghi é o alemão Deutsche Bank e o seu presidente-executivo John Cryan. “Não me parece justo dizer que os problemas dos bancos se limitem às taxas de juro”, atirou Mario Draghi.

“Temos de ter paciência, as taxas têm de continuar baixas para estimular a recuperação económica”, acrescentou, lembrando que os bancos também tiveram ganhos elevados nos últimos anos com a venda de dívida pública a preços mais elevados do que existiriam se o BCE não estivesse no mercado a comprar.

Quanto à economia, o BCE continua preocupado com “riscos negativos” que prevalecem nas suas projeções. É por isso que o BCE, apesar de se ter sentado em cima das mãos neste mês de setembro, está pronto para tomar mais medidas de estímulo. “Nesta altura, as alterações [nas estimativas económicas] não são suficientemente significativas para que levem a uma alteração das nossas políticas”, disse Draghi. “Mas não há dúvidas sobre a nossa vontade e sobre a nossa capacidade” para fazer mais, afirmou o presidente do BCE.

Para já, a bola está do lado dos “comités” do BCE que irão analisar formas de garantir que o programa de compra de títulos de dívida não esbarra na escassez de instrumentos que pode comprar. Portugal é um dos países que podem sofrer se não houver alterações na metodologia do programa de estímulos.