Depois do acidente da semana passada, quando uma nave do projeto SpaceX se incendiou no Cabo Canaveral (Estados Unidos) durante uma fase de testes, a NASA prossegue a exploração dos cosmos, com renovadas esperanças após a descobertas da pequena sonda Philae. A três semanas do fim da missão Rosetta, a NASA prepara-se para escrever mais um capítulo na História da exploração espacial. À meia-noite de quinta para sexta-feira, hora de Lisboa, a OSIRIS-Rex vai rumar ao asteroide Bennu e tornar-se na primeira sonda espacial a trazer amostras de um asteroide para a Terra.

A viagem de dois anos que a humanidade vai fazer à boleia da OSIRIS-Rex é, para os cientistas, tão importante quanto regressar à Lua ou pisar o poeirento solo de Marte. Para entender porquê é preciso recuar 4,6 mil milhões de anos. Algures no imenso universo, uma nuvem com três biliões de quilómetros vagueava pelo espaço: era um cemitério ambulante que guardava as carcaças das estrelas que explodiram há milhões e milhões de anos. E que guardava também a matéria de que somos feitos: quando essas estrelas explodiram, nuvens de gases e poeiras dispararam pelo espaço. São esses elementos que também nos constituem.

Mas este cemitério não era um lugar tranquilo: naquele mundo com milhões de quilómetros, as poeiras não conseguiram resistir à gravidade. Com a aproximação das partículas, a nuvem foi encolhendo progressivamente até chegar a um ponto em que os átomos começaram a chocar entre si. Booom! A nuvem explodiu num evento muito violento que atirou as matérias mais leves (principalmente compostas por gases) para mais longe e as matérias mais pesadas (os elementos rochosos) para mais perto. A gravidade não parou por ali: responsabilizou-se por juntar essas matérias em aglomerados cada vez maiores. No meio da nuvem que havia explodido ficou o Sol. Atraídos para a nossa estrela estão todos planetas: primeiro os rochosos, mais pesados e pequenos, e depois os gasosos, mais leves e maiores.

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Imagem ilustrativa da formação do Sistema Solar. Créditos: NASA

“E então?”, perguntam os comuns mortais. Confiando nesta teoria, os cientistas acreditam que os asteroides são “sobras” da formação do Sistema Solar e que foram muito pouco modificados desde então. Podem então ser eles o Santo Graal da astronomia, o baú onde se guardam as respostas para “de onde viemos e para onde vamos”, tal como explica a NASA no site da missão. E a agência norte-americana está especialmente convicta disso: Philae, a sonda que se perdeu no cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko, conseguiu comprovar que existem átomos de azoto e carbono nestas rochas que vagueiam à volta do Sol. Agora espante-se: a vida depende da presença desses átomos. Por isso é possível que a vida tenha chegado à Terra após o planeta ter sido bombardeado por asteroides que depositaram por cá esses elementos. “Eureka!”.

Claro que nada disto é baseado em certezas. Essas só poderão aparecer a partir do dia 24 de setembro de 2023, quando a OSIRIS-Rex reentrar na Terra carregada com os 60 a 200 gramas de material que vai recolher entre julho de 2020 e março de 2021. É a maior quantidade de amostras de um corpo celeste alguma vez recolhido desde a missão Apollo. E a maior parte não vai sequer ser tocada pelos astrofísicos, basicamente porque ainda não somos bons o suficiente para isso.

Passamos a explicar. Cerca de quatro por cento do material recolhido pela sonda vai ser enviado para os laboratórios do Canadá, um país que está a apoiar financeira e cientificamente este projeto da NASA. Depois, cerca de 0,5% das rochas será enviada para Agência Japonesa de Exploração Aeroespacial (JAXA), num gesto de retribuição pela amostras do asteroide 25143 Itokawa que os japoneses enviaram para os Estados Unidos. Mas 75% das rochas vindas do asteroide Bennu vai ser mantido num ambiente que impossibilita a sua modificação: assim pode esperar que a tecnologia se desenvolva e consiga fazer relatórios mais precisos e completos sobre elas. É por isso que parte do material recolhido na Lua em 1969 pela missão Apollo só agora está a ser estudado.

Porquê Bennu?

Porque está mesmo aqui ao lado

Há 500 mil asteroides no Sistema Solar, mas nem todos estão propriamente à mão dos cientistas. Aos asteroides que orbitam o sol nas proximidades da Terra (a cerca de 1,3 unidades astronómicas da nossa estrela), os cientistas chamam de Near-Earth Objects (NEOs). É precisamente a estes que uma missão como a OSIRIS-Rex, que pretende ser rápida e ambiciosa, tem de apontar: a NASA decidiu então enviar a sua próxima sonda para um asteroide que esteja entre 0,8 e 1,6 unidades astronómicas do Sol e que não tenha uma órbita muito excêntrica ou inclinada. Em 2008, quando a NASA começou a planear esta missão, só havia 192 asteroides com estas condições.

Porque é grande o suficiente

Ainda assim, Bennu não foi escolhido ao acaso de entre um universo de tantos asteroides. Era necessário encontrar um que não fosse demasiado pequeno: os asteroides muito pequenos tendem a ser mais velozes, o que provoca a ejeção de material da sua superfície à medida que orbitam o Sol, podendo danificar a máquina. A NASA encontrou então mais um critério: era necessário que o destino eleito tivesse mais de 200 metros de diâmetro, de modo a permitir a aproximação da sonda. Dentro destas condições só havia 26 asteroides.

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A imagem mais nítida que temos do asteroide Bennu. Créditos: Caltech

Porque tem exatamente o que estamos à procura

Os cientistas dividem os asteroides em várias famílias de acordo com a sua composição química. Os mais primitivos são extremamente ricos em carbono e mantêm-se praticamente inalterados desde a formação, por isso ainda contêm moléculas orgânicas, gases voláteis e aminoácidos que podem ser os pais da vida na Terra. De entre os 26 asteroides com tamanho suficiente na proximidade do nosso planeta, só conhecemos a composição de doze deles. E apenas cinco são primitivos e ricos em carbono.

Porque é preciso conhecer os nossos inimigos

Mas Bennu é diferente: é um dos Objetivos Potencialmente Perigosos (PHO), porque é muito provável que venha a colidir com a Terra no século XXII. Conhecer as propriedades químicas do asteroide Bennu vai dar-nos a certeza sobre se essa colisão é demasiado grande e se é necessário organizar uma missão para destruir o corpo celeste.

Dentro da sonda OSIRIS-Rex

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A sonda OSIRIS-Rex prestes a ser testada num ambiente de vácuo. Créditos: Lockheed Martin

Para assegurar a missão de sete anos, a sonda OSIRIS-Rex está equipada com dois painéis solares que fornecem energia à máquina sempre que os raios solares permitirem. Quando a sonda entrar na sombra, as duas baterias Li-On entram em ação: vão ser essenciais durante o lançamento e também durante a fase de recolha de amostras.

Além de três câmaras fotográficas de alta resolução, de dois sistema de mapeamento topográfico e de máquinas que estudam a composição do asteroide ainda antes de lhe tocar, uma das maiores atrações da nova sonda da NASA chama-se Touch-and-Go Sample Acquisition Mechanism (TAGSAM): é graças a ele que OSIRIS-Rex nem sequer precisará de por os pés em Bennu para o conhecer como nunca. Os cientistas dizem que a sonda vai apenas dar um “high-five” ao asteroide: um jato de nitrogénio no estado gasoso vai permitir soltar algum material da superfície do asteroide. Esse material é recolhido pela sonda sem que ela toque nele.

É assim que se garante que nenhuma das amostras é contaminada: todos os pedaços que recolhermos do asteroide Bennu vão ser preservados em azoto, de modo a não entrar em contacto com microrganismos terrestres. Fazê-lo seria contraproducente: “Não esperamos encontrar microrganismos em Bennu. O asteroide é demasiado pequeno e as doses de radiação à superfície mataria qualquer organismo vivo num período muito curto de tempo”.