Ele é. O Benfica não tinha nenhum dos que habitualmente lá estão — Jonas, Mitroglou e Jiménez, todos de uma assentada, lesionaram-se e ficaram em Lisboa a ver o jogo pela TV –, mas ele é. E Rui Vitória sabe-o. Tanto sabe, que o levou de viagem até Arouca. Mas é o quê? É ponta-de-lança. José Gomes (ou só “Zé”) é isso: ponta-de-lança. E “isso” é algo que escasseia entre nós, portugueses. Sempre escasseou, não é de hoje.

Mas voltado a Vitória. Ele também sabe que é cedo demais. Ainda é. O rosto travesso, de menino, não engana: Gomes só tem 17 anos. Então, Vitória optou por inventar dois (Rafa e Guedes, lado a lado) para o lugar que é o dele e nunca foi deles. Não faz mal. Sentou-se no banco. Viu tudo desde lá. Caladinho. Atento. Até que o mister pediu que aquecesse. Aqueceu. E de tão quente que estava, entrou para queimar tempo. Faz parte. O Benfica ia vencendo (2-1) o Arouca, mas o resultado era curto, os contra-ataques sucediam-se de parte a parte, ora contra-atacas tu, ora eu, faltavam dois minutos (92′) para o fim e havia que “queimar”.

E queimou-se. A bola seguiu para a frente, longa e desde a defesa, caiu nos pés de André Horta sobre a esquerda, caiu meio Arouca em cima dele, e também ele fez por ganhar mais alguns segundinhos ao cronómetro. Segurou a bola com a sola da bota, esperou que se encostassem a ele, lá encostaram, mas quando o fizeram, ao invés de cair como habitualmente se cai nestas “queimas”, Horta rodopiou, seguiu pelo fundo do relvado fora, ninguém seguiu com ele, e cruzou para o primeiro poste, rasteiro. E ele apareceu lá. Ele quem? José Gomes. É dele que falo. Acabadinho de entrar. Esticou-se todo. Tanto, que sujou os calções de com eles deslizar sobre o relvado. Faltou-lhe pouco, talvez um palmo, talvez menos, para desviar a bola lá para dentro, para o golo. À ponta-de-lança. Como só os pontas-de-lança sabem. Mas não desviou. Pri, pri, priiiii! — E o árbitro Fábio Veríssimo apitaria pouco depois.

O Benfica venceu. E venceu tento um ponta-de-lança, José Gomes, apenas dois minutos, dois escassos minutos, no relvado. Não precisou de mais. E não tinha outro a não ser ele. Ou melhor, ter até tinha. Tinha defesas feitos “ponta-de-lança” — Semedo e Lisandro –, que lhe fizeram os golos. Melhor ainda: toda a defesa do Arouca feita “ponta-de-lança”. Do Benfica, entenda-se.

Foi assim no primeiro golo. Aos 16′. É golo, mas é um golo que não lembra ao diabo. Salvio desmarcou Nélson Semedo em velocidade na direita, o lateral do Benfica correu, correu, mas tinha Hugo Basto e Nuno Coelho à sua frente, impedindo-o de correr mais. E aí, Nélson — vendo o guarda-redes Bracali a sair da baliza — travou. Isto não vai dar em nada — Pensou ele. Mas deu. Disparate dos disparates, Nuno Coelho resolveu cortar a bola de “carrinho”, Bracali (que até ia segurá-la) ficou a apanhar bonés, e Hugo Basto a ver Semedo pelo canto do olho. O tal corte de Nuno vai esbarrar, imagine-se, em cheio nas pernas de Semedo e a bola lá entrou, devagar, devagarinho na baliza.

[Se revirem o golo com o genérico do Benny Hill em fundo, é mais engraçado.]

E foi assim também no segundo golo. No Benfica: ponta-de-lança, nenhum. Mas defesas do Arouca a “sê-lo”, muitos. Não, desta feita (51′) ninguém do Arouca cortou a bola contra um jogador do Benfica. Mas voltaram a comprometer e muito. Num cantou à direita, Grimaldo bateu a bola de canhota para o primeiro poste, Lisandro saltou e desviou para dentro da baliza de Bracali. E onde é que o Arouca “comprometeu e muito”? Aqui: André Santos saltou, mas saltou tão pouco, que a bola passou por ele ao primeiro poste e seguiu para Lisandro; Anderson Luís estava, nem de propósito, a marcar o primeiro poste — literalmente: ele estava de mão encostado no poste; por fim, Jubal, que deveria marcar Lisandro e não marcou — mas Jubal (Que belo nome, meu rapaz!) viu-o cabecear de um lugar que muitos benfiquistas pagariam para ver: lado a lado.

Contas feitas, 2-0 para o Benfica e a vitória quase no bolso.

Ou não. Pouco depois, aos 57′, Zequinha cruzou da direita para a área, cruzou longo e a bola só caiu no segundo poste. Nélson Semedo viu-a a chegar. E assim a viu chegar, assim a viu seguir na direção da baliza, saída da cabeça de Walter González. É que o ponta-de-lança paraguaio saltou e o lateral português não. Que “pedrada”! E não foi com o pé, mas com a cabeça. Ao primeiro remate, o Arouca marcou.

Mas não deu para mais. Nem o Benfica fez mais um, nem o Arouca empatou o jogo. Também não fizeram muito por isso, um e outro. Mas o Benfica é líder. Pelo menos até amanhã, quando o Sporting receber o Moreirense em Alvalade. O Sporting, esse, que tem pontas-de-lança de sobra.