O comboio que descarrilou esta manhã em O Porriño, na Galiza, estava ao serviço do Celta, uma ligação internacional inaugurada em julho de 2013 para ligar o Porto à cidade espanhola de Vigo. Esta ligação é explorada conjuntamente pela CP (Comboios de Portugal) e pela Renfe (a empresa que gere a circulação dos comboios em Espanha) — tanto em termos de despesas, como de manutenção. Até a tripulação das carruagens é de ambas as nacionalidades (o maquinista deste comboio era português e o revisor era espanhol).

E quando há um acidente, de quem é a responsabilidade? Logo pela manhã desta sexta-feira, a Renfe avançava que se tratava de um comboio português, “propriedade da CP, a Renfe portuguesa”, dizia-se nos canais de televisão espanhóis. Comentava-se, nos meios de comunicação social espanhóis, que se tratava de um comboio antigo. A própria presidente da Câmara de O Porriño, Eva García de la Torre, sublinhou ao jornal La Voz de Galicia que “o comboio tem uma vetustez”.

Esta manhã, em declarações à SIC Notícias, o presidente da CP, Manuel Queiró, explicou que “a CP partilha com a Renfe este comboio, é um comboio luso-espanhol”, e que a propriedade do equipamento é comum, visto circular numa linha explorada em conjunto pelas duas empresas. Apesar de a Renfe ter avançado, logo de manhã, que se tratava de um comboio pertencente apenas à empresa portuguesa, o presidente da CP garantiu que “na colaboração com a Renfe tudo está a correr bem”. Na mesma entrevista, Manuel Queiró negou as acusações vindas de Espanha de que se tratava de um comboio antigo. “O comboio está preparado para efetuar todo o serviço em condições de segurança”, assegurou o responsável da empresa portuguesa. Manuel Queiró afirmou ainda que “não é um comboio muito antigo, isso tudo são especulações a que não iremos dar seguimento”.

O serviço Celta é explorado em conjunto pela CP e pela Renfe. Em relação aos equipamentos em si, contudo, o cenário é diferente. Como explicou fonte da CP ao Observador, trata-se, na verdade, de uma série de comboios espanhóis, propriedade da Renfe, mas que estão alugados à CP para estarem ao serviço em Portugal. Esses comboios, provenientes de Espanha, são utilizados em operações da CP em Portugal, incluindo no serviço Celta. A manutenção das carruagens é feita também nos dois países, dependendo das necessidades operativas. E, de acordo com o ministro espanhol do Fomento, a revisão daquele comboio estava em dia. A tripulação que operava no serviço era também especialmente formada para aquela linha. “Os maquinistas espanhóis e portugueses tiveram formação especial para poderem atuar. Os espanhóis em Portugal e os portugueses em Espanha. E os padrões são muito parecidos nos dois países”, assegurava esta manhã o governante espanhol.

Por isso, a responsabilidade de um acidente num caso destes ainda demorará a apurar. Como o acidente se deu em território espanhol, serão as autoridades espanholas a avançar com a primeira investigação. Mas também a CP e a Renfe deverão averiguar responsabilidades, em inquérito, e só a partir daí será possível perceber quem deverá responder por este acidente. Algumas questões ficam, por enquanto, por responder: tratava-se de facto de um comboio antigo, como a presidente da câmara de O Porriño argumentava, ou, pelo contrário, o comboio estava mesmo em condições de operar em segurança, como defendeu o presidente da CP? E, se de facto o comboio não tivesse as condições adequadas, quem deveria ter tratado da manutenção: a CP ou a Renfe? Tudo respostas para o fim do inquérito ao acidente.

Para já, a CP garante, em comunicado, que está “em estreito contacto” com as vítimas e “com a sua congénere Renfe”. As duas empresas deverão agora a trabalhar em conjunto no contacto com as vítimas e no apuramento dos factos. A Adif, que gere as infraestruturas ferroviárias em Espanha, também já abriu um inquérito para apurar as causas do acidente. O ministro das Infraestruturas de Portugal, Pedro Marques, já veio confirmar a informação de que se trata de um comboio da Renfe e que, devido ao facto de o acidente ter acontecido em Espanha, “a responsabilidade do inquérito é das autoridades espanholas”. O ministro garantiu ainda que as autoridades portuguesas, nomeadamente o GISAF (Gabinete de Investigação de Segurança e de Acidentes Ferroviários), já estão em contacto com as autoridades de Espanha.