Nunca percebi o que queriam dizer as minhas amigas que se queixavam dos pretendentes que se “esforçavam demasiado”. Para mim, uma pessoa esforçada é alguém empenhado, com objectivos, com um plano. Caraças, como pode isso ser mau? Mas acho que finalmente percebi essa manchete de “Cosmopolitan” ontem ao ver a estreia de “Quarry”, a mais recente série da HBO, mais uma ficção a tentar seduzir-nos numa época de ouro repleta de excelentes candidatos ao desperdício gostoso de horas e horas frente a um televisor ou computador.

O esforço para fazer de “Quarry” uma grande série é tão palpável que até dá para lhe fazer uma massagem. Mas é um esforço exagerado, como um vitelo engordado à força com hormonas para ser o mais forte lá do curral. Tem aquela lentidão tão na moda, que cria momentos incríveis em “The Americans” ou “Better Call Saul”? Tem. Tem um protagonista torturado feito anti-herói cheio de defeitos, como os protagonistas de “Breaking Bad”, “The Night Of” ou até “Mad Men”? Ora pois que tem. Tem silêncios longos e contemplativos como “True Detective”? Claro que sim. Tem cenas para demonstrar que gastaram uma pipa de massa no director de fotografia, como “Homeland”? Check. Tem imagens reais de acontecimentos históricos do século XX, como “Narcos”? Ai, como é que adivinharam? É que tem mesmo!

[veja o “trailer” de Quarry]

“Quarry” é baseado nos livros do ex-Marine Max Allan Collins e relata o difícil regresso a casa de de Mac Conway depois de ter combatido no Vietname. Estamos em 1972, curiosamente num período muito semelhante ao de “Vinyl”, série megalómana da mesma HBO que não sobreviveu mais que uma temporada. Mac acha que vai regressar um herói, mas o mundo não está para veteranos. Logo à chegada é obrigado a despir o uniforme, mas mesmo assim é atropelado por uma manifestação anti-guerra. Não tem emprego, solidariedade ou simpatia de ninguém.

O contexto está mais que batido, com a Guerra do Vietname a ser provavelmente a fonte de inspiração mais vezes sorvida pela televisão e sobretudo pelo cinema das últimas quatro décadas. Era preciso um golpe de asa, uma ideia ainda não batida, um carinho automático para que “Quarry” se destacasse do pelotão. Mas nada disto chega ao longo da hora e vinte e três que dura o episódio. De computador no colo e telemóvel desligado de distrações, predispus-me a ver a estreia com toda a atenção para escrever este artigo. Mas a sensação mais recorrente era de que estava de castigo, de que era uma miúda no banco de trás de um Fiat Punto a ir até ao Algarve por estradas nacionais e a perguntar “já chegámos? Já chegámos? E agora, já chegámos?”.

Reflecti pouco ou nada sobre o impacto que uma guerra tão longe de casa tem numa pessoa. Mas dei por mim a reflectir imenso sobre como a ração dos meus gatos está a acabar, como estou um bocado farta do calor e como tenho de escrever uma carta ao meu senhorio. A mente desviava-se sempre, com vontade de deixar aquela chatice e ir lá para fora brincar. Virei-me algumas vezes para a minha companhia de sofá para perguntar o que se tinha passado na cena, apenas para o encontrar de olhos fechados e ressonar ligeiro. De uma das vezes que acordou, perguntou-me assustado “vais ter de passar a escrever sobre esta série sempre ou é só o primeiro episódio?”. É só o primeiro, ressona descansado.

“Quarry” esforça-se demasiado para ter simbolismo, sobretudo nas cenas em que Mac nada numa piscina que construiu com as suas próprias mãos numa moradia que agora desempregado dificilmente conseguirá manter. Mas é simbolismo, repito-me, forçado. Não é a cena dos patinhos na piscina de Tony Soprano quem quer, é quem pode. Esforça-se também demasiado para ser ousado e adulto, com cenas de sexo (a única finalidade da mulher do protagonista é mesmo mostrar como tem um corpo incrível) e drogas que não é tanto o serem escusadas, é mais o serem aborrecidas. E forçadas, não sei se já vos disse que a série é um bocado forçada.

O último terço do episódio é especialmente penoso. Descobrimos que a série se chama “Quarry” porque *INÍCIO DE SPOILER* Mac anda aos tiros com a “organização” que o quer convencer a tornar-se um assassino contratado numa pedreira (quarry, em inglês), e resolvem logo naquela altura armarem-se em alunos do 8º ano e dar-lhe uma alcunha *FIM DE SPOILER*. Revirei os olhos tão depressa que ia lesionando o globo ocular. O épico final envolve *INÍCIO DE SPOILER* Mac a descobrir que a primeira presa que lhe encomendaram é na verdade amante da mulher, num volte-face que faria um guionista de telenovela da TVI dizer “hei, isso também é um bocado previsível” *FIM DE SPOILER*. Além disso, *INÍCIO DE SPOILER* mata-o esmagando-o convenientemente com um carro que o seu inimigo resolve inexplicavelmente estar a arranjar às tantas da matina, na insónia mais mal enjorcada de sempre. *FIM DE SPOILER*

É nesta altura que penso que, bolas, a HBO nunca ou raramente erra nas séries. Equaciono a vergonha que será mandar esta crítica para o meu editor no Observador, que ficará a achar que eu tenho a capacidade de análise e a sensibilidade de um frasco de pickles. Vou ao “Rotten Tomatoes”: tem 33 por cento de reviews positivas. Alívio. O problema não está em mim. Posso dormir descansada. E que sono que isto me deu, pá.

Susana Romana é guionista e professora de escrita criativa