O pintor José Luiz da Rocha, conhecido como Darocha, morreu este domingo em Paris, aos 70 anos, de cancro. Darocha nasceu em Oliveira de Azeméis, em 1945, mas mudou-se para Paris nos anos 60, onde estudou Antropologia Patológica (para lidar com “pessoas cujo comportamento qualifico de ‘fala-barato-autista'”) e se tornou professor de artes. Antes, tinha estudado nas Belas Artes, em Lisboa, onde se licenciou em Pintura.

big_crbst_mon_amoureux_le_dauphin

“Mon Amoureux Le Dauphin”, parte da coleção Arquipélagos da Via Láctea.

Em França, levou ao desespero uma empregada doméstica, impedida de deitar fora grandes quantidades de lixo, que serviriam para os seus alunos utilizarem em instalações artísticas. Levantava-se às 5h da manhã para ir para um café escrever. A filha, Lia Rochas-Páris, lembrava este ano ao semanário Sol a “cultura faraónica” do pai, e a sua “sede de saber e de partilha”.

A última exposição

Apesar de ter tido mais reconhecimento fora de Portugal do que no seu país, a última exposição de Darocha foi em junho deste ano, em Ovar. Ondulações de estilo abriu ao público a 11 de junho, e foi inaugurada pelo diretor do Museu de Ovar, Manuel Cleto, sem a presença do pintor, por motivos de saúde. “É uma pessoa amabilíssima, de um trato fantástico, que vem aqui muitas vezes”, recordava Cleto sobre o pintor, citado pelo semanário Sol. “Falar sobre Luiz da Rocha é-me fácil e é-me difícil, porque criámos uma relação de amizade”, acrescentou.

crbst_ourigo_2055_2016-80_20claudia

“Ourigo n.º 55”, uma das pinturas que fazem parte da coleção “Ourigos”, de Darocha.

Ainda assim, o pintor enviou uma mensagem por escrito aos presentes, sublinhando que a exposição era “uma amostra daquilo que me foi dado a produzir desde há 50 anos, que de um modo geral funciona por séries”.

Mitterrand: “Sim, já o conheço”

Um dos episódios mais conhecidos da vida do pintor foi uma conversa entre dois Presidentes. No final dos anos 80, Mário Soares fez uma visita oficial a Paris e quis apresentar o seu amigo Darocha a François Mitterrand. “Sim, já o conheço”, respondeu-lhe o chefe de Estado de França. É que Darocha vivia há vinte anos em Paris e já conhecia bem a elite francesa, apesar de ser pouco conhecido em Portugal.

amarante_5

“Indexposição 2”, instalação apresentada em 1998 no Museu de Amarante.

A 30 de setembro, estreia em Portugal o documentário No Laboratório da Via Láctea, realizado por Joana de Bastos Rodrigues. Trata-se de um filme documental sobre a vida e obra de Darocha, e será apresentado no Espaço Mira, no Porto, por Bernardo Pinto de Almeida.