Dentro de um século, poderá não restar nem um metro quadrado de zonas selvagens em todo o mundo, revela um estudo publicado na revista científica Current Biology. A investigação mostra ainda um dado preocupante: nos últimos 25 anos, os humanos destruíram um décimo das regiões selvagens do planeta. A principal destruição verificou-se na Amazónia — um terço da zona destruída foi nesta floresta, situada maioritariamente no interior do Brasil.

Desde 1993, cerca de 3.300 quilómetros quadrados de zona selvagem — definida como “ecologicamente intacta” e “maioritariamente livre de perturbações humanas” — foram utilizadas pelo Homem. Trata-se de um fenómeno com consequências que podem ser graves tanto para as espécies em perigo que vivem naquelas regiões como para o ambiente, na medida em que colocam em causa muitos dos esforços atuais para combater o aquecimento global, esclarecem os autores do estudo.

Ao jornal britânico The Guardian, o investigador James Watson, da Universidade de Queensland e da Sociedade de Conservação da Vida Selvagem (WCS), explicou que “sem políticas para proteger estas áreas, elas vão ser vítimas do crescimento desenfreado”. O cientista, um dos autores do estudo, prevê um futuro negro: “Provavelmente, só temos uma ou duas décadas para reverter a situação”.

Os investigadores analisaram vários indicadores de atividade humana, como a construção de estradas, iluminação noturna e agricultura, e desclassificaram cerca de um décimo das zonas até aqui identificadas como regiões de vida selvagem.

Um mapa divulgado juntamente com o estudo mostra as zonas com a vida selvagem destruída (assinaladas a vermelho), presentes em todas as regiões consideradas atualmente como de vida selvagem (a verde). Como se vê no mapa, a região da Amazónia é aquela em que se verificam mais zonas assinaladas a vermelho.

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A tons de verde, é possível ver as regiões selvagens que ainda se mantêm intocadas pelos humanos. A vermelho, as regiões destruídas ao longo dos últimos anos.

A zona de vida selvagem da Amazónia reduziu, em 25 anos, de 1.800 para 1.300 quilómetros quadrados. É na Amazónia que vivem mais de 600 espécies de pássaros e primatas, que correm sérios riscos com a destruição das áreas selvagens. Mas a preocupação é grande também noutras latitudes. Em África, por exemplo, as florestas do Congo já não são consideradas globalmente significativas, mas o WWF (Fundo Internacional para a Natureza) destaca que podem existir lá mais gorilas e chimpanzés do que em qualquer outro lugar do planeta.

O estudo identificou um dos principais motivos que levam à destruição das zonas selvagens: o facto se assumir que estas zonas estão “relativamente livres de ameaças, e por isso não são uma prioridade em termos de conservação”.