O nome dá um toque ou outro de aristocrático: Ricardo Andrade Quaresma Bernardo. Soa bem, sim senhor. Para nós todos, é o Quaresma. Para o Benfica, é uma espécie de pesadelo à conta dos quatro golos, um pelo Sporting (no Jamor) e três pelo Porto (em Coimbra, no Dragão e na Luz). Curioso, isso da Luz. Na última visita, dois golos (e três assistências) de Quaresma. À Estónia, pouco antes do Euro-2016. Conta, não conta? Então, sobe para três. Está montado o circo. Se a isso acrescentarmos os regressos de dois artistas com golos na Luz em 2016, ui ui ui. Aboubakar é autor da última derrota caseira do Benfica (2-1), em fevereiro. Última, e aquela com o Bayern, em março? Ai não, é verdade, isso acaba 2-2, por obra e graça de um livre direto de Talisca.

‘Tá engraçado ‘tá, o jogo desta terça-feira promete. É a primeira jornada da Liga dos Campeões. Em casa, o Benfica é forte no arranque e só não ganha duas vezes em seis (United 1-1 em 2011, Zenit 0-2 em 2014). O sorteio dá Besiktas, campeão-surpresa da Turquia, à frente dos favoritos Galatarsaray e Fenerbahçe. Quando a bola do Benfica sai para o grupo, os jogadores do Besiktas festejam. Cai o Carmo e a Trindade. Com a tal calma do mundo, Quaresma explica. “Ainda bem que me faz essa pergunta. Festejámos porque só havia duas hipóteses entre o grupo do Barcelona e o do Benfica. Ninguém quer ficar no grupo do Barcelona nesta primeira fase. Quando saiu o Benfica, ficámos contentes porque são quatro equipas e qualquer uma pode passar.”

Das palavras aos atos, Quaresma está pronto para o desafio. Ou não fosse ele o centro das atenções. Pela carreira. Pelo estatuto. Pela irreverência. Pela importância no título da seleção no Euro-2016. Quaresma chega a Alvalade em 1997 como iniciado e é campeão nacional de juvenis em 1999. Titular da seleção nacional sub-17, vai ao Europeu em Israel. E decide a final vs. República Checa, com dois golos, um de penállti e outro de ouro. Estamos a 14 maio 2000, dia em que o Sporting é campeão 18 anos depois.

Em 2000-01, Quaresma sobe aos juniores e à equipa B. Em 2001-02, dá-se o maior salto de todos. Culpa de Bölöni. O romeno chama Lourenço, Beto II, Hélder Rosário e Quaresma, mas só este é que cai no goto do novo treinador, no estágio em Rio Maior. E, atenção, Quaresma é o mais jovem de todos, tem 17 anos. Nos primeiros treinos brinca ao futebol com Pedro Barbosa. E depois com Rui Jorge. Os dois pesos-pesados caem com os dribles desconcertantes do extremo irreverente. E nos jogos? A estreia é com o Rio Maior. A lateral-direito, Quaresma dá espetáculo aos 49’ como autor do sensacional 4-0 num lance em que sai com a bola da defesa e ultrapassa três adversários antes do remate à entrada da área. Com a Académica volta a entrar de início, desta vez a médio-ala direito. Curiosamente, é quando descai para o lado esquerdo que faz um golo notável, com o pé direito.

Na festa de apresentação, em Alvalade, é Dimas que sofre com uma finta da marca Quaresma: o pé direito passa por cima da bola ao mesmo tempo que o esquerdo a toca para ultrapassar o defesa. Tudo é executado tão rápida e inesperadamente que o defesa fica pregado ao relvado. O próprio Bölöni é vítima num treino. Escreve o romeno no seu bloco de notas. “Frente ao Standard, este jovem convenceu-me em absoluto. Após esse encontro, comparei-o, nas minhas anotações, com um Mustang [cavalo selvagem] difícil de dominar. Anotei esse comentário com um grande ponto de interrogação. Será ele capaz de aceitar regras para se tornar um bom cavalo de corrida ou nunca as vai aceitar e permanecerá para sempre um cavalo selvagem, que corre livremente, mas sem rumo?” Quaresma encontra o rumo em Alvalade, com Bölöni, e é campeão nacional em 2002. No verão seguinte sai para o Barcelona por 6 milhões de euros mais uma parte do passe de Rochemback. É emigrante aos 19 anos. Como Mustang ou…?

O dia é 6 julho 2004. Um ano no Barcelona rende-lhe tão-só uma série de frustrações, embora seja companheiro de quarto de Ronaldinho Gaúcho nos jogos fora e seja ele o autor do golo na conquista da Taça Catalunha, o único troféu desse Barça de Rijkaard 2003-04. O começo até é significativo, no Troféu Joan Gamper. À apresentação hollywoodesca dos jogadores (Luis Enrique, Puyol e Ronaldinho, os mais aplaudidos, por esta ordem) segue-se um festival de luz e cor, com fogo-de-artifício. Duas horas depois, acaba o jogo com o desempate de penáltis. A festa está completa? Ainda não. Quaresma, suplente até substituir Ronaldinho aos 75’, sai do estádio quase às 2h30 da manhã e vai a pé para o Hotel Rainha Sofia, a 700 metros do estádio. Com simplicidade, calça as havaianas e veste uns calções, como quem vai ali à praia. Depois finta umas quantas pessoas pelo caminho (muitos deles nem o conhecem, como dezenas e dezenas de ingleses over-70, mais rosados que sei lá o quê) e entra incógnito no hotel. Quando o confrontamos com o ambiente do estádio cheio como um ovo, Quaresma não se descose. Com um ar genuinamente aborrecido, diz-nos: “Aquele número 7 deles é um chato, sempre a implicar com tudo e todos.” Fala de Guillermo Barros Schelotto, uma instituição do Boca. Para Quaresma, é tão-só o 7. Que peça, Quaresma.

Sem lugar no onze, muito por culpa da má relação com o treinador holandês, Quaresma quer ir pregar para outra freguesia. O Sporting tem a preferência, o Porto adianta-se. Nesse tal 6 julho, dois dias depois de a Grécia na final de “você sabe bem o quê”, Quaresma apresenta-se no Porto (cidade) e faz testes médicos no Centro de Treinos e Formação Desportiva Porto-Gaia. Só depois é apresentado no Porto (clube), com o número 10, que é de Deco, apresentado nesse mesmo dia em Barcelona com o 20 – de Quaresma. Tem a palavra o português de gema, no Dragão: “Vim para o Porto porque foi a equipa que mostrou mais confiança no meu valor. É verdade que não estava a pensar regressar já a Portugal, mas quando soube do interesse do Porto nem sequer pensei duas vezes.”

Quando a bola é passada a Pinto da Costa, o presidente conta episódios caricatos. “Enviei quatro cassetes ao Del Neri [treinador italiano recém-contratado e que nem passaria da pré-época]: uma só com apontamentos e as outras com jogos completos. No dia seguinte disse-me logo que seria um jogador excelente, que encaixa bem para colmatar a saída do Deco. Foi só esperar uns dias, pois o Barcelona tinha de dar a opção ao Sporting, que não a exerceu…” Com a camisola azul e branca, Quaresma estreia-se com a categoria que se lhe reconhece: um nó cego a Argel no lance do golo ao Benfica no 1-0 em Coimbra para a Supertaça nacional. No jogo seguinte, outro golo numa outra Supertaça (europeia), esta de má memória pela vitória do Valencia (2-1). Lá mais para a frente, em dezembro, o Porto é campeão mundial (penáltis com Once Caldas). Nas três épocas seguintes, Quaresma ganha três ligas, uma Taça de Portugal e duas Supertaças nacionais.

Em alta, Quaresma abandona o Porto em 2008, rumo ao Inter de Mourinho. Bela Itália, agora é que vai ser. A apresentação de Quaresma no Inter, a 2 setembro de 2008, é bem animada. Mourinho solta os foguetes e apanha as canas. “É a primeira vez que contrato um jogador que me marcou um golo.” Não é, há sempre César Peixoto (Belenenses), mas, vá, adiante. Uma jornalista quer perceber a demora de Quaresma em aprender a falar italiano. Antes da resposta do jogador, Mourinho dá a nota: “Ele canta em italiano! Canta Eros Ramazzotti.” Canta mas não encanta. Vai daí, é emprestado ao Chelsea de Scolari, em fevereiro de 2009. E falha mais uma vez. Volta a Itália e Mourinho continua sem o utilizar por aí além. Ainda assim, é campeão italiano (11 jogos, 400 minutos) e europeu (dois, 36), números insuficientes para ser chamado por Queiroz para o Mundial-2010.

Segue-se o Besiktas, a troco de 7,3 milhões de euros para o Inter. Na Turquia o feitio de Quaresma é questionado, sobretudo depois de ter discutido com o treinador português Carlos Carvalhal. É suspenso e a sua vida nunca mais é a mesma. É dispensado pelo clube seis meses antes do fim do contrato, a 20 dezembro de 2012, no ano em que até é um dos 23 convocados de Paulo Bento para o Euro. E agora, mais uma transferência? Ah pois, tem de ser: Al Ahli, treinado pelo espanhol Quique Flores. Seis meses nos Emirados Árabes Unidos chegam e sobram. Onze jogos e três golos depois, o clube rescinde-lhe o contrato. Inacivo há meio ano, chama o Porto. Chega em janeiro de 2014 e só reencontra dois colegas de 2008 (Helton e Lucho). O objetivo é o título de campeão. O Benfica não deixa – tanto em 2014 como em 2015. Afastado do estágio de pré-época na Holanda, sai de fininho do Dragão. Para o Besiktas. E despede-se por escrito com muito sentimento. “Quem chega ao Norte para jogar no FC Porto nunca mais na vida se esquece da forma como é recebido. O carinho da cidade e da massa associativa do clube tocam o coração e esse toque rapidamente se transforma em paixão, uma paixão que te faz correr mais, lutar mais, fazer mais golos e assim poder devolver em dobro todo o carinho que recebes. Ao presidente do FC Porto quero deixar o meu muito obrigado, às claques, sócios, apoiantes e simpatizantes quero dar um abraço que não se esgota nunca.”

Na Turquia, é recebido como um herói. Quem não o é, no fim de contas? Quaresma é diferente, claro. O seu ar de bon vivant dá-lhe para isso. Como campeão turco, entra pela porta grande na seleção. Sem ser a titular. Aliás, é como suplente que Quaresma se exibe melhor. Na qualificação, é dele o cruzamento para o 1-0 em Copenhaga aos 90’. E do passe para o 1-0 do Eder vs Itália. E do 1-0 de Miguel Veloso na Albânia aos 90’+3. Europeu com ele, pois claro. Em França, é o nosso jóquer de serviço. Quando entra, é magia. Nota-se a influência no 3-3 de Ronaldo vs Hungria, no 1-0 à Croácia, de cabeça, e no penálti decisivo vs Polónia. Só é titular na segunda jornada, com a Áustria, e é o primeiro a ser substituído por Santos, aos 50 minutos (entra João Mário e voltamos ao 4-4-2). Em qualquer outra situação, o momento seria embaraçoso. Agora, não. É o “não façam filmes” de Quaresma, mais ponderado e resolvido consigo mesmo. O que interessa é a equipa, seja a suplente utilizado ou nem isso. Na final, entra a substituir o capitão Ronaldo e quase marca num vistoso pontapé de bicicleta, sem esquecer aquele mata-leão a Koscielny numa bola pedida pela linha de fundo. Hoje, Quaresma está pronto para escrever mais um capítulo na longa carreira. O Benfica espera-o. A Liga dos Campeões também.