– Então, há quanto tempo, tudo bem?

– Tudo bem, e tu?

– Eu estou bem. E tu, como é que vai isso?

– Também tudo bem, e tu?

– E estás mesmo bem?

Quando dois conhecidos se cruzam e não têm nada para dizer, o diálogo resume-se a isto, a uma série de banalidades. O jogo da Luz começa dessa forma, sem garra nem graça. O Besiktas quer e não dá uma para a caixa. O Benfica faz-que-anda e não anda. Falta emoção, sobram bocejos. Se é assim, mais vale seguir os golos do Barça-Celtic e do Bayern-Rostov.

Às tantas, sem qualquer justificação, Salvio faz uma diagonal e apanha a bola na área, descaído para a esquerda. O remate do capitão (sim, Luisão é suplente e entrega-se o centro da defesa a Lisandro mais Lindelöf) com o pé esquerdo é defendido por Tolga com dificuldade. Na recarga, o abre-latas Cervi empurra a bola para a baliza. Está feito o 1-0, da autoria do sérvio, já autor do 1-0 sobre o Braga na Supertaça. Muito bem, faltam 78 minutos. E agora? O Besiktas continua naquela lenga-lenga sem sair de cima e o Benfica continua inofensivo, à exceção dos remates por cima de Salvio. Antes do intervalo, mais Benfica. Por obra e graça de Gonçalo Guedes. Aos 38’, obriga Tolga a defesa apertada num remate cruzado. Aos 44’, embrulha-se tanto com a bola que acaba por perdê-la sem honra nem glória. No minuto seguinte, Horta obriga Tolga à defesa da noite. Pelo meio, o Besiktas. Ou ausência de Besiktas. É incrível como não chega à baliza de Ederson. Nem de perto nem de longe. Mérito para a postura defensiva do Benfica, com todos os jogadores a defender atrás do meio-campo, e demérito para a falta de ideias da equipa turca.

Ao intervalo, o treinador Senol Günes, que perdera na Luz em 2011 (ao serviço do Trabzonspor), lança o brasileiro Anderson Souza Conceição. Oi? Anderson Souza Conceição, vulgo Talisca. E isso é o quê, Talisca? É uma vara de pau, fina, bem delgada. Explica Edson Fabiano, seu treinador nas camadas jovens do Bahia, ao Maisfutebol. “O apelido de Talisca não foi por acaso. Ele chegou pior do que vocês estão vendo. Ele era muito magro, mesmo. Se não fosse a técnica, não tinha ficado. Não tinha força, a condição física era muito precária. Numa semana/duas, a qualidade técnica, a visão de jogo, a batida na bola mostraram que ele era um garoto que merecia ter as condições para se desenvolver.”

No dia 8 de julho, esse vara de pau, fino, bem delgado, aterra em Portugal. Segue-se a Luz para exames médicos. O Benfica paga 3,7 milhões de euros ao Bahia, que nunca na vida encaixara assim tanto dinheiro de uma só vez. “É uma alegria vestir a camisa do Benfica, um dos grandes clubes do futebol mundial. Não tenho palavras para descrever essa emoção. Vou aproveitar a oportunidade.” A conversa é a de sempre mas não é que desta vez encaixa na perfeição?! O espetáculo começa no Bonfim, com um hat-trick (5-0). Segue-se um bis na Amoreira (3-2), onde marca o primeiro golo com uma jogada individual do arco da velha. Está lançado. É o abre-latas com Arouca (4-0), Braga (1-2), Rio Ave (1-0) e Monaco (1-0). Repetimos, tem só 20 anos. Craque. “Agradeço ao treinador o trabalho que tem feito comigo e a aposta que está a fazer em mim. É muito importante para mim poder fazer um golo na Liga dos Campeões”, justifica Talisca, sem rodeios.

Golo na Liga dos Campeões, qual golo? O 1-0 ao Monaco, em 2014. Passa-se uma época e Talisca perde influência do Benfica de Jesus para o Benfica de Vitória. Ainda assim, a Liga dos Campeões é o seu palco preferido. Na despedida do Benfica em 2015-16, com o Bayern, o 2-2 final é dele. De livre direto. Vem aí o mercado de transferências e Talisca é emprestado pelo Benfica ao Besiktas. O sorteio da UEFA permite o regresso a uma casa que bem conhece. Quando é anunciada a entrada, uns quantos assobios e muitos aplausos. É bem-vindo pelos adeptos do Benfica. E é bem-vindo ao jogo. Com ele em campo, o Besiktas incomoda finalmente Ederson.

O Benfica de Arnaldo Teixeira (sim, Rui Vitória não está lá no banco de suplentes, só na bancada, via-expulsão no tal 2-2 com o Bayern) entra mal na segunda parte e sente-se incómodo com a subida do Besiktas. Aos 56 minutos, Talisca aparece pela primeira vez e queixa-se de penálti cometido por Lindelof (o sueco toca-lhe no calcanhar esquerdo, só depois de o brasileiro dominar a bola com o braço). Aos 84’, Quaresma passeia-se pela bola à frente da sua área e, claro, perde-a para Gonçalo Guedes. Completamente isolado, com tempo para tudo, o número 20 falha o golo. Sim, Tolga defende, é verdade. Só que aquilo tem de ser golo. Obrigatório. O Benfica adia, o Besiktas aperta.

Nos instantes finais, o meio-campo do Benfica é povoado por 21 jogadores. Só Tolga está longe. De resto, é um ver-se-te-avias. Sem saber gerir a posse de bola, acumulam-se os erros. E as faltas. Numa delas, Gonçalo Guedes atira-se a um turco. Do livre, Hutchinson obriga Ederson a uma defesa para canto. Na marcação do mesmo, mais Ederson. A bola não sai dali e é livre, por mão desnecessária na bola do recém-entrado Celis. Mal o árbitro apita, Talisca bate no peito. Como quem diz, esta é minha. E é mesmo. Assobios, aos montes. E então? A bola vai lá para dentro. Ederson atira-se. Em vão. Aos 94 (o número da camisola de Talisca).

Sob a arbitragem do sérvio Milorad Mazic, eis os actores.

BENFICA: Ederson; Nélson Semedo, Lisandro, Lindelöf e Grimaldo; Fejsa (Celis, 89’), André Horta, Salvio e Pizzi; Cervi (Samaris, 70’) e Gonçalo Guedes. Treinador: Arnaldo Teixeira (português)

BESIKTAS: Tolga; Beck, Marcelo, Tosic e Adriano (Cenk, 63’); Inler e Hutchinson; Quaresma, Ozyakup (Talisca, 46’) e Caner; Aboubakar (Olcay, 82’). Treinador. Senol Günes (turco)

Marcadores: 1-0, Cervi (12’); 1-1, Talisca (90’+4)