Alguns militares do 127.º curso de Comandos, a que pertenciam os recrutas Hugo Abreu e Dylan da Silva, estavam a ser monitorizados do ponto de vista fisiológico, através de um projeto desenvolvido pelo Laboratório de Biomecânica do Porto em parceria com o Exército. Ao Observador, o investigador Mário Vaz, responsável pelo projeto, explica que a equipa ficou “tão surpreendida como toda a gente” com as mortes e os internamentos, visto que “não foi registada nenhuma anomalia”.

Os investigadores escolheram alguns militares do batalhão “ao acaso” (nenhum dos que tiveram problemas fazia parte desta amostra), que foram equipados com uma série de instrumentos que permitiam recolher dados como ritmo cardíaco, temperatura interna, e atividade física. O objetivo era obter uma “avaliação da resposta fisiológica ao esforço, em contexto térmico adverso”. Ou seja, “como é que o organismo humano responde quando está sob carga física e psíquica, em condições térmicas adversas, como muito frio ou muito calor”, esclareceu o investigador. A equipa esperava criar “um modelo que permitirá simular numericamente o mecanismo que nos permite controlar a nossa temperatura”.

Se algum dos militares que tiveram problemas fizesse parte da amostra, “teríamos hoje muita informação, porque com as pessoas que estavam monitorizadas estava tudo bem”. Agora, a equipa está à espera da resolução dos inquéritos, para poder ter acesso aos dados médicos sobre os militares internados e poder reformular o projeto. Haverá “outros parâmetros que importa medir”, afirma o líder do projeto. “Estamos muito curiosos, estamos à espera de ter essa informação para perceber o que se passou e que outras variáveis podemos ir buscar”, acrescenta.

Ainda assim, de acordo com os resultados obtidos dos militares analisados, o investigador assegura que “o treino não ultrapassa os limites humanos”. Reconhecendo que “há uma pressão enorme sobre os militares, ao analisar os dados, verificamos que em nenhum momento a temperatura interna sobe acima dos 40 graus, que é considerado o limite”, esclarece Mário Vaz ao Observador. A equipa assegura também que, se tivesse encontrado alguma anomalia nos dados dos militares, teria dado o alerta de imediato. E o investigador acredita que tudo foi feito da melhor forma possível. “Não tenho a mínima dúvida de que toda a gente desempenhou o seu papel como era suposto. O Exército não escondeu nada, foram os primeiros a estar preocupados”, garante.

O projeto chegou aos Comandos “a pedido do próprio Exército”, sublinha Mário Vaz, acrescentando que foi “o curso de Comandos que nos pediu para que déssemos continuidade ao projeto com eles”. O projeto já tinha tido uma primeira fase, em que alguns militares foram submetidos a esforço dentro de uma câmara de temperatura controlável. A segunda fase foi passar para o terreno. “Consiste em fazer o mesmo que a NASA faz com os astronautas”, refere o investigador.

Para o investigador, as próximas fases destes projetos implicarão que “todos os militares estejam instrumentados”, até porque “esta tecnologia já está quase ao nível da utilização no dia-a-dia”. O grande problema que ainda está por ultrapassar é a análise em tempo real. Atualmente, os dados só podem ser analisados depois de retirados os instrumentos de medição, “mas o próximo passo é a evolução para o tempo real”, sublinha o investigador.

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