Um arquiteto tornado entertainer. À esquerda no palco, sentado à secretária, com computador portátil em frente, Eduardo Souto Moura fala do seu trabalho como quem toma um café. E talvez seja esse o segredo.

Pequenas histórias de bastidores, apartes em forma de crítica, tom enfadado como exercício de ironia. O arquiteto portuense, de 64 anos, Prémio Pritzker 2011, desceu a Lisboa para uma conferência que foi recebida como uma aula e poderia ter sido um programa de entretenimento na televisão.

O Grande Auditório do Centro Cultural de Lisboa (CCB) não esteve esgotado, mas quase, e na assistência notou-se a presença muitos jovens, possivelmente estudantes de arquitetura. Durante quase duas horas, Souto Moura apresentou “projetos em construção ou em papel”. O eco na sala, e a deficiente captação de som, nem sempre permitiram entender todas as palavras do conferencista.

Souto Moura começou por apresentar um piano e terminou com uma barragem. Um total de 12 projetos.

Disse ter ficado surpreendido quando um cliente lhe pediu que desenhasse um piano. Mas o piano nasceu, está quase pronto, “com uma caixa mínima e três pés metálicos”. Ao referir a Barragem de Foz Tua, revelou desacordo com opções impostas pela UNESCO – que tem uma palavra a dizer sobre alterações na paisagem do Alto Douro, por esta ter sido classificada como Património da Humanidade.

“Tenho imensas angústias, mas também não sou o artista na Torre de Marfim, que precisa de se exprimir. Quem se quer exprimir, vai para casa”, reagiu.

Apaixonada foi a explicação sobre o auditório que a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa lhe encomendou. Tem formas de uma câmara fotográfica antiga, com enorme fundo em vidro e vista para o castelo de São Jorge. A obra foi aprovada em março pela Câmara Municipal e está quase pronta. Situa-se junto à Igreja de São Roque, ao lado do Elevador da Glória.

“Disseram-me: ‘Veja lá se faz o fundo em vidro, como a Gulbenkian’. Isso é uma parolada. Cada coisa no seu sítio. Mas depois pensei bem… O fundo ficou em vidro”, contou o arquiteto. O público riu-se.

Falou também de um edifício em Washington que um cliente português encomendou; da recuperação da herdade do Barrocal, perto de Reguengos de Monsaraz; da torre de 17 andares pensada para a Avenida Fontes Pereira de Melo, em Lisboa; do Teatro Nacional de Clermont-Ferrand, em França.

O Museu Abade Pedrosa, em Santo Tirso, reaberto em maio e em cuja recuperação esteve envolvido juntamente com Siza Vieira, levou-o a dizer que tiveram “várias dissidências benévolas”.

A conferência fez parte do programa da exposição “Continuidade”, na Garagem Sul do CCB, onde estão explicados sete projetos da sua autoria de Souto Moura, de 1991 a 2012. A inauguração foi 21 de junho e o encerramento será na segunda-feira, dia 18.

No fim, o conferencista sentou-se ao lado de João Belo Rodeia, ex-presidente da Ordem dos Arquitetos – o mesmo que entrevistou Souto Moura para um vídeo exibido em “Continuidade”. E respondeu a algumas perguntas.

Admitiu que a aparente facilidade com que fala de arquitetura esconde “momentos de desespero” em busca de soluções técnicas para os projetos.

“Tenho mudado, não gosto de dizer que evoluí. Quando comecei a ser arquiteto, no período conturbado do pós-modernismo, era preciso construir o país, um país jovem, depois do 25 de abril. Não ia fazer colunas jónicas em Freixo de Espada à Cinta. Tive de desenvolver um discurso simples”, resumiu Souto Moura.