Título: “Água – uma novela rural”
Autor: João Paulo Borges Coelho
Editora: Caminho
Páginas: 376

joao paulo borges coelho

É mau auspício para um romance saber que ele anda ao sabor da água de um rio. O primeiro problema desta andança, comum a todos os argonautas deste género, está no teor: se navegamos em água chilre, fluvial, claro que o sabor não será mais do que insosso. O segundo problema é particular desta novela: é que se no fim do livro há uma cheia que o estilo acompanha, numa linguagem torrencial, impiedosa e destruidora ao jeito da tempestade, e se é verdade que esta parte tem um certo interesse, também é verdade que no resto a fruição continua a acompanhar o clima da história, com o problema de esta se passar num tempo de valente seca.

A míngua de água numa aldeia africana até podia ser um motor narrativo interessante; consegue sê-lo, até, embora apenas a conta-gotas, quando mostra como a falta de um elemento básico pode alterar o padrão de relações entre as pessoas. Os namorados, outrora em sintonia absoluta, não conseguem comunicar, os amigos afastam-se, os conhecidos zangam-se, há lutas de meia-noite e autênticas tempestades, se não num, pelo menos por um copo de água, e uma série de relações alteradas pela gazeta dos céus.

O novelo da acção, cheio de amores e desencontros, até podia casar bem com a ideia da novela; mas no meio do novelo e da novela há, antes do mais, um par de anciãos que interrompe muito a história. A cada capítulo de acção segue-se um interlúdio de marretas filosóficos em que os provectos Ryo e Laama (quase todos os nomes têm este gaguejo de uma letra num elemento natural: Laama, Maara, Laago…) comentam os acontecimentos num tom poético-sapiencial de raiz popular. Ora, estes diálogos, além de redundantes no que toca à acção, ainda lhe colam uma série de aforismos arbitrários – “A noite é um espesso cobertor que nos tapa a todos”; “as estradas são falsos riscos naturais que cortam e maltratam os riscos verdadeiros” – excessivamente líricos, que embrenham o leitor em discussões de bagatelas: os velhos ilustram um também velho problema da literatura africana mais recente – a forma como os autores se prendem às próprias imagens que criam, de tal forma que acabam a discutir, não verdades, mas imagens poéticas. Ora, como todas as florinhas são da lavra do autor, assistimos placidamente à discussão entre os dois pólos da mesma imaginação, com igual desconforto e desinteresse ao de quem se vê enodado numa bulha de família alheia.

Estes diálogos, com boa-vontade, ainda poderiam empolgar, se de facto houvesse insistência ou trabalho estilístico; na literatura portuguesa há várias discussões sustentadas mais na força das imagens do que na segurança da lógica aristotélica: a discussão sobre o dinheiro na Corte na Aldeia, o diálogo sobre o olhar no Frei Heitor Pinto… acontece que, nestes casos, as metáforas são exploradas até à exaustão; na gerôntica conversa de João Paulo Borges Coelho são lançadas umas frases imbeles, numa espécie de “Vale a Pena pensar nisto” mais perfumado, à cura de leitores sensíveis em vez de ouvintes radiofónicos perdidos no rame-rame do trânsito.

Os Catulos do Niassa não são, no entanto, o único buraco em que este Água a mete. Se um triângulo amoroso já prometia dar água pela barba a um romancista, imaginemos um caso destes, há que há mais um vértice apaixonado (para mais chamado Laago, como que a prometer que nem a seca impedirá de encharcar a tal barba do escritor). Maara, a personagem principal, tem um namorado citadino, meteorologista, um pretendente alemão, instalado na aldeia em labores de engenharia, e um cobiçoso conterrâneo, retornado de uma qualquer Babilónia moderna, amigo de infância do tal namorado.

Poucas consequências

A trama novelesca, os amigos rivais, o namorado ausente, o estrangeiro sofisticado e poderoso, as dificuldades e os dilemas morais deixam água na boca a qualquer leitor; no entanto, o máximo que tiramos são uns favónios de acção, um ataque furtivo ou outro sem consequências de maior e problemas que se resolvem a si próprios.

Vejamos um caso flagrante: a páginas tantas, parece que o tal boche conseguirá resolver o problema da seca. A custo (pensamos nós) conseguiu juntar uns barris de água preciosos, tão raros que justificam sentinela permanente, que poderão matar a sede aos aldeãos. Ora, acontece que uma revolta popular acomete contra a sentinela e destrói os tais barris, espalha a água pela terra, tão árida que absorve toda a hidra que lhe chega e deixa assim a água em águas de bacalhau.

O impasse é claríssimo: a água é escassa, foi arranjada com dificuldade pelo que, além da seca, surge o novo problema de já não haver os barris conseguidos com tão altas diligências. Como é que este problema se resolve? Com a tradicional audácia dos heróis aventurosos? Com um esquema engenhoso de um lógico até aí incompreendido? Não. O alemão manda vir mais. Todo o problema da raridade se esfuma quando vemos que a anterior quantidade, arrancada a ferros aos poços mais abscônditos, pode ser conseguida de novo com uma simples ordem. Não só estraga o problema causado pela revolta, como estraga a proeza anterior de conseguir a água. O leitor, mergulhado nesta “Água”, deixa de acreditar na dimensão da seca.

Poderíamos, em vez de ir às acções secundárias, concentrar-nos na trama principal. Esta, de facto, é mais empolgante: os equívocos entre os dois namorados por causa de medos projectados, a paixão mal contida do Alemão ou a raiva descontrolada do amigo rejeitado, tudo pode ter o seu interesse. Acontece que os principais nós deste jogo de relações são dados por uma personagem que não nos parece muito consistente. Laago, o tal amigo, está apaixonado por Maara, isso sabemo-lo desde o princípio.

Ora, esta paixão cria uma animosidade contra o seu amigo e, ao mesmo tempo, contra a amada. Ora, a raiva contra aquele que possui o objecto do nosso amor, ou a inveja, não é coisa estranha; a raiva contra aquele que amamos também já está tratada no mito de Fedra, embora Racine tenha tido a prudência de identificar a diferença entre querer mal e fazer mal, e com isso dividir as culpas pelo destino de Hipólito entre Fedra e Enone; o que é estranho em Laago é que a inveja é suficiente para romper com um amigo, mas não o suficiente para que não se importe que ela arranje outro namorado que não ele próprio; Laago quer, ao mesmo tempo, que Maara acabe o namoro, que namore com ele e que namore com outro; quer fazer do namorado (Ervio) infeliz por Maara o amar, quer fazer de Maara infeliz por ela não o amar a ele e a Maara feliz desde que isso deixe Ervio infeliz. O móbil do ódio a Ervio é a sua vontade de ter Maara, mas já não se importa de não a ter desde que Ervio não a tenha. Dá a impressão de que o carácter de Laago se molda ao mal que é preciso fazer para o desenrolar da história: comandar assaltantes, urdir intrigas, violar e o contrário de tudo isto, desde que provoque o mal.

Este mal, ainda assim, nunca será tão grande como aquele de que a água – avisa-nos logo o princípio do livro – é capaz de causar. A inflexão brusca, até no ritmo narrativo, provocada pela cheia repentina tem um poder perverso: ao mesmo tempo que nos confronta com a volatilidade das intrigas e dos sítios, desaparecidos quando o rio decide esticar o peito, também nos pode confrontar com a inutilidade do enredo. A passagem da água, redentora ou destruidora, leva tudo. E parece-nos que o livro, apesar de um fogacho bonito, não tem força para aguentar a passagem.

Carlos Maria Bobone é licenciado em Filosofia. Colabora no site Velho Critério.