O ministro dos Negócios Estrangeiros ucraniano, Pavlo Klimkin, disse em Lisboa que a solução para a crise no leste do país não está a ser aplicada porque a Rússia apenas está interessada em “desestabilizar a Ucrânia democrática e europeia”.

“Todos entendem que existe uma solução, mas não está a ser aplicada porque a Rússia não se interessa pelo Donbass [a região do extremo leste da Ucrânia], a Rússia está interessada em desestabilizar a Ucrânia democrática e europeia”, referiu em Lisboa durante uma conferência de imprensa conjunta com o homólogo português Augusto Santo Silva, no decurso de uma visita oficial onde foram abordadas as relações bilaterais, a cooperação no quadro das organizações multilaterais e a situação regional.

“Por isso necessitamos desta solidariedade no interior da União Europeia [UE] e da comunidade internacional. E precisamos da aplicação de sanções como uma forma de pressão. Não como uma estratégia, mas como uma forma de pressionar a Rússia para aplicar totalmente o acordo de Minsk”, assinalou, numa referência ao protocolo assinado em setembro de 2014 na capital da Bielorrússia entre as partes em conflito (Ucrânia, Rússia e as autoproclamadas República Popular de Donetsk e República Popular de Lugansk), sob os auspícios da OSCE.

O chefe da diplomacia de Kiev, 48 anos, natural de Koursk (Rússia) e diplomado em Física e Matemáticas aplicadas pelo Instituto de física e tecnologia de Moscovo, nas atuais funções desde junho de 2014 no Governo de Arseni Iatseniouk, considerou existirem “todas as razões” para que a ex-república soviética, independente desde agosto de 1991, permaneça vigilante.

“O atual reforço militar (russo) não tem precedentes, hoje concentram cerca de 200.000 soldados nas regiões do Cáucaso, têm uma enorme quantidade de tropas na Crimeia”, referiu, antes de recordar as baixas entre o exército ucraniano apesar dos acordos de cessar-fogo, também patrocinados e mediados pelas principais potências europeias.

“A receita para o sucesso de Minsk é simples, caso a Rússia esteja preparada para o aplicar, deixe de bombardear, retire as suas forças militares, retire as tropas e o armamento russo”, considerou.

“A Rússia enviou 200 tanques e veículos blindados para o Donbass, não creio que Portugal possua esta quantidade de armamento… a OSCE deve controlar o território do Donbass e as regiões não controladas da fronteira russo-ucraniana”, sublinhou ainda.

O regresso da população dessas áreas de conflito a uma “vida normal” e a possibilidade de a Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) organizar “eleições livres e justas nesse território” foram ainda medidas que destacou.

Neste contexto, Pavlo Klimkin, que no MNE ucraniano já exerceu o cargo de diretor do Departamento para a União Europeia antes de ser designado em 2012 embaixador na Alemanha, insurgiu-se contra as eleições que as autoridades locais estão a organizar na península da Cimeira, na sequência da anexação deste território do sul pela Rússia em março de 2014.

“Congratulo-me que todos, também aqui, não reconheçam as eleições na Crimeia. A Rússia organizou quatro círculos eleitorais, mas a Rússia também incluiu a Crimeia ocupada no círculo eleitoral federal. Estas eleições são totalmente ilegítimas, quer do ponto de vista político quer no estrito sentido legal”, frisou.

Klimkin disse que Moscovo “abriu uma espécie de caixa de Pandora”, pelo facto de este escrutínio poder vir a questionar a legitimidade do próprio parlamento russo.

“Se se vota na Crimeia ocupada, não apenas nos quatro círculos eleitorais mas também para o círculo federal, onde existem listas partidárias, como se pode dizer que esse parlamento é legítimo?”, questionou.

“Precisamos de discutir esse assunto e perceber claramente que qualquer género de provocação russa em torno destas eleições na Crimeia é totalmente inaceitável”.

Ainda numa referência às movimentações diplomáticas no âmbito do acordo de Minsk, o ministro dos Negócios Estrangeiros ucraniano destacou a importância de um “resultado concreto” de uma “espécie de roteiro que deverá ser apoiado por todos e onde a Rússia cumpra os seus compromissos”.

No âmbito das relações bilaterais e na sua intervenção inicial, Augusto Santos Silva sublinhou a importância da comunidade ucraniana que vive em trabalha em Portugal, “é a terceira mais importante que vive no país”, e destacou o acordo acabado de assinar com o seu homólogo.

“É um roteiro para o desenvolvimento das relações bilaterais, prevê o próximo encontro da nossa comissão bilateral e perspetiva uma agenda para o reforço da nossa cooperação, em áreas de soberania como a justiça ou assuntos internos, e em áreas económicas como transporte, infraestruturas e também prevê a melhoria das nossas relações em termos de Defesa e segurança”, disse também exprimindo-se em inglês.

Santos Silva recordou ainda o apoio fornecido por Portugal, na NATO e UE, para a melhoria das relações com a Ucrânia e esclareceu que “na qualidade de atual presidente em exercício do fórum para a Cooperação em Segurança da OSCE” Portugal “tudo fará para melhorar as condições de diálogo político e políticas de medidas confiança em relação à atual situação no leste da Ucrânia”.

E concluiu: “Pensamos que apenas existe uma solução política, a total aplicação do acordo de Minsk”.