Os socialistas perderam a “arma secreta” no combate à desigualdade — o imposto progressivo — queixa-se António Vitorino. Maria João Rodrigues junta a voz à inquietação e fala na necessidade de se encontrar soluções ao nível da política fiscal que possam contornar os problemas na busca de meios financeiros: a redução do valor do trabalho, a fuga e a livre circulação de capitais. Vitorino não aponta solução, apesar de deixar escapar que o caminho dos impostos indiretos também “gera desigualdades”.

Os dois socialistas especialistas em questões europeias foram até Coimbra, à conferência que o partido dedicou à “Desigualdade, território e políticas públicas” e mostraram-se preocupados com o atual momento europeu. No momento em que muito se tem falado de impostos, com o Governo de António Costa a ultimar a proposta de Orçamento do Estado, Vitorino vem dizer que a social-democracia europeia no seu todo perdeu “aquela que era a sua arma secreta” para “combater as desigualdades”, o imposto progressivo.

O antigo comissário europeu evitou comentar o caminho fiscal seguido pelo atual Governo, que vai mexer em impostos indiretos, mas ainda assim deixou escapar que esses “também são geradores de desigualdades”. Vitorino travou aqui o raciocínio: “Não quero entrar por aí”.

O socialista diz que os impostos progressivos se tornaram ineficazes na procura da coesão social, tendo em conta a “redução do valor do trabalho” e “a fuga de capitais”. “O imposto progressivo perdeu peso e força”, conclui. Uma preocupação partilhada, na intervenção seguinte, pela eurodeputada Maria João Rodrigues ao assinalar a existência de “uma questão-chave de partilha do valor entre capital e trabalho” e em como isso deve ser “revisto à luz do facto do valor acrescentado [do trabalho] ser hoje produzido de forma diferente”, pela introdução das novas tecnologias.

Mas se Vitorino atira a solução do problema para a frente, a eurodeputada do PS fala numa “solução que passa por uma política fiscal de impostos que seja capaz de ir às principais fontes de criação de valor acrescentado”, apontando à taxação das grandes multinacionais, um debate que tem corrido nas instituições europeias.

Existe a ideia de que há ganhadores permanentes e perdedores permanentes, isto é a negação do projeto europeu. É a essência do projeto europeu que começa a ser ameaçada”, avisa António Vitorino.

Mas as duas autoridades do PS para questões europeias ainda falam de outros problemas que se colocam à social-democracia europeia no combate às desigualdades. Há um discurso que é preciso mudar, atira Vitorino, que critica uma linha que “se preocupa mais com os que aparecem como ganhadores da globalização do que com os que aparecem como os marginalizados por ela”. O socialista diz mesmo que existe hoje “uma linha de fratura [na União Europeia] entre um establishment que parece querer proteger-se e reservar para si os benefícios da globalização e os marginalizados”.

“Esta é a maior ameaça ao projeto europeu”, sublinha António Vitorino que aponta À necessidade de um discurso centrado na “luta contra as desigualdades, mas não apenas pela igualdade de oportunidades, mas também com a luta contra a pobreza”. E a exemplificar o socialista aponta o Brexit e a rejeição da União Europeia (sobretudo vinda das classes marginalizadas) e também a emergência de Donald Trump nos Estados Unidos: “Seria um sério retrocesso civilizacional se o senhor Trump fosse eleito presidente dos Estados Unidos da América. Como é que um personagem tão burlesco é suscetível de estar a disputar a eleição na maior democracia do mundo e com possibilidade de ganhar?”.

Maria João Rodrigues aponta a o que ser “o problema de fundo: estamos numa zona euro que está a funcionar com um motor de divergência em vez de ser um motor de convergência”. E aponta a necessidade de dar força à União Económica Monetária, mas também o reforço na aposta no investimento e no aproveitamento dos fundos estruturais.