Em todas as edições do NOS em D’ Bandada acontece o mesmo: a organização fornece um mapa com os concertos e os locais respetivos, para que cada pessoa ou grupo possa traçar o percurso no festival. Alguns centram-se nos nomes mais conhecidos do cartaz, já outros preferem descobrir os novos artistas. No entanto, há uma parte do público que aceita assistir aos dois lados da barricada da festa. É só uma questão de dar corda aos sapatos.

15h48: um parque de estacionamento cheio

Seria de esperar que um artista como Miguel Araújo chamasse muito público até ao Silo Auto, mas talvez ninguém antecipasse que o espaço estivesse tão lotado. Ainda Pedro Tatanka, vocalista do The Black Mamba, atuava e era quase impossível vê-lo. Ainda assim, e apesar dos encontrões, centenas de pessoas permaneceram no Silo Auto e viram o músico atuar pela primeira vez a solo. “A última vez que me lembro de tocar sozinho foi na vila de Sintra, de onde sou natural, e fazia-o para receber uns trocos”, afirmou.

Este sábado estava sozinho em palco por gosto e pelo desafio. Pedro Tatanka, acompanhado por uma guitarra, apresentou várias canções originais. Uma delas foi “Estrelas”, dedicada à filha de um ano e meio: “Confesso que estou um bocadinho emocionado. Quando somos pais, deixamos de ser apenas estrelas de rock”, disse.

Minutos mais tarde, a multidão ainda se avolumava mais. Miguel Araújo subia a palco. Para quem estava nas filas de trás, tornava-se ainda mais difícil ouvir a música, quanto mais ver o artista. Havia resistentes e muitos apenas conseguiram assistir à atuação através do telemóvel. “Eu quero ouvir ‘Os Maridos das Outras’”, referiu uma jovem que olhava fixamente para o pequeno ecrã que tinha na mão.

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Miguel Araújo atuou no Silo Auto © Ricardo Castelo/Observador

Miguel Araújo começou com um tema seu, “Reader’s Digest”, mas como é hábito interpretou também algumas canções escritas por si para outros artistas. “Fado Dançado” é um dos exemplos: a canção faz parte do último álbum de Ana Moura e passou pelo palco neste sábado. E para os fãs que começaram a acompanhá-lo n’Os Azeitonas, a música “Nos Desenhos Animados” foi cantada como se Araújo fosse dono e senhor do parque de estacionamento.

17h39: vamos conhecer Sallim e Corona?

Sim, andamos mais um pouco. Saímos do Silo Auto para a zona da Torre dos Clérigos, mais precisamente para o Café Au Lait. Foi na rua das Galerias de Paris que encontrámos Sallim, ou melhor Francisca Salema, a atuar num pequeno café vintage.

Ainda na rua, antes de entrar, alguns tentavam escutar a voz delicodoce da cantora lisboeta. Muitos preferiram ficar lá fora e evitar o calor do interior. E até uma das frases que Sallim cantava parecia apropriada: “Quando é que o calor se vai embora, outra vez…”. Todas as canções foram interpretadas em língua portuguesa e a cantora dispensou artifícios. As palavras interagiam com o público, sem que precisasse de forçar o diálogo. “Queria vender sonhos no Martim Moniz”, disse Sallim, numa das canções.

Uns passos mais abaixo, o Passeio das Virtudes trocou-nos as voltas. Da calma passamos para festa do hip hop sem papas da língua de Corona. O coletivo é excêntrico, na forma como se apresenta e atua: um elemento tinha um robe tigresa vestido e uma meia-calça enfiada na nuca. As letras seguem a mesma ousadia e provocação: “Uma vez, estive com uma gaja que era tão gorda, que tive de lhe dar um pontapé para passar a porta de minha casa”, cantavam. “Nunca estarão preparados para Corona”, gritaram ao público.

E poucos estavam. Houve bocas abertas de surpresa e muita gargalhada. Os Corona sabem o que fazem: assumem-se como “uma ópera hip hop psicadélica/rock & roll… editada por molho de francesinha”.

18h48: Selma Uamusse desceu à terra

Até chegar ao Coliseu do Porto ainda é preciso subir algumas ruas. A escolha divide-se entre esta sala de espetáculos e os Maus Hábitos, que coabitam na Rua Passos Manuel e integram a programação do D’ Bandada. Prioridade aos horários — entramos no Coliseu. Selma Uamusse já atua, perante um Coliseu desejoso de escutar: “Na plateia de pé já não pode entrar mais ninguém”, avisa um segurança. Lá dentro, a cantora moçambicana faz-se valer de um cruzamento entre a soul e as tradições do seu país. “Para aqueles que se questionam sobre o que estou a dizer, isto significa amor e gratidão”, traduz Selma.

Se os movimentos suaves aparecem nas primeiras canções, faltavam poucos minutos para que o ritmo e a energia ocupassem o palco. Selma Uamusse antecipou: “O que eu mais gosto e temo nas pessoas do Porto é a vossa sinceridade. Portanto, vamos divertir-nos?” E assim começaram as danças que levaram o público a viajar até África: aos sons, cheiros e paisagens da terra vermelha.

A cantora não deixou que as pessoas ficassem fora da festa. Desceu do palco, deslizou entre o público, dançou com todos os que se cruzaram com ela e distribuiu abraços e beijinhos. No final, Selma fez um convite: “Venham dançar para o palco!”.

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Selma Uamusse foi ter com o público © Ricardo Castelo/Observador

Já do outro lado da rua, ainda vamos a tempo de escutar First Breath After Coma nos Maus Hábitos. A fila continuava longa lá fora e os sortudos que entraram, puderam conhecer a banda de Leiria, que faz do rock a sua casa. Na Praça dos Poveiros, Landim inaugurava o palco do D’ Bandada, onde o hip hop é rei e senhor.

21h30: Bonga dá uma aula de dança

De volta ao Coliseu e com a música africana ainda como protagonista. Kimi Djabaté preparava os corpos e as vozes do público para um dos concertos mais aguardados da noite: o angolano Bonga. Antes, o guineense já tinha feito dançar muitos dos presentes – embora fosse desconhecido de alguns e mesmo confundido com o artista seguinte.

Abriram-se mais tribunas no Coliseu para que mais pessoas pudessem assistir ao concerto de Bonga. Tinham passado poucos minutos da hora marcada e os mais impacientes já gritavam pelo seu nome. De um palco escuro e silencioso, surgiu o angolano sorridente. Muitos levantaram-se das cadeiras e não resistiram à música mexida e alegre. As pessoas dançavam sozinhas, aos pares e em grupo. Não havia regras e era isso mesmo que a música pedia.

Após três canções, já se ouviam os gritos: “Queremos a Mariquinha”. E Bonga respondia: ‘Não sejam impacientes’. E a aula de dança continuava, como se o Coliseu fosse um baile e uma escola de ritmos africanos. Uns passos mais à frente, era a vez de o rapper Bispo assegurar as batidas na Praça dos Poveiros. Não que a entrega não fosse genuína e dedicada, mas Bispo, era Bonga no Coliseu, que controlava e tudo e assegurava um dos melhores momentos do festival.

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Bonga foi um dos concertos mais aguardados da noite © Ricardo Castelo/Observador

23h: o rock e a amiga ou o rock num “Salto”

Durante a tarde, o Passeio das Virtudes foi concorrido. À noite, repetiu-se tudo. A esta hora, era a vez de os Salto mostrarem que o rock português é criativo e desafiante. “Queimo as Mãos pelo Futuro” foi uma das canções interpretadas pelo grupo, ao mesmo tempo que outras bandas da mesma categoria faziam a antecipação para a última etapa da festa. Gente boa como os Marvel Lima e os Cave Story têm algum do melhor indie rock que é possível encontrar em Portugal por estes dias e todos eles tocavam antes das pistas de dança tomarem conta da madrugada.

Depois dos concertos houve Nuno Lopes como DJ, a juntar tanta gente pela categoria habitual dos seus sets como pelo sucesso que o tem acompanhado como ator — e que lhe valeu o prémio de melhor ator no festival de Veneza. Houve um showcase da editora Príncipe no Passos Manuel, e não há outra festa com África digitalizada como esta, que ninguém se atreva a dizer o contrário.

Os Orelha Negra anteciparam em palco mais uma vez os temas do novo álbum, levando uma multidão até à Praça dos Poveiros — é coisa contagiante, a música destes cinco. E pouco depois era João Vieira que no 137 da rua Passos Manuel fazia acontecer de novo o Club Kitten, vestindo a pele de DJ Kitten. Tudo boa gente a dizer que nesta D’Bandada tudo pode acontecer.