Título: “Narrativa”
Autor: Paulo da Costa Domingos
Editora: Alambique
Páginas: 118

narrativa

Num famoso ensaio sobre as Afinidades Electivas, Walter Benjamin exprime da seguinte forma uma contradição inescapável da literatura: embora o que interessa seja o conteúdo de verdade, este só pode ser exposto mediante o conteúdo de matéria. E embora a matéria seja essencial para a existência da verdade na literatura, esta só pode ser reconhecida à medida que o capital de matéria vai desaparecendo. Entendamo-lo: é perfeitamente possível, a um escritor com poder evocativo, satirizar com subtilezas linguísticas os Homens do seu tempo, pintar o pontilhado social com a precisão de um fotógrafo, ou apanhar os absurdos comuns – alheios à essência da vida mas que tantas vezes dominam, num episódio de loucura partilhado, sociedades ou países inteiros – com verdadeira tarimba de filósofo.

A estes, muitas vezes – e com parcial justiça, diga-se – reputa-os o mundo do seu tempo de génios. São-no, em parte; mas quando desaparecem os fidalgos de carcaça ou os tartufos; quando caem as confrarias de republicanos cenobíticos ou de comendadores rubicundos; quando o mundo esquece as bizantinas distinções entre maoísmo e trotskismo e leninismo e alienismo, o génio destes homens torna-se apenas património de filólogos, ou tesouro mediado por notas de rodapé.

As tartufarias de Molière subsistem porque, aluídas as perucas e as salas de espera, dispensada a genuflexão eclesiástica e o beija-mão às senhoras, subsiste o tipo, o hipócrita. Todos reconhecem o senhor tartufo, mesmo que ele troque o jaez antigo pela gravata moderna.

Daí que, na Narrativa de vida de um poeta, para mais de um poeta tão toste em renunciar ao mundano, seja natural que os sentimentos e propósitos eternos prevaleçam sobre as minudências da vida privada.

Claro que aos babeiros da literatura, àqueles que vivem alapados aos queixos dos escritores para lhes recolherem tudo aquilo que, no foro íntimo, lhes desce da boca, esta Narrativa da vida de Paulo da Costa Domingos terá de desiludir. Paulo da Costa Domingos deu a pele à editora & Etc e a tripa à frenesi, fez parte da geração educada no zénite do surrealismo, separada dos seus nomes mais famosos apenas por um soluço geracional, habituada à sua convivência e à experimentação literária no seu seio, seio este já sazonado por vários anos de publicação literária. Faltam aqui histórias do Cesariny e do António José Forte, do Ricarte Dácio e de todas as figuras que, mais ou menos anónimas, alcandoraram a geração que, maturada no Café Gelo, derreteu até se espalhar pelas páginas da História para não mais as deixar.

Paulo da Costa Domingos refere-os, como nomes fortes da sua vida, junto com Vítor Silva Tavares (cujos desenhos do autor figuram no livro), dos seus tempos de mais fervorosa militância juvenil, sobrelevar o entusiasmo moço, o viço de cérebros e corações apostados em viver acordes a um absoluto literário; o método, aliás, é sempre esse.

Da família, não sabemos nem nomes nem misteres; sabemos — num estilo rememorativo que volta e meia nos dá recordações soltas daquela figuras quotidianas a que associamos a infância — do fosso que, sem cair o afecto, se vai cavando entre uma personalidade no achamento da arte e um clã mais candoroso, de fiozinhos de ouro no pulso dos bebés e rame-rame diário; do mundo que, à força dos pés e vistas curtos de criança, vai crescendo mais em profundidade do que em extensão e da iniciação literária; da juventude, além do sentimento de partícipe de grandeza que tanta juventude criadora conhece, o princípio da escrita, a necessidade de, por amor a eles e como Bernanos, acrescentar algo aos mestres.

São os anos, ainda não frenéticos de nome mas pelo menos de trabalho, de estoira-vergas aventurosos, violentos na literatura e na vida. Anos que foram acalmando, numa paz com algo de celeuma — ele próprio o diz –, motivada por uma série de traições ao ideal literário, ao ideal político, traições da morte e de uma vida dedicada à integridade. É apanágio daqueles que entendem uma ideia, que fazem dela santo-e-senha de uma vida, acabarem sós, abandonados por aqueles para quem a militância (seja ela qual seja) foi apenas uma fase, um divertimento sem importância, para ser cometido sem excessos e com higiene.

A reacção de Paulo da Costa Domingos, embora pacificada, segundo as suas palavras, na sua garimpa bibliófila a dois, numa certa amargura resignada, adquire um tom poético violento. Vemo-lo ao longo do livro, em proclamações duras e acusações de conformismo constantes (é, aliás, nestas proclamações que a habilidade linguística é mais visível), capazes de surgir a qualquer momento, entre a mais cândida recordação de infância ou mais entusiástica revelação do descobrimento dos mestres.

Este é, aliás, um dos traços notórios do livro: é que o hábito poético e a escola dos seus mestres impede a cronologia limpa e a literatura bem vestida; a todo o momento há guinadas temporais, apartes e inflexões de tom que desconcertam o leitor. Podemos, na infância, encontrar a acidez própria da velhice e nos últimos anos o brilho angelical da alma tenra.

Em todo o lado, porém, há a tão falada celeuma que, de uma maneira ou de outra, constitui parte da matéria narrativa de Paulo da Costa Domingos. Este livro é o carrasco dos coniventes, dos mornos e daqueles que pisam as letras de olhos postos na fama. É o livro dos desencantados de 74, iludidos pelas cúspides de um regime que procurou um roque entre peças reais em vez de promover os peões, dos inadaptados da civilização que mima os Homens como nem as mães fracas mimam crianças.

Ora, de um Homem que conhece tão bem as misérias e sabe ser tão raros os esplendores, que vê as baixezas com mais clareza quanto mais elas se tentam esconder, a fúria não preocupa. Enquanto o mal traz dor, o Homem ainda ama o mundo. Enquanto provoca gritos, ainda não desistiu de o amar.