Vinho

Vinho 2.0. Da adega para o digital

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Apesar de clássico e intemporal, o negócio do vinho não resistiu à revolução digital. Os empreendedores também lhe tomaram o gosto e têm apostado em novas formas de distribuição.

O vinho já não está só na prateleira do hipermercado ou da garrafeira mas também à distância de um clique.

Getty Images/iStockphoto

“As pessoas não precisam de uma terminologia tão complicada. Escolher vinho não é coisa para nos queimar a cabeça ou deixar-nos embaraçados.” A afirmação é de Gonçalo Soares da Costa que há um ano lançava a única garrafeira online a usar as pontuações da rede social Vivino — de lá para cá a Vinha cresceu, adaptou-se a mando do consumidor e continuou a saga de democratizar o vinho. Soares da Costa é um retalhista da era digital, que faz chegar o vinho português a quem se interessa por ele, seja dentro ou fora de fronteiras nacionais. Não está sozinho num barco que, pelos vistos, não vê terra à vista mas também não corre risco de se afundar.

Da vinha veio a uva que deu origem ao vinho. A história à volta do néctar de Baco continua a mesma, mas há novidades a acrescentar à linha de distribuição. O vinho já não está só na prateleira do hipermercado ou da garrafeira de muita estima, como também à distância de um clique — um clique para comprar, outro para vender.

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Vinho Bastardo da WWS. DR

Expliquemo-nos: a Wine With Spirit (WWS) surgiu há quatro anos com o mote de “engarrafar emoções”, isto é, apostada na produção de vinho próprio feito à medida das emoções de quem os procura. “Trabalhamos da prateleira para a adega e não da vinha para a mesa”, explica ao Observador João Pedro Montes, que defende que o vinho é diversão e não algo constrangedor, no sentido em que as pessoas não o escolhem com base na sua tecnicidade. Nem de propósito, na conversa com o fundador da WWS não entram termos como “barricas de carvalho francês” ou “estágio de 18 meses”, mas não é por isso que, garante o próprio, o vinho não tem qualidade. “Deixamos que sejam os críticos a testar a nossa qualidade”, diz, lembrando que nos últimos dois anos ganharam cerca de 30 prémios.

Serve a apresentação da WWS para destacar o novo passo da empresa: no início de 2016 lançaram a Lyfetaste para que, produzidos os vinhos irreverentes, não estivessem dependentes da distribuição clássica. Falamos de uma plataforma de distribuição digital inovadora, no sentido em que funciona como um franchising a nível micro, ao dar a possibilidade a todo e qualquer empreendedor de se tornar afiliado da WWS e, assim, ter uma loja de revenda dos vinhos da empresa.

Quando alguém investe para se tornar nosso afiliado recebe uma loja de portas abertas para a União Europeia. É um negócio próprio: potenciamos uma rede de distribuição associada a um produto que é bom. Entregamos uma loja costumizada e um back office em que a pessoa pode controlar tudo.”

O programa de afiliados — com preços entre os 75 e os 3.500 euros — é baseado num plano de compensação e de progressão com sistema de bónus compartilhado, sendo que a ideia é expandir a rede de distribuição e aumentar os ganhos. Além da possibilidade de ter uma loja online, a WWS aposta na formação contínua dos seus colaboradores. E será que isto tem pano para mangas? A Lyfetaste já chegou de forma orgânica a nove países e ainda na semana passada ultrapassou a barreira dos mil afiliados, sendo que a empresa prevê um crescimento exponencial de mais de 25 mil afiliados até ao final de 2017. “No próximo ano o nosso foco é a União Europeia e no final do ano vamos lançar a nossa flagstore, a nossa própria Starbucks”, garante João Pedro Montes.

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Pack de quatro vinhos da WIME. DR

Subscrever vinhos como quem subscreve newsletters

Se por um lado a WWS está apostada em vender os vinhos mais apropriados a determinados momentos e/ou emoções, por outro a WIME quer apenas ajudar o consumidor a escolher aquilo de que mais gosta, mesmo que ainda não o saiba. A startup viu a luz do dia em 2015, quando ainda se chamava O Meu Copo, também com a ideia de tornar o vinho mais acessível, tanto na escolha como na venda. A recém-batizada WIME, de Wine For Me, categoriza os vinhos por paladar — mais frutado, menos frutado, mais complexo e menos complexo — e vende subscrições de vinhos que lhe trazem até casa duas garrafas de vinho que variam de mês a mês, sempre recomendadas por Rodolfo Tristão, presidente da Associação dos Escanções de Portugal, para que possa ir desbravando o universo vinícola.

A WIME compromete-se ainda a enviar para qualquer lugar packs de quatro vinhos com um manual de prova e respetivas fichas de degustação, além de ter um espaço físico no CascaiShopping desde o início do verão. Atualmente a startup já opera na Hungria, país que o cofundador Rafael Lemos garante ter um grande consumo interno. “Começámos com três pessoas e hoje somos 14, incluindo as três que estão a trabalhar na Hungria”, esclarece. E quando questionado sobre qual a ambição da startup que ajuda a liderar, Rafael Lemos responde: “Gostava que fossemos dos maiores distribuidores de vinho no mundo.”

Captura de ecrã 2016-09-20, às 12.56.09

Página principal da garrafeira digital Vinha. DR

E voltemos à Vinha: volvido um ano, a garrafeira online conta com mais de 60 por cento das vendas fora de Portugal e, ao contrário do que inicialmente esperado, começou a ser procurada por pessoas mais entendidas em vinho — recorde-se que o motor de pesquisa da garrafeira está desenhado para facilitar a escolha dos vinhos, sendo possível selecioná-los por tipo, região ou estilo. “Isso fez-nos mudar um pouco a nossa oferta, mas continuamos a ter vinhos de gama média e não vendemos nada que seja mau”, garante Gonçalo Soares da Costa. E se no ano passado lançaram a versão inglesa da garrafeira, faz agora dois meses que há uma Vinha com domínio francês a circular na internet. Ao todo são 500 a 600 referências, apesar dos ajustes semanais, que querem ajudar a pôr o vinho português no mapa agora cada vez mais digital.

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