“As pessoas não precisam de uma terminologia tão complicada. Escolher vinho não é coisa para nos queimar a cabeça ou deixar-nos embaraçados.” A afirmação é de Gonçalo Soares da Costa que há um ano lançava a única garrafeira online a usar as pontuações da rede social Vivino — de lá para cá a Vinha cresceu, adaptou-se a mando do consumidor e continuou a saga de democratizar o vinho. Soares da Costa é um retalhista da era digital, que faz chegar o vinho português a quem se interessa por ele, seja dentro ou fora de fronteiras nacionais. Não está sozinho num barco que, pelos vistos, não vê terra à vista mas também não corre risco de se afundar.

Da vinha veio a uva que deu origem ao vinho. A história à volta do néctar de Baco continua a mesma, mas há novidades a acrescentar à linha de distribuição. O vinho já não está só na prateleira do hipermercado ou da garrafeira de muita estima, como também à distância de um clique — um clique para comprar, outro para vender.

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Vinho Bastardo da WWS. DR

Expliquemo-nos: a Wine With Spirit (WWS) surgiu há quatro anos com o mote de “engarrafar emoções”, isto é, apostada na produção de vinho próprio feito à medida das emoções de quem os procura. “Trabalhamos da prateleira para a adega e não da vinha para a mesa”, explica ao Observador João Pedro Montes, que defende que o vinho é diversão e não algo constrangedor, no sentido em que as pessoas não o escolhem com base na sua tecnicidade. Nem de propósito, na conversa com o fundador da WWS não entram termos como “barricas de carvalho francês” ou “estágio de 18 meses”, mas não é por isso que, garante o próprio, o vinho não tem qualidade. “Deixamos que sejam os críticos a testar a nossa qualidade”, diz, lembrando que nos últimos dois anos ganharam cerca de 30 prémios.

Serve a apresentação da WWS para destacar o novo passo da empresa: no início de 2016 lançaram a Lyfetaste para que, produzidos os vinhos irreverentes, não estivessem dependentes da distribuição clássica. Falamos de uma plataforma de distribuição digital inovadora, no sentido em que funciona como um franchising a nível micro, ao dar a possibilidade a todo e qualquer empreendedor de se tornar afiliado da WWS e, assim, ter uma loja de revenda dos vinhos da empresa.

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“Quando alguém investe para se tornar nosso afiliado recebe uma loja de portas abertas para a União Europeia. É um negócio próprio: potenciamos uma rede de distribuição associada a um produto que é bom. Entregamos uma loja costumizada e um back office em que a pessoa pode controlar tudo.”

O programa de afiliados — com preços entre os 75 e os 3.500 euros — é baseado num plano de compensação e de progressão com sistema de bónus compartilhado, sendo que a ideia é expandir a rede de distribuição e aumentar os ganhos. Além da possibilidade de ter uma loja online, a WWS aposta na formação contínua dos seus colaboradores. E será que isto tem pano para mangas? A Lyfetaste já chegou de forma orgânica a nove países e ainda na semana passada ultrapassou a barreira dos mil afiliados, sendo que a empresa prevê um crescimento exponencial de mais de 25 mil afiliados até ao final de 2017. “No próximo ano o nosso foco é a União Europeia e no final do ano vamos lançar a nossa flagstore, a nossa própria Starbucks”, garante João Pedro Montes.

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Pack de quatro vinhos da WIME. DR

Subscrever vinhos como quem subscreve newsletters

Se por um lado a WWS está apostada em vender os vinhos mais apropriados a determinados momentos e/ou emoções, por outro a WIME quer apenas ajudar o consumidor a escolher aquilo de que mais gosta, mesmo que ainda não o saiba. A startup viu a luz do dia em 2015, quando ainda se chamava O Meu Copo, também com a ideia de tornar o vinho mais acessível, tanto na escolha como na venda. A recém-batizada WIME, de Wine For Me, categoriza os vinhos por paladar — mais frutado, menos frutado, mais complexo e menos complexo — e vende subscrições de vinhos que lhe trazem até casa duas garrafas de vinho que variam de mês a mês, sempre recomendadas por Rodolfo Tristão, presidente da Associação dos Escanções de Portugal, para que possa ir desbravando o universo vinícola.

A WIME compromete-se ainda a enviar para qualquer lugar packs de quatro vinhos com um manual de prova e respetivas fichas de degustação, além de ter um espaço físico no CascaiShopping desde o início do verão. Atualmente a startup já opera na Hungria, país que o cofundador Rafael Lemos garante ter um grande consumo interno. “Começámos com três pessoas e hoje somos 14, incluindo as três que estão a trabalhar na Hungria”, esclarece. E quando questionado sobre qual a ambição da startup que ajuda a liderar, Rafael Lemos responde: “Gostava que fossemos dos maiores distribuidores de vinho no mundo.”

Captura de ecrã 2016-09-20, às 12.56.09

Página principal da garrafeira digital Vinha. DR

E voltemos à Vinha: volvido um ano, a garrafeira online conta com mais de 60 por cento das vendas fora de Portugal e, ao contrário do que inicialmente esperado, começou a ser procurada por pessoas mais entendidas em vinho — recorde-se que o motor de pesquisa da garrafeira está desenhado para facilitar a escolha dos vinhos, sendo possível selecioná-los por tipo, região ou estilo. “Isso fez-nos mudar um pouco a nossa oferta, mas continuamos a ter vinhos de gama média e não vendemos nada que seja mau”, garante Gonçalo Soares da Costa. E se no ano passado lançaram a versão inglesa da garrafeira, faz agora dois meses que há uma Vinha com domínio francês a circular na internet. Ao todo são 500 a 600 referências, apesar dos ajustes semanais, que querem ajudar a pôr o vinho português no mapa agora cada vez mais digital.