Uma pessoa acorda, veste-se e vai trabalhar (óbvio, faltam aqui partes fundamentais como tomar banho e sair de casa; quem não faz isso no seu perfeito juízo?). Durante a manhã, a cabeça é inundada por falta de pensamentos. Durante a tarde, nem se fala. Quer dizer, isto é a nossa cabeça num dia de semana sem competições europeias nem qualificação (insonsa) para o Mundial-2018. De repente, pliiiiiiiiiim. Basta ouvir quatro palavras mágicas: Barcelona, Atlético Madrid, hoje. Uh la la, é o suficiente. O coração acelera, a cabeça anda a mil. Uma quarta-feira do campeonato espanhol é, de loooonge, superior a uma de seleções e até está ao nível de uma da Liga dos Campeões. Afinal, é Barça-Atleti. O jogo por excelência em Espanha. Muy bien, o clássico Real-Barça faz sempre transbordar o copo da dicotomia regional e cultural, só que Barça-Atleti acumula mais emoção e, sobretudo, golos. É um cocktail explosivo.

Olhe lá aquele no dia 25 Agosto 1996, para a Supertaça espanhola. Faça você mesmo. Comece por fazer devagar e sozinho, longe dos olhares alheios. É uma tarefa complicada, não é? Sugere treino e mais treino. Então vá, força, pratique. Ou então fique sossegado e veja Ronaldo em ação, a fazer o elástico ao defesa esquerdo Geli. Nessa noite, em Montjuic (estádio olímpico que raramente recebe jogos dignos desse nome, só os do Espanyol), os espanhóis assistem ao primeiro desenho artístico do fenómeno. Com aqueles dentes saídos mais o ar despreocupado, como quem diz “hey, what’s up, doc?”, Ronaldo recria o elástico (vai para a direita e, afinal, corta para a esquerda, com a bola obediente e colada aos pés, em milésimos de segundo). Pobre Geli, pobre Atlético Madrid. Grande Barcelona, enorme Ronaldo, que oferece o golo a Ivan De la Peña. É o 4-2 e a confirmação da Supertaça espanhola para os catalães, o primeiro troféu da dupla Robson-Mourinho (seguir-se-iam Taça das Taças e Taça do Rei).

Olhe lá aquele da Taça do Rei a 12 Março 1997. Ao Barça basta-lhe um 0-0 para chegar às meias-finais. Ao intervalo, 0-3. Nessa noite mágica, os adeptos catalães emocionam-se como nunca. Nós, portugueses, também. A TVI transmite o jogo em direto – e em diferido no dia seguinte, como se fosse uma cerimónia dos Óscares. Se assim fosse, o melhor ator seria Milinko Pantic, autor de quatro golos. O melhor realizador, Figo – pela exibição monumental coroada com o golo da noite num sensacional remate fora da área. O melhor “filme”, Vítor Baía – sofre quatro golos de Pantic, dois deles com culpas, é assobiadíssimo e acaba por chorar compulsivamente mal o árbitro apita para o final, enquanto os companheiros festejam a qualificação, arrancada a ferros com um golo do suplente Pizzi, aos 82 minutos.

Olhe lá aquele da Liga a 4 Outubro 2008. Há memória de um jogo assim? Talvez não. Simão está lesionado e fora dos convocados de Aguirre. É a sua sorte, senão ainda hoje estaria

baralhado com o carrossel do Barça. Aos oito minutos já está 3-0 (Márquez, Eto’o e Messi). Aos 18, cinco-um (Maxi, Eto’o e Gudjohnsen). É o início da era Guardiola, com a sexta vitória em seis jornadas da Liga. Dos 75 232 espectadores, nem um adormece. Dos 3’ aos 18’ é proibido pestanejar, e até respirar. Messi baralha toda a gente. Sofre o penálti do 2-0, marca o 3-0 num livre directo (com o guarda-redes encostado a um poste a fazer a barreira) e falha o 7-1 por milímetros. Eto’o marca dois e só não celebra um hat-trick porque Coupet faz a defesa da noite. Xavi soma duas assistências (1-0 de Márquez e 4-1 de Eto’o) e é eleito o melhor em campo pelos quatro jornais desportivos espanhóis. Iniesta atira duas bolas ao poste. Em posse de bola, um “equilibrado” 60-40. Que festim.

Já chega, não? Quer dizer, há melhor? Barça e Atleti, os dois últimos campeões espanhóis. Está tudo dito. Ainda por cima, há uma série de encontros fratricidas entre os franceses Umtiti vs Griezmann, uruguaios Suárez vs Godín, argentinos Messi vs Gaitán, brasileiros Neymar vs Felipe Luis e espanhóis Iniesta vs Torres. Já agora, há portugueses metidos ao barulho? Olha m’este, que pergunta. Claro. É o André André. Não, não é esse do Porto. É o André Gomes, habitual suplente de algum baijito do meio-campo do Barça, e é o André Moreira, habitual suplente de Oblak no Atlético Madrid. Assim, o clássico ganha mais encanto ainda. Nada é deixado ao acaso. Aliás, um Barça-Atlético é portuguesíssimo. Cheio de golos nacionais.

Futre, por exemplo. Contratação de peso de Gil y Gil nas eleições de 1987. Consumada a vitória nas presidenciais, oferece ao portista um Porsche amarelo e estende-se a passadeira vermelha para seis épocas de intenso fulgor, com dois golos ao Barça, ambos no Vicente Calderón. Um a garantir a vitória (2-1) em outubro de 1990, outro com direito a expulsão (1-4) em Setembro de 1992.

Continuamos na letra éfe, de Figo. Àquele inesquecível pontapé à entrada da área, o do 4-3 a dar ares de reviravolta, o 7 ainda marca um golo no Vicente Calderón, em abril desse anos de 1998. Avançamos para o agá, de Hugo Leal. É o rei da eficácia. No único Atlético-Barça, um golo (3-0 para a primeira mão da meia-final da Taça). No mesmo dia em que Gil y Gil reassume a presidência, após ter sido afastado há seis meses para dar lugar a um administrador judicial, o Atlético de Antic joga com os suplentes e Hugo Leal fixa o 3-0 de cabeça. Para acabar, Simão. Pelo Barça, nenhum golo ao Atlético. Pelo Atlético, um golo ao Barça, de livre direto, em fevereiro de 2010. Ganha o Atlético (2-1), na primeira derrota de Pep Guardiola na Liga espanhola, à passagem da 21.ª jornada. O Atlético, esse, sobe ao 11.º lugar, a 28 pontos do líder. Pois é, Simão joga nos dois clubes. Como Schuster, Julio Salinas e Villa. Calma aí, ainda falta um: Jorge Mendonça.

Quem? Jorge Alberto Mendonça Paulino. Nasce em Luanda e chega a Lisboa em 1950, aos 11 anos de idade, na companhia dos pais e irmãos. “O meu pai João fundou a filial do Sporting em Luanda. Jogou e treinou lá. Por isso, queria jogar no Sporting. A maior ambição era jogar na equipa principal com os meus irmãos João e Fernando. Isso não aconteceu. Mesmo assim, passei lá bons tempos e fui campeão nacional de juniores, com Fernando Mendes e Bispo.” Daí, Jorge sai para o Alto Minho. “Como não havia lugar para mim no Sporting, tapado por Vasques e Travassos, fui para o Braga. No primeiro ano, subimos à 1.ª Divisão como segundos classificados da Zona Norte, atrás do Salgueiros e à frente do Vitória de Guimarães, por um ponto. No segundo ano, toda a família marca ao Porto.” Como é que é? “Fomos eliminados da Taça de Portugal, porque perdemos lá 3-0 e ganhámos 3-1 em Braga, mas a satisfação que nos deu marcar golos no mesmo jogo. Eu fiz o 1-0, alguém empatou, o João fez o 2-1 e o Fernando o 3-1 já muito perto do fim.” Antes, ligeiramente antes, a 3 novembro 1957, o Braga dá sete-secos ao Torreense. Na lista dos goleadores da tarde, o apelido Mendonça aparece quatro vezes. Fernando abre a conta, João aumenta e Jorge bisa. É caso único em Portugal (quiçá no Mundo): três irmãos marcam no mesmo jogo. Os outros três, a cargo de um tal Ferreirinha.

A fama da irmandade ultrapassa fronteiras. “Um empresário amigo da minha família convidou-me a mim e ao Fernando (só podia haver dois estrangeiros) para manter o Corunha na 2.ª Divisão.” Que tal? “Na estreia, em Vigo, fui expulso aos 24 minutos.” Assim, sem mais nem menos. “Como eu jogava com a bola colada aos pés, os defesas recorriam bastantes vezes à falta. E era normal que houvesse uma tendência para responder a uma ou outra entrada mais cruel. Nesse dia, foi particularmente chato pela quantidade de amigos de Braga no estádio. Alugaram quatro autocarros, veja lá bem. Quando o árbitro se dirigiu a mim e disse-me fuera, porque ainda não havia cartões, saí obviamente triste. Que injustiça! Então aquela gente toda de Braga estava ali e só joguei 24 minutos? Vi o resto do jogo na bancada, ao lado do meu pai, e ganhámos 1-0.” De resto? “Cumprimos. No total, seis jogos com cinco vitórias e um empate, em Ourense, onde fomos roubadíssimos: anularam-me um golo do meio-campo.”

A campanha é tão boa, tão boa, tão boa que vale a transferência para o Atlético Madrid. “Eles quiserem contratar-me e nem pensei duas vezes. A adaptação custou zero. Nada mesmo. Nos primeiros três jogos, três golos [um ao Valencia, outro ao Saragoça e mais um à Real Sociedad]. O quinteto atacante era Miguel, Vavá, eu, Peiró e Collar.” Mais-que-especiais, os dérbis. “Esse Real era um portento. Era a equipa de Di Stéfano, Puskas, Kopa, Gento. Gente que jogava de olhos fechados. O Di Stéfano, então, dominava a bola com todas as partes do corpo: cabeça, coxa, peito, pé direito, pé esquerdo, calcanhar direito, calcanhar esquerdo. Um fenómeno sem igual. A minha vingança terá sido na final da Taça do Rei em 1961. Ganhámos 3-2 no Chamartín. Na altura, as finais da taça eram na capital e era comum serem no estádio do Real Madrid. Dessa vez, foi assim e ganhámos.”

Com golo de Mendonça? Essa é boa, claaaaaro. “O 3-1. A alegria era tanta que saí coxo nos festejos do golo, a cambalear para o meio-campo. Outro dia especial com o Madrid foi em março de 1965, quando colocámos um ponto final na invencibilidade do Real Madrid em Chamartín. Eles não perdiam há 131 jogos. Desde 1957, antes de eu ter chegado a Madrid veja lá. Garanto-lhe, não fiz nada de jeito nesse jogo mas aquele remate de primeira saiu-me particularmente bem. Os adeptos do Atlético ficaram loucos, como deve imaginar. Foi um golo histórico.” Tudo no Atlético é histórico. Lá, Jorge Mendonça ganha um campeonato, três Taças do Rei e uma Taça das Taças. “Marquei um golo na finalíssima, à Fiorentina. Mas esse até nem foi o meu momento europeu mais glorioso no Atlético. Esse aconteceu em 1965-66, quando marquei três ao Dínamo Zagreb, no Metropolitano. A loucura foi tal que os adeptos invadiram o campo e levaram-me em ombros até aos balneários. E queriam levar-me a casa, que era ali perto do estádio.”

E o Barça? A ligação é especial, com seis golos em 13 jogos. No Verão de 1967, o inesperado. “Estava muito bem com a minha família quando o presidente Vicente Calderón chamou-me a casa dele. Fui lá, claro, e deparei-me com o presidente do Barça [Enric Llaudet]. Eles já tinham negociado e só faltava a minha assinatura. Na altura, estava lesionado e não foi uma negociação muito ética. Para cúmulo, o primeiro jogo do campeonato foi com o Atlético, em Madrid. Fui apelidado de tudo e mais alguma coisa. Traidor e essas coisas.” No Barça, o avançado ganha outra Taça do Rei ao Real Madrid e ainda faz outra final europeia, então a da Taça das Taças, perdida para o Slovan Bratislava. “Uma final raríssima. Jogámos muito melhor, criámos mais ocasiões de golo, só que sofrer o 1-0 aos 30 segundos abalou-nos e não mais nos recompusemos. Entrei ao intervalo, porque vinha de lesão, e foi o meu último jogo pelo Barça, onde ganhei aquela Taça do Real Madrid num outro jogo feio. Pura e simplesmente, não se jogou futebol. Os adeptos andavam nervosos e aquilo ficou conhecido como a final dos botellazos, porque o relvado encheu-se de garrafas e mais garrafas. Não se podia andar ali e nem pudemos fazer a festa do título. Um dos nossos [Zazalba] foi atingido por uma garrafa que lhe abriu a cabeça. Uma final triste, com um final feliz. Ganhámos. E no Vicente Calderón, espécie de segunda casa para mim.” Uma casa portuguesa, com certeza.