A EA Sports (que desenvolve o videojogo FIFA) não teria tanto trabalho assim:

A Islândia só tem 332.529 habitantes. Desses, 165.529 são mulheres – e, portanto, não elegíveis (que me perdoem as feministas islandesas) para uma convocatória que se quer masculina. Entre homens, 40.546 tem menos de 18 anos e 82.313 mais de 35. Os primeiros são demasiado novos, os segundos “entradotes” demais. E nem todos são futebolistas, claro. Quem não é por certo futebolista é a população islandesa que sofre de obesidade: 22.136 habitantes ao todo. Mas vamos continuar a subtrair: 1.246 islandeses trabalham na indústria do turismo, fazendo maioritariamente de guias na observação de baleias. 314 são sismólogos e 164 vulcanólogos. 1,934 pastoreiam ovelhas. 1.464 tosquiam-nas. 23 são banqueiros – e estão na prisão, pois claro. 194 são cegos. 7.564 são doentes. 564 trabalham nos cuidados a esses doentes em hospitais, são polícias ou bombeiros. 8.781 estiveram em França e no Euro 2016, mas nas bancadas, como adeptos. Também Euro 2016 estiveram um médico, um fisioterapeuta, um massagista, um “aguadeiro” e sete dirigentes, todos islandeses. Contas feitas — e brincadeira à parte –, “restam” 23 homens. Ou seja, 23 carinhas larocas teriam de ser criadas pela EA Sports para o FIFA 17. Mais dois equipamentos: o azul caseiro e o branco de visitante.

Mas a Islândia não vai mesmo figurar no FIFA 17. A mesma Islândia que surpreendentemente se apurou (pela primeira vez na história) para a fase final de uma competição futebolística, e mais surpreendentemente foi segunda no Grupo F (a Hungria foi primeira e Portugal terceiro) e eliminou a todo-poderosa Inglaterra nos oitavos de final — sendo derrotada apenas nos “quartos” pela finalista e organizadora França. A mesma Islândia que é hoje 27ª classificada no ranking das melhores seleções do mundo não vai figurar no FIFA 17. E será a única seleção presente na fase final do Euro 2016 a não figurar.

Culpe-se o dinheiro. Ou a falta dele. A EA Sports ofereceu “apenas” 15 mil euros pelos direitos de imagem da seleção islandesa. E o presidente da federação de futebol [KSI] daquele país não aceitou o valor. E escreveu esta quarta-feira: “Eles [EA Sports] estão a comprar-nos estes direitos e querem-nos quase de graça. O nosso desempenho no Euro 2016 mostrou que nós até somos uma boa equipa e que muitos gostariam de jogar com ela. É triste para os jogadores não estar presentes, mas as críticas devem ser apontadas à EA Sports.” A empresa que desenvolve o videojogo ainda não se pronunciou, mas as negociações dificilmente chegarão a bom porto. “Eu sinto realmente que se estivermos a dar os nossos direitos de imagens, as negociações tem que existir e o que se paga tem que ser justo. Não sinto que tenham sido feitas [as negociações] de uma forma aberta e justa”, atirou Geir Thorsteinsson, líder da KSI.

Os habitantes de Reiquiavique saíram à rua, em festa, naquele domingo, 6 de setembro. A Islândia havia-se apurado para o Euro 2016. E nesse mesmo domingo a Federação Islandesa de Futebol, no Twitter, e logo após o empate no Cazaquistão que garantiu o apuramento para o Euro ’16, publicou a seguinte mensagem: “Não é hora da Islândia finalmente ser uma equipa no FIFA? Se não agora, quando?” Pelo vistos, ainda será para já.