O secretário-geral do Sistema de Informações da República Portuguesa (SIRP) garante que a fuga de informação de dezenas de documentos confidenciais, detetados num país da África Ocidental e que estariam nas mãos de um cidadão de leste, não é da responsabilidade dos serviços secretos portugueses. Investigação para apurar responsabilidades está em curso.

Em declarações ao Diário de Notícias, Júlio Pereira deixa claro que “no que se refere aos serviços de informações não houve qualquer quebra de segurança documental”. O chefe das “secretas” portuguesas garante ainda que “está a tentar apurar-se, através dos elementos de securização dos documentos em causa, onde e quem os terá subtraído ou ilegalmente reproduzido”.

Como avançou o Observador esta tarde, dezenas de documentos confidenciais, entre eles relatórios do Serviço de Informações de Segurança (SIS), da GNR e da PSP, apareceram num país da África Ocidental, alegadamente nas mãos de um cidadão descrito como sendo de leste. Uma fuga de informação que pode, em última análise, colocar em causa a segurança nacional e internacional.

De acordo com o Diário de Notícias, apesar de a fuga de informação ter ocorrido em março de 2016, os serviços secretos portugueses não reportaram o caso a nenhuma das autoridades visadas — PSP e GNR. Ora, segundo o mesmo jornal, tal pode significar que as secretas portuguesas alimentam dúvidas em relação à origem da fuga da informação, com elementos da PSP e da GNR no centro das suspeitas — entidades que também tiveram acesso aos documentos.

Como dava conta o Observador, entre as dezenas de documentos que caíram nas mãos erradas, haverá um relatório do SIS sobre a estratégia do grupo Hell’s Angels (um grupo de motociclistas que nasceu nos EUA e que as autoridades associam a um movimento de grande violência, com ligações criminosas) em Portugal.

O documento, concluído em dezembro de 2011, descreve as relações dos Hell’s Angels com grupos motards em Portugal e traça as ligações de alguns dos seus elementos a alegados crimes de tráfico de droga, armas, extorsão e lenocínio, com fotografias de alguns dos seus elementos. Haverá ainda um relatório, feito seis meses depois, que atualiza essa informação e alegadamente dispõe de uma série de nomes e moradas de cada um dos elementos referenciados no grupo. E este está longe de ser o único documento confidencial exposto nesta fuga de informação.

Segundo conseguiu apurar o Observador, apesar de confidencial o documento produzido pelo SIS foi distribuído aos chefes de gabinete do primeiro-ministro, do secretário-geral do Sistema de Informações da República Portuguesa e do Sistema de Segurança Interna e também ao chefe de gabinete do Ministério da Justiça de então. Foi ainda enviada uma cópia aos responsáveis pelo SIS, pela PJ, pela GNR e pela PSP, assim como ao chefe da Casa Civil do Presidente da República.

Em declarações ao Observador, Rui Pereira, antigo diretor do SIS, traçou todos os cenários possíveis. “A quebra de segurança pode ter-se verificado num dos destinatários dos documentos, que poderão tê-los encaminhado para um destinatário que não era admissível. Pode, também, eventualmente, haver uma manobra de espionagem de outro país. Os serviços de informações de outros países podem ter obtido essa informação”.

Detetada a fuga de informação, o Serviço de Informações Estratégicas de Defesa (SIED), dirigido por José Casimiro Morgado, terá sido imediatamente contactado. Elementos do SIED ter-se-ão deslocado de Lisboa a África para apreender os documentos e tentar perceber se tinham sido, de alguma forma, replicados.