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Esta foi uma semana de sentimentos contraditórios. Por um lado, passámos pelos ambientes mais exóticos até aqui, tanto ao nível dos povos como das paisagens, e celebrámos a vida de metade do nosso quarteto. Por outro, tivemos de fazer um desvio de rota, saltando a Bolívia, e apanhámos dois sustos que podiam ter sido bem piores. Mas vamos por partes.

Depois do ponto alto que foi Machu Picchu, tínhamos logo a seguir outro pico de interesse no Peru: as Ilhas dos Uros, no mítico Lago Titicaca. Existem várias ilhas a visitar no lago, mas, por economia de tempo, tinha escolhido estas por serem as mais originais, construídas sobre uma espécie de palha (totora). A visita não desiludiu, sobretudo as crianças (aos adultos, talvez nos tenha parecido demasiado “para turista”), e até tivemos direito a um passeio nos barcos típicos dos Uros, também de palha. Até aqui a coisa parecia um pouco postiça: o barco de palha era literalmente empurrado por uma lancha a motor.

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Foi aqui que surgiu o problema maior. Já tinha contado que os meus sogros tinham vindo passar connosco um par de semanas. E estava a ser ótimo, sobretudo para as crianças, que há muito não viam caras familiares que não os pais. Mas o mal da altitude, que já tinha atormentado a minha sogra em Cusco (a 3.600 metros), atacou-a com muito mais força no Lago Titicaca (que chega aos quatro mil), obrigando a uma visita de emergência ao hospital público de Puno, um lugar com condições de higiene sofríveis e cheio de senhoras de tranças e trajes típicos (uma experiência imersiva, como agora se diz). Sabíamos à partida que a altitude podia afetar qualquer de nós e era impossível prever como cada um reagiria, até lá chegarmos, mas não esperávamos ver sintomas tão fortes, que nos assustaram a sério.

Estava combinado que nos separaríamos por uns dias: nós continuávamos para a Bolívia, onde o percurso subia até aos cinco mil metros, e os sogros contornavam pelo litoral. Mas, com um quadro clínico que exigia vigilância, a Maria, que ainda para mais é enfermeira, não quis deixar os pais seguirem sozinhos e lá fomos nós também.

Eu sabia que era a decisão certa a tomar. A saúde e a união da família acima de tudo. E “se fosse a tua mãe, tu farias o mesmo”. Sabia-o bem. Mas a minha veia quadriculada de menino mimado (sou o benjamim, isso explica muito) não me tirava da cabeça o Excel do percurso previsto, que me tinha levado um ano a estudar minuciosamente, as paisagens de vulcões e lagoas coloridas que já não íamos ver, e as divertidas fotografias em perspetiva no Salar de Uyuni que já não íamos tirar. E o engraçado é que nem tinha sido por causa dos miúdos, como acharíamos mais provável.

Entrei em negação (eufemismo para amuo) nos poucos dias em que percorremos Arequipa, a segunda maior cidade do Peru, Tacna e Arica, a primeira cidade no norte do Chile. Tudo me parecia aborrecido, desde as cidades em si até à escolha de hotéis e a ementa dos restaurantes, ao ponto de perder o apetite (algo para lá de estranho em mim). Cheguei até a ser indelicado um par de vezes, e a levar cartão amarelo da digníssima esposa. Pensava que por algum motivo não fazia férias com os meus pais e irmãos (a bem da nossa relação) desde os 18 anos, e em como tinha ficado aliviado quando os nossos melhores amigos não morderam o isco do nosso desafio a virem ter connosco. Como nos solteiros de longa data, também numa viagem uma pessoa habitua-se a fazer as coisas à sua maneira e a adaptação a novas companhias custa sempre. E eu até tenho uma excelente relação com os meus sogros! Ou tinha, até lerem esta crónica…

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Ao chegar a uma destas cidades, esqueci-me da minha mochila no táxi, quando vínhamos do terminal de autocarros às quatro da manhã. Ficar sem o portátil e os passaportes, entre outras coisas menores, seria muito mais grave do que qualquer desvio na rota. No hotel, não nos deram qualquer esperança: “Era um táxi dos oficiais, que estão dentro do terminal?” E nós, que tínhamos ido mais longe para poupar 50 cêntimos: “Não, era da rua.” “Então esqueçam, nunca vai voltar”, garantiram. Mas o taxista voltou umas horas depois, devolveu a mochila e pedinchou uma recompensa. Só horas depois vimos que o bandido nos tinha ficado com a máquina fotográfica e uns carregadores, mas o essencial tinha voltado.

Em San Pedro de Atacama, retomámos o programa previsto e regressou a boa disposição. A vila turística é um oásis no meio do deserto, com um horizonte de vulcões (perfeitinhos, como nos desenhos) e vários passeios para fazer. Um deles fez-nos sair de madrugada para ver géiseres em atividade, e chegámos a essa zona com 17 graus negativos. Vimos animais pela primeira vez (vicunhas e viscachas, por exemplo), visitámos a aldeia de Machuca, com apenas sete habitantes, comemos espetada de lama e vimos o pôr-do-sol nas dunas do Valle de la à base de Luna.

E foi aqui que festejámos o aniversário das nossas duas meninas. Há cinco anos, a Luísa teve a pontaria de nascer no dia de anos da mãe, e a partir daí a festa passou a ser dupla. A avó tratou da decoração (à base de Frozen, claro está) e do bolo, e a festejada mais nova estava radiante. E, no último dia em que tínhamos o apoio dos avós, ainda deu para ir jantar a dois com a Maria, pela primeira vez na viagem — quem disse que não era bom ter ajuda?

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Vamos agora para sul, pela costa do Chile, até Santiago. Pode ir seguindo também a nossa viagem no blogue O Verbo Ir, no Facebook e no Instagram.