Este ano, o FOLIO — Festival Literário Internacional de Óbidos faz-se também fora das muralhas da vila histórica. Uma parceria firmada entre a organização do evento e a CP vai permitir que o festival comece todos os dias na plataforma da Estação do Rossio, em Lisboa. É daí que parte o Comboio Literário, às 10h25 e 17h55, com uma programação especial que inclui exposições, workshops, livros e poesia. A viagem inaugural aconteceu esta quinta-feira, mas sem direito a animação especial. Os jornalistas presentes tiveram de se contentar com uma queijada de feijão e uma paisagem de fazer parar a respiração.

Há muito que a Linha do Oeste, que liga Lisboa à Figueira da Foz, perdeu o encanto de outros tempos. Muitas das estações forradas azulejos costumam estar paradas e Óbidos não é exceção. É, por isso, que fazer o caminho até ao FOLIO a partir do Rossio é um privilégio. Mas a viagem faz-se devagar devagarinho, com muitos solavancos pelo meio. Que o diga João Luís, o maquinista escolhido para a primeira travessia do Comboio Literário.

folio, Festival Internacional Literário de Óbidos,

João Luís foi o condutor do primeiro Comboio Literário

Apesar de o transporte funcionar durante todo o festival, João só terá direito a conduzir a locomotiva uma vez, durante a viagem inaugural. Quando lhe perguntámos porque é que foi o escolhido, encolheu os ombros: “Talvez seja porque tenho família em Óbidos”. Os 23 anos que têm de experiência não tiveram, aparentemente, nada a ver com a decisão. A estação final é a da vila literária, mas o comboio segue até as Caldas da Rainha, para abastecer e para fazer “inversão de marcha”, para poder depois voltar a Lisboa.

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Enquanto ia explicando o funcionamento do comboio, João não conseguia evitar tecer longos elogios à paisagem, “bonita”, assim como o comboio. Às anotações num pequeno papel quadrado, seguiam-se apitadelas para avisar os condutores mais distraídos junto aos cruzamentos. Perto da linha, iam surgindo pessoas, caminhando distraídas. “Aquele anda aos caracóis”, atirou João, apontando para um homem de saco de plástico na mão que seguia rente ao troço, anunciando logo de seguida com toda a pompa e circunstância que “acabámos de atingir a velocidade máxima”. O Comboio Literário ia a 100 quilómetros por hora.

Levar o festival para fora das muralhas

De Óbidos a Lisboa são cerca de 87 quilómetros, o que equivale a mais de hora e meia de viagem. O comboio parte da vila para a capital em dois horários, às 15h17 e à 00h35, permitindo que os visitantes que queiram ficar até mais tarde possam voltar a casa com todo o conforto, sem se preocuparem com o carro ou com o estacionamento. E só isso faz a viagem valer a pena. Para o presidente da Câmara Municipal de Óbidos, Humberto da Silva Marques, trata-se de “uma ideia brilhante“.

“Foi uma ideia que tivemos desde a primeira hora e tivemos a aderência imediata da CP. Acho que foi uma ideia brilhante por duas razões: estas populações anseiam há muito — há décadas — com uma reestruturação da Linha do Oeste porque, se queremos atrair mais investimento económico, precisamos dela e, em segundo lugar, porque quisemos que as pessoas que nos visitam não se preocupasse com o estacionamento e com o carro.” Além disso, a organização queria que o festival saísse de Óbidos, expandindo-se para lá das muralhas até Lisboa.

Queríamos que “este festival passasse de uma dimensão localizada para uma localização mais atomizada”, disse Humberto Marques. “Creio que foi feliz. Fizemos uma viagem maravilhosa e creio que, a partir de hoje, ainda será mais agradável com a introdução de livros dentro do comboio. Vamos perder a noção do tempo com essa possibilidade de começar a ‘literar’ logo dentro do comboio.”

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O comboio sai todos os dias da Estação do Rossio, em Lisboa

Além da afirmação de Óbidos enquanto vila literária, uma das grandes vantagens do FOLIO é o seu contributo para a economia local. “Algumas unidades hoteleiras ainda ontem me falaram numa taxa de ocupação de 88%“, afirmou o presidente da câmara. “Isso simboliza bem o impacto do ponto de vista económico.” E isso é só a influência indireta que tem o festival. “De uma forma indireta, temos público nacional e internacional a visitar Óbidos que são agentes económicos e que podem fazer outcoming ou incoming de negócios em diferentes áreas.” Mas não só.

“Trata-se de uma afirmação da marca Óbidos num contexto internacional. A UNESCO criou a chancela de cidade criativa da literatura o que nos abriu portas e nos permitiu estar em reunião com vários parceiros mundiais e com os quais estamos a trabalhar para a programação do próximo ano.”

José Manuel Diogo, diretor de comunicação do festival literário, também salientou essa capacidade que o FOLIO tem de “dinamizar economicamente de uma forma extraordinária uma região que tem muito turismo, mas poucos viajantes”. “Óbidos recebe mais de um milhão e meio de pessoas por ano que param uma hora. É importante que as pessoas vão a Óbidos sem ser para ver o pitoresco de Óbidos.” Um objetivo que se torna cada vez mais fácil de concretizar graças à distinção de vila literária, atribuída pela UNESCO em 2015. “Põe Óbidos no topo”, frisou o diretor de comunicação. “Há 17 lugares que podem ostentar isto, e Óbidos é único em Portugal.”

Mas a singularidade da vila não se resume ao título atribuído nem às 13 livrarias que abriram nos últimos anos. É que Óbidos é por si só “uma ficção”. “Com aquela muralha que nunca foi assim na Idade Média, que foi trabalhada pelo Estado Novo e que depois deu uma vila medieval onde tudo e medieval”, explicou José Manuel Diogo. “Mas a vila nunca foi tão antiga como e hoje. E isso é uma ficção — ela é mais antiga no futuro do que foi no passado.” E isso também faz parte da magia.

Oeste CIM quer linha requalificada até 2020 com partida no Rossio

Além de ser uma forma diferente e alternativa de viajar até ao festival literário de Óbidos, o Comboio Literário tem outro objetivo — chamar a atenção para uma linha que está “obsoleta e que precisa mesmo de ser requalificada”. “Nos sentimos os balanços, a lentidão. E se queremos dinamizar a região oeste e queremos trazer mais gente, a ferrovia tem de ser uma alternativa à rodovia — ao carro, ao autocarro”, referiu Pedro Folgado, presidente da Oeste CIM aos jornalistas. “A linha tem mesmo de ser requalificada.”

Nesse sentido, Pedro Folgado acredita que o comboio especialmente criado para o FOLIO poderá servir como “um reforço positivo para que o Governo equacione definitivamente a requalificação da Linha do Oeste”, o que deverá acontecer até 2020. “Temos a promessa do Governo, que está a pensar, que está a estudar como requalificá-la e, pelo menos, até às Caldas da Rainha a linha será requalificada até 2020.” Porém, para a Oeste CIM, o ideal seria que o troço continuasse até Alcobaça, mas há quem queira que vá até mais longe.

“Sei que os colegas da zona do norte gostavam que fosse ate à Figueira da Foz. Isto seria o ideal. Sabemos que Lisboa recebe muitos turistas e ficaríamos com uma linha capaz para que os turistas pudessem fazer a viagem, com conforto, admirando a paisagem, até à Figueira da Foz.”

Além disso, está também a ser estudada a possibilidade de a linha vir a começar “definitivamente no Rossio, para que os turistas que estão no centro de Lisboa possam rapidamente deslocar-se de um lado para o outro”. “Penso que não vai haver nenhum problema, considerando que está orçamentado”, disse o diretor da CIM, frisando que “urge a sua requalificação”.

A estação de Óbidos é uma das muitas da Linha Oeste que, geralmente, não funciona

Ainda não existe orçamento para a obra, porque “os números ainda não estão em cima da mesa”, mas a CIM já pediu uma nova reunião com a Infraestruturas de Portugal (IP). “Estivemos reunidos com a IP e vamos reunir novamente, considerando que mudou o novo diretor e para fazermos um ponto da situação. Perceber como é que o projeto está. Temos de ir monitorizando, acompanhando, para perceber se realmente não um esquecimento do projeto.”

Para além do encontro com a nova direção da IP, ainda sem data marcada, a CIM tem também agendada uma reunião com o Ministro do Ambiente, onde será discutida a utilização dos fundos comunitários.