Teimoso. Regra geral, é a resposta disparatada à pergunta “qual é o seu pior defeito?” Ou se é teimoso ou então gastador. Hoje, entrámos nessa onda. Vamos ser teimosos e gastadores. Dois-em-um. Teimosos porque teimamos em apresentar um homem que dispensa apresentações. E gastadores porque gastamos duas horas e picos a falar com ele por telemóvel.

Manuel José, 70 anos de idade. Na estreia como jogador de 1.ª divisão (Benfica 1968), faz-se campeão nacional. Na estreia como treinador (Espinho 1978), marca um golo de livre direto. Na estreia como treinador no estrangeiro (Al Ahly-2001), ganha 1-0 ao Real Madrid. Manuel José, algarvio de gema, natural de Vila Real de Santo António. É o responsável pela única participação europeia do Portimonense (1985). É o responsável pelos 7-1 no dérbi lisboeta (Sporting-Benfica 1986). É o responsável pelo quinto lugar da União Leiria, à frente do Benfica (2001). É o responsável pelos 6-1 no dérbi do Cairo (Al Ahly-Zamalek 2002). E é o responsável pela primeira vitória do Boavista na casa do Porto. É o mote para a primeira parte da entrevista.

Estou?

Boa tarde, é o Manuel José?
Sou, sim.

É o Rui Miguel Tovar, do Observador. Tudo bem?
Òòòò Rui, tudo bem? [parêntesis reto, porque os curvos já estão démodè, para explicar esta série de ós: a única vez que vi as pirâmides de Gizé foi com Manuel José ao lado; a única vez que toco na taça da Liga dos Campeões Africanos, é com Manuel José ao lado; a única vez que fujo a sete pés de uma multidão eufórica, no meio das pirâmides de Gizé e com a taça da Liga dos Campeões Africanos na mão, é com Manuel José; tudo isto em 2006]

Tudo bem, obrigado. Posso roubar 15 minutos ao Manuel José?
Claro.

É a propósito do dérbi portuense. O Manuel José foi o primeiro treinador do Boavista a ganhar na casa do Porto, para a 1.ª mão da Supertaça.
Esse jogo tem uma história curiosa.

Já imaginava.
Estávamos no inverno de 1992 e chovia que se fartava. O Porto ia fazer três jogos nessa semana. Se não me engano, ia a Guimarães, depois à Suécia para a Liga dos Campeões e só então jogava em casa, connosco. Vi esse calendário e pensei numa tática para ganhar nas Antas.

Qual era?
Mandava Marlon e Artur para o banco.

Xiiiiiii. Quem joga então?
O Ricky, sozinho na frente. Eu sabia que o Porto vinha cansado. Pela qualidade dos adversários, pelo esforço das viagens e também pelos relvados mal tratados, ora pelas chuvas, em Guimarães, ora pela neve, em Gotemburgo. Quando chegasse a nossa vez, eles estariam mais cansados que nós e devíamos aproveitar, embora o árbitro fosse o João Mesquita.

Então?
Aaaah, íamos jogar contra 12. Ou melhor, 14 porque os fiscais-de-linha também contam. Já se sabia que o mar corria sempre para o mesmo lado.

Isso é assim?
[Manuel José solta aquela gargalhada rouca, num jeito muito seu] Era assim mesmo. Só para veres, o João Mesquita mostrou um amarelo ao Marlon e outro ao Artur, com eles no banco [outra gargalhada]. Foi perto do intervalo, depois do 1-0 do Kostadinov. No balneário, aquilo era uma gritaria danada, os jogadores estavam histéricos. Dei dois berros e disse-lhes ‘amigos, estamos a fazer o jogo deles, vamos lá acalmar e assentar ideias; nos primeiros 15 minutos da segunda parte, o marlon e o artur vão aquecer e vocês não podem sofrer mais nenhum golo; quando os soltar, é para ganhar’.

E depois?
O Kostadinov tem uma oportunidade para marcar. Nem me lembro se falhou ou se o Alfredo defendeu. Com Marlon e Artur em campo, jogámos em 3-4-3 e aquilo saiu direitinho. O Marlon marca o golo do empate, o Artur o da vitória.

Eis a primeira vitória na casa do Porto.
Calma, ainda falta a segunda mão, no Bessa.

Então?
Estamos a perder 2-0 perto do fim quando meto um miúdo dos juniores, de 18 anos. O Bambo. Ele entra e vai-se a eles sem medo nenhum. Nenhum mesmo. Aquilo foi heróico. E olha que os centrais deles eram o Fernando Couto e o Jorge Costa, tanto campeões da bola como campeões do mau feitio. O Bambo não se intimidou minimamente e incomodou-os para burro. Ainda não se falava em pressing e nós encostámos o Porto à sua área durante 15 minutos. O Tavares reduziu [79’], o Marlon empatou [81’]. Ganhámos a Supertaça.

No ano anterior, o Boavista já tinha ganho a Taça de Portugal ao Porto.
Dois-um no Jamor. Nesse jogo, meceremos a vitória de longe. Fomos a ganhar para o intervalo, com um golo do Marlon. Na segunda parte, eles marcam pelo Jaime Magalhães e nós reagimos logo, pelo Ricky.

Aí ainda com João Pinto.
Sim, ele foi para o Benfica nesse verão.

E quem foi para o Boavista?
Pedi ao Valentim o Sánchez e o Rui Bento.

Essa equipa do Boavista é o Boavistão.
[sai outra gargalhada rouca] Pffff, os recursos eram fantásticos. Não me lembro de nenhuma outra equipa ter ganho tanto aos grandes como nós. Nem o Braga de hoje, nem o Vitória de Guimarães de ontem ou o Belenenses de anteontem. Ganhámos vezes e vezes aos grandes.

Além dessas duas vitórias ao Porto?
Nunca mais me esqueço do 1-0 na Luz, ao Benfica de Eriksson, com um golo do Casaca, na primeira jornada do campeonato. E depois eliminámos o Inter, então detentor da Taça UEFA.

O Boavista das camisolas esquisitas.
Não sei quem o disse, mas aquilo ficou conhecido mundialmente. Cá, ganhámos 2-1 e podia ter sido quatro ou cinco. Lá, fizemos uma exibição de alto nível e 0-0. Com umas artimanhas pelo meio. Mas agora não dá tempo.

Só uma artimanha então.
Bem, em Milão, havia uma sala de aquecimento para as equipas. Antes do jogo, o Facchetti, então director-desportivo e depois presidente, disse-me que a sala estava à nossa disposição. Respondi-lhe que queria ir para o relvado. Ele ficou espantado e contra-atacou a dizer que ia fazer queixa ao árbitro. ‘Podes fazer o que quiseres, eu vou para o relvado’. Para quê?

Sim, para quê?
Para levar com os assobios no aquecimento e não no início do jogo. Foi o que aconteceu. Fomo-nos aquecer no relvado e ouvimos de tudo. Quando entrámos em San Siro, devidamente equipados, já fomos mais relaxados.

E a outra artimanha?
Só mais esta. Ao intervalo, 0-0. Soubemos que o presidente deles [MassimoMoratti] tinha ido ao balneário do árbitro, um inglês qualquer. Bem, disse aos meus jogadores para defender longe da área, sem tackles nem nada. Dito e feito. O Inter não nos importunou por aí além e passámos a jogar 3-4-3 em Milão.

3-4-3, outra vez?
Sim senhor. Lá na frente, dois baixinhos rápidos, Coelho e Marlon Brandão, e um génio, João Pinto. No banco, Ricky.

Lá está, esse Boavista é memorável.
Lembro-me perfeitamente do Valentim dizer-me para ganhar em casa e pontuar fora no campeonato. E eu respondi-lhe que não, que era para ganhar sempre. Ele deve ter julgado que eu era maluco ou assim. A verdade é que o Boavista tinha uma equipa sensacional. Jogávamos em 3-4-3, com bons jogadores talentosos e quase sempre ao primeiro/segundo toque. A filosofia é sempre a mesma. Daí que diga insistentemente que o Jesus é um óptimo treinador, que vai deixar marcar. As equipas dele são de autor. Ele é que as faz. Bem sei que lhe dou umas caneladas na televisão e isso é por culpa do ego patológico dele. De resto, é um treinador bom, bom, bom, bom mas bom mesmo. Os jogadores dão sempre mais do que podem e os resultados aparecem. Isso é obra do treinador. O Jesus é daqueles treinadores para a história do nosso futebol.

Há pouco, falou-me do Eriksson.
Por exemplo. Era um homem calmo, tranquilo. Deixou obra feita porque o Benfica começou a jogar olhos nos olhos com toda a gente. Tanto cá, em Portugal, como lá fora. Tanto assim que foi à final da Taça UEFA 1983. E depois à da Taça dos Campeões 1990.

E o Otto Glória, que profissionalizou o futebol do Benfica em 1954?
Outro exemplo. Era um senhor simpático, com um discurso açucarado. O que nós queríamos ouvir, ele dizia-nos. Brasileiro, claro está.

Conhece-o pessolamente?
Se o conheço? Essa é boa, ele lançou-me no Benfica.

Uyyyyyy.
Cheguei ao Benfica em 1962, para os juniores. O treinador era o Fernando Cabrita e eu jogava a extremo-esquerdo. Nos juniores, marquei um golo ao Sporting, com um chapéu ao Damas quase do meio-campo. Na época 1968-69, sagrei-me campeão nacional, com um jogo apenas.

Hã, campeão?
Isso mesmo. Num jogo com a Académica. Nesses tempos, a Académica era a equipa que levava mais adeptos à Luz, excepção feita a Sporting e FC Porto. Substituí o Simões aos 70 minutos, com o resultado em 2-1 para eles. O campo estava enlameado e eu nem cheirei a bola. Joguei mesmo mal. Devo ter sido assobiado pelo público, mas disso nem me lembro. Quem nos salvou foi o Praia, autor dos dois golos da reviravolta, o último deles em cima dos 90 minutos. Magrinho e levezinho, ele corria por ali fora e passava por cima deles com uma facilidade.

E guarda a medalha de campeão?
Qual quê. Sagrámo-nos campeões nacional na última jornada, em Tomar [4-0], e alguns dias depois telefonaram-me para o quartel de Queluz, onde fazia a tropa, para ir receber a medalha de campeão numa cerimónia organizada pelo Benfica, mas não fui. Achei que não merecia. Então, joguei 19 minutos, e mal, e ia receber a medalha? Não, aquilo não era para mim.

E depois?
No final da época, saí do Benfica porque eram sempre os mesmos que jogavam e eu estava cansado de ficar de fora, embora estivesse consciente do valor de todo aquele plantel com Eusébio, José Augusto, Simões… Queria era jogar. E não me bastava representar o Benfica nas reservas, na Taça de Honra e em outras provas.

Foi para onde?
Ainda me lembro do director desportivo, uma glória chamada Francisco Calado [capitão do Benfica nos anos 50], pedir-me para não sair porque ia ter as minhas oportunidades na equipa principal. Preferi ir para o União de Tomar. Nesse ano, Humberto, Vítor Martins e Nené subiram à equipa principal e começaram a jogar. Sabe uma coisa: só comecei a levar a sério o futebol aos 27 anos. Antes disso, era uma brincadeira. Depois disso, e até aos 34 anos, dei tudo o que tinha e mais alguma coisa, mas já não merecia mais créditos e tive azar.

Azar, como?
Segunda-feira, Agosto 1973: um BMW parou à frente da oficina de carros que eu e o meu irmão partilhávamos, abriu-se a porta e saiu um dirigente do Sporting que me queria levar imediatamente para Lisboa, dois dias depois de me ter estreado pelo Farense, num sábado à noite, para a Taça de Honra de Faro. Eu queria ir mas, quando estávamos a caminho da casa do presidente do Farense, que era na mesma rua da minha oficina, lembrei-me que já tinha jogado pelo Farense, pelo que era impossível representar o Sporting nessa mesma época, como era desejo do treinador Mário Lino. Um ano depois, foi o FC Porto que se mostrou interessado, mas aí meteu-se o 25 de Abril e foi uma confusão tremenda. Optei por ficar no Farense. Em 1975, com o ambiente mais calmo, o FC Porto voltou a oferecer-me contrato, mas o Mário Lino, que estava a treinar o Farense depois de se sagrar campeão pelo Sporting, não me deixou sair de Faro. Sabe de quem é a culpa?

Nem ideia.
A culpa disto tudo é do meu irmão. Ele é que me convenceu a ser treinador. Eu queria lá ser treinador. Jogava futebol e estava bom. Quem me dera ter o mesmo sucesso como jogador do que como treinador.

O seu primeiro clube é o Espinho, certo?
Sim, e mais uma vez a culpa é do irmão. Telefonei-lhe a dizer que o presidente do Espinho queria-me como treinador e ele convenceu-me a aceitar. A negociação teve até piada.

Conte lá.
O presidente Carlos Cabral disse-me que eu ia ganhar o ordenado de jogador mais 4.500 escudos. Devo ter sido o treinador mais mal pago da 2ª divisão. De sempre [gargalhadas roucas, parte 3]. Ai ai

Pronto, e o Manuel José é o único treinador-jogador com um golo na estreia.
A sério? Quando?

Aliados do Lordelo.
Aiiiii. Sabe quem jogava aí?

Quem?
O Jaime Pacheco, com 18 aninhos prá aí. Ele é que me falou desse golo, uma vez. Foi de livre directo e a bola ficou presa lá em cima, sabe? Na intersecção entre a barra e o poste, onde a coruja faz o ninho. Confirma-me o Jaime Pacheco. ‘Mister, tenho a certeza: foi o nosso guarda-redes e tudo a tirá-la dali, aos saltos.’

Uau, livre directo?
Cortava bem a bola, aquilo fazia um efeito e, ao mesmo tempo, saía como força. Gostava de os marcar, sim. E tenho uma história curiosa, à 10ª ou 11ª jornada. Jogámos com o Riopele e estávamos em antepenúltimo lugar. O Riopele não jogou com um autocarro, mas com uns nove ou dez. Não havia maneira de a bola entrar. A dez minutos do fim, mais coisa menos coisa, há um livre à entrada da área. Eu ajeito a bola e digo para o companheiro do lado, ‘ò Reis, se esta não entrar, prepara-te que o lugar de treinador é teu. Vou abdicar disto.’ Mas isto é como dizem os chineses. O talento e a sorte quando se encontram com a oportunidade… Foi o que aconteceu.

Golo?
Um-zero. Bola ao meio, eles foram lá à frente na ganância do empate e nós fizemos o 2-0 para o Espinho. A partir daí, nunca mais perdemos. Foram 17 jogos invictos e subimos à 1ª divisão como campeões da Zona Norte.

Especialista em livres directos, então?
Eu era especialista em livres, o Eusébio é O especialista. Tenho uma boa história com ele, na Venezuela. Fomos jogar um torneio e calhou-nos defrontar o Alianza Lima, com jogadores da selecção do Peru no Mundial-78. Entrámos no campo e reparei que as barras da baliza estavam mais baixas que o costume. Fui medi-las e conseguia tocar na trave sem sequer saltar.

Ninguém coloca balizas novas?
Qual quê?! Jogámos assim e há um livre para nós. Eu quero marcar mas o Eusébio já se sabe como é, naquele estilo ‘eu marco, eu marco, eu marco’. Não era eu marco o livre, era eu marco o golo. Bastava-lhe a bola passar por cima da barreira e era golo. Nesse dia, a bola passou por cima da barreira e eu saiu a correr campo fora a festejar. Eu também, mas a olhar para trás. Foi aí que vi a bola bater na barra e ressaltar para as mãos do guarda-redes do Alianza. Avisei o Eusébio e ele muito incrédulo ‘mas como não foi golo?’

Porque as medidas das balizas não estavam bem.
Pois, eu avisei. O Eusébio era um portento. Mesmo no Beira-Mar, quando já estava menos rápido, era um fenómeno. Como jogador e pessoa. Um fe-nó-me-no. Vi-o marcar um golo ao Sporting a 30 metros, meu Deus. Vi outro golo dele, ao Vitória de Setúbal, no Bonfim, num livre a 30 metros, debaixo de uma chuva torrencial. Perdemos 5-3 mas aquele golo continua na minha memória. Eu já me tinha cruzado com ele no Benfica em 1968, e é claro que oito anos depois havia diferenças físicas, mas ainda era o Eusébio. Tenho outra dele.

Pois, imagino.
Estava eu, o Abel e o Eusébio a dar um passeio e entrámos numa rua meio manhosa. Parámos numa loja de relógios, porque o Eusébio adorava vê-los. Estávamos fora da loja quando o dono se pôs à porta e a olhar fixamente para o Eusébio. Perguntou-lhe se era ele. À resposta positiva, ele sacou de uma máquina fotográfica e chamou a mulher para lhe tirar uma fotografia. Depois ofereceu-lhe o relógio, que tinha máquina calculadora e tudo. O Eusébio reconhecido na Venezuela, numa rua daquelas? Quem poderia imaginar? Mesmo eu, que já o conhecia, fiquei espantado. O Eusébio, ai ai. Sabe quanto é o Benfica cobrava para jogar lá fora com o Eusébio?

Quanto?
Cinco mil contos.

E sem o Eusébio?
Metade, 2500 contos. Esta era a tabela do Benfica no Verão 1969, quando saí de lá e o Benfica foi fazer uma digressão ao continente americano. Isto é assim, o Rui puxa por mim e isto não acaba mais.

Muito bem, obrigado por tudo e abraço.
Abraço.

(Arghhhhhhh, esqueci-me de lhe perguntar sobre o Nápoles-Sporting. Já que o Benfica joga no San Paolo para a semana. Ligo-lhe, não lhe ligo, eis a questão. Hoje, já não. Amanhã, sim, é o dia. Cá vai disto.)

Desculpe lá ò Manuel José, esqueci-me do Sporting-Nápoles.
À vontade. Esse jogo tem três histórias. Duas com o Maradona, uma com o Gomes. Quando cheguei ao balneário no jogo da segunda mão, depois do 0-0 em Alvalade, disse aos jogadores que não ia haver marcação individual ao Maradona. Nunca fui disso nem o seria naquela hora. Fazia marcação à zona: quem estivesse mais perto, estrovava a acção do Maradona. E alertei para o facto de ele jogar só com o pé esquerdo. O direito, por assim dizer, servia para subir o autocarro e pouco mais. Então, disse aos jogadores para obrigar o Maradona a jogar com o pé direito. Numa jogada, ali junto à linha lateral com a linha do meio-campo, a bola vem para ele e o Valtinho, um calmeirão de 1,92 metros de altura que conheci no Braga, faz o que lhe digo. Sabe o que faz o Maradona?

Estou curioso.
Na impossibilidade de seguir a jogada com o pé esquerdo, dá-lhe um toque com o direito para o lado e faz um passe de letra a desmarcar o Carnevale. Valeu-nos o Ivkovic. Agora imagine isto: um passe de letra a isolar um companheiro?! Só o Maradona. No final do jogo, estávamos cabisbaixos e o balneário em silêncio. De repente, entra por ali dentro o Maradona a dizer ‘portero, portero’. Numa mão, a nota dos 100 dólares da aposta. Na outra, a camisola 10. Aquilo desanunviou-nos.

Pois é, os penáltis. Como é que se perde isso?
Escolhi os cinco e meti o Luisinho em primeiro. O Luisinho era um central muuuuito acima da média. Craque mesmo. Central do Brasil no Mundial-82, veja bem. Titular da equipa de Telé Santana, com Júnior, Falcão, Zico, Sócrates, Cerezo. Enfim, craque da cabeça aos pés. Pensei nele em primeiro para marcar logo. Não, ele falhou.

Pfffffff.
Ainda por cima, eles também falharam o primeiro remate, antes do nosso. Até ao fim da primeira série, o Marlon atirou ao poste e o Ivkovic defendeu o tal remate do Maradona. Vai começar a segunda série e o Gomes diz-me que não quer ir. Porque o Luisinho falhou e tal. E eu argumento que não for ele, bibota d’ouro e marcador de penáltis no Porto, quem tem moral? No meio da conversa, o Oceano intromete-se e diz que bate o penálti sem problemas. Mas eu quero o Gomes. Ele vai lá e atira à trave. Fomos eliminados.

Anos depois, voltou a Nápoles pelo Boavista.
E fui eliminado, outra vez. Cá, só foi 1-1. Deviam ter sido uns quatro ou cinco. Lá, perdemos. Dois-zero ou dois-um?

Dois-um, golo do Luciano.
Ah, esse brasileiro. Deram-me uma cassete com os golos dele e foi aí que reparei no Artur.

O Artur, aquele da Supertaça 1992-93?
Esse mesmo, era rápido como uma flecha.

Imagino que isso de tropeçar em jogadores desse nível seja raro.
Lá está você a puxar por mim [gargalhada rouca, a sequela]. Mas onde é que isto vai parar? Está preparado? Estágio do Sporting na aldeia das Açoteias. Estamos muito bem a treinar e aparece-me um senhor jovem, dos seus 24/25 anos, com um outro ainda mais miúdo, 20/21. Ele é empresário e representa o Raphael Meade. Lembra-se?

Xiiiiii, claro.
Diz-me que quer uma oportunidade. E eu, sem pestanejar, digo-lhe para treinar ali mesmo, no jardim do hotel, com os outros jogadores. Aquilo nem tinha as dimensões de um campo de futebol. Ele parte-me a loiça. Tinha técnica e ainda uma força enorme, vinha do Arsenal. Demos-lhe uma camisola do Sporting. Ao empresário, também. Enquanto os jogadores foram para os seus quartos, o Meade mais o empresário foram à sua vida e meteram-se no bar do hotel a beber umas cervejas. Tudo bem, na boa. Na manhã seguinte, o caos. Eles beberam demasiado e fizeram uma triste figura na piscina do hotel, vestidos à Sporting. Vieram queixar-se a mim, à hora do pequeno-almoço. Quando os encontrei, disse-lhes que o negócio já não ia ser feito, que aquilo da noite anterior era uma vergonha. ‘Eu não me importo nada que bebam cervejas, façam o que quiserem na folga. Agora, quando vocês vestem a camisola do Sporting Clube de Portugal, vocês têm de respeitar o Sporting Clube de Portugal. O que fizeram não tem desculpa.” Eles todos encavacados, a pedir mil desculpas. Eu perguntei então ao Meade ‘queres mesmo jogar no Sporting Clube de Portugal?’. E ele a dizer sim. ‘Então tens de pagar uma multa de 100 contos. Aceitas ou não?’ Ele faz as suas contas de cabeça e disse que sim. Pronto, Meade no Sporting. E o João Rocha descontou-lhe mesmo 100 contos no primeiro ordenado.

E ele marcou uma série de golos na Europa.
Marcou ao Athletic, em Bilbau. Ao Colónia, em Alvalade. E ao Barcelona, em Alvalade. Lembro-me desses todos.

Vem aí história, não vem?
A culpa é do Rui, ò Rui. Antes de Bilbau, tenho de contar a eliminatória com o Dínamo Tirana. O avançado deles é o Abazai, que depois joga comigo no Boavista como lateral e central. A vida que as voltas dá. Na Albânia, 0-0. Em Alvalade, 0-0 ao intervalo. Eles eram muito certos a defender. Aos 50-e-poucos minutos, eles fazem um contra-ataque e quase marcam. A bola ia marcar quando o Gabriel, que era exímio no tackle, saca uma bola na linha de golo. Fomos lá para a frente e marcámos o 1-0, pelo Venâncio, num canto.

Agora sim, Bilbau.
Em Bilbau, já sabia ao que ia. Como sou de Vila Real de Santo António, falo português até ao almoço e espanhol até ao jantar. Portanto, comecei logo a sacar informações sobre o Athletic, que isto aqui não é como agora em que se pode rebobinar jogos na televisão até sete dias depois. Descobri o quê? O estádio deles era conhecido como o charco de San Mamés. E porquê? Regavam o relvado ao intervalo. Avisei os jogadores deste detalhe. Bom, adiante. O Athletic era treinado pelo Clemente e havia o Zubizarreta, o Goikoetxea, que lesionara gravemente o Maradona num Athletic-Barça, mais o avançado Julio Salinas e os extremos Argorte e Noriega. Ao intervalo, 1-0. Vamos a sair do balneário e as escadas de acesso ao relvado todas alagadas. Todas meeesmo. O João Rocha ia à minha frente, escorregou e caiu. Ele fui com ele. Aquilo estava tudo alagado. Era um estratagema, pronto. Os jogadores foram então ao balneário para trocar de pitons e demoraram um pouco mais, como é natural. O árbitro [Daina, da Suíça, o da final da Taça dos Campeões 1985, entre Liverpool e Juventus, de que resultam 39 mortos] ameaça-nos com a derrota em caso de atraso na entrada em campo. Foi só assim um encosto para ser autoritário. A verdade é que fomos entrando aos poucos.

Que aventura.
Na segunda parte, o bom do Goikoetxea pega-se com o Jordão e o Jordão é expulso. Na altura, já está 2-0 para eles.

E agora?
Meto o Meade. Ele era o homem ideal. Corria que nem um desalmado e era forte como um touro. E digo ao Sousa e ao Jaime Pacheco para fazerem passes longos, para as costas da defesa. No primeiro passe, Meade isola-se e atira, à saída do Zubizarreta. A bola vai a entrar para a baliza e trava. O charco de San Mamés. Lá estáááá. No segundo passe, acho que do Sousa, o Meade isola-se outra vez, contorna o Zubizarreta e dá-lhe bem para a baliza. Nós, com 10, animamos a eliminatória.

Em Alvalade, é um fartote.
Ainda hoje, pessoas com 35/40/45 anos apanham-me na rua e dizem-me que foi o melhor jogo europeu do Sporting em Alvalade. Foi 3-0, podiam ter sido mais. Golos de Manuel Fernandes, Meade e Sousa. O do Sousa é cá um golo [gargalhada rouca ataca de novo], Da mesma forma, o 1-1 com o Colónia, na eliminatória seguinte, é um resultado mentiroso. Golo do Meade e eles marcam no último instante. Devíamos ter ganho por três ou quatro. O Colónia do Schumacher na baliza e do Allofs no ataque. Mais Littbarski e tal. Fizemos um jogo, tchi. O Schumacher defendeu dois remates do Sousa e ainda hoje não sabe como. As duas bolas bateram-lhe na cara. Mesmo. Em cheio. Lá, na Alemanha, perdemos 2-0 num campo inclinado. O árbitro era aquele italiano alto, que depois foi presidente da federação. O Paolo Casarin. Fez uma série de malandrices, entre as quais marcar um penálti que não era. Esse, o Damas ainda defendeu.

Athletic, Colónia. Só falta o Barça.
Julgava que isso já estava esquecido. Queres mesmo mais? Barcelona. Essa eliminatória é das mais equilibradas que há. Depois de aviarmos o Akranes com um total 16-0, com 9-0 na Islândia e 6-0 em Alvalade, vamos ao Camp Nou para impor o nosso estilo. Com 0-0, o Negrete, o do pontapé de moinho no Mundial-86 e que era perfeito com o pé esquerdo, falha-me um golo de baliza aberta. O Zubizarreta sai-se, ele mete-lhe a bola por cima e depois atira-me ao lado. Excesso de confiança. Ele simplesmente não parou a bola antes de rematar nem olhou para a baliza. Simplesmente, atirou convencido de que seria golo. Não foi. E há mais do Negrete.

Ainda nesse jogo?
Coitado é de mim. Livre para o Barça perto do fim [73’]. Marca o Julio Alberto. O Negrete sai da barreira antes de tempo e o árbitro alemão [Prokop] apita falta. Como a bola entra, o mesmo árbitro indica o meio-campo. Assim mesmo.

E em Alvalade?
Golos do Negrete e do Meade, 2-0. O Cruijff a meter toda a gente lá na frente e nós a controlar o jogo. Lembro-me de um lance de quatro para dois. E os dois do Barça é o Zubizarreta mais um defesa. Quem tem a bola é o Fernando Mendes, que fazia anos nesse dia e foi quem fez os cruzamentos para os dois golos. Quatro para dois e o que faz o Fernando Mendes? Um chapéu ao Zubizarreta.

Tssssssss.
Às tantas, muito muito perto do fim [86’], o Roberto atira um remate indefensável. Parece que o estou a ver agora. Que pontapé. Aquilo foi fatal, eliminou-nos

Um mês depois, 7-1 ao Benfica.
Mais, queres mais? ‘Tou tramado. Digo aos meus jogadores antes do jogo: ‘eles são melhores que nós e temos de fazer isto para impedi-los de jogar como sabem: quando perdermos a bola, recuamos todos, menos o Meade. Ele é o primeiro a pressionar quem tem a bola. Sempre. Quando recuperarmos a bola, soltamo-nos. Tu, para o Litos e o Mário Jorge, fazem diagonais para baralhar a defesa. A defesa era Oliveira e Dito no centro mais Veloso e Álvaro. Tudo jogadores consagrados.’ Fazemos o 1-0, depois o 2-0, ele reduzem e, a partir daí, foi aquilo que se sabe. Não é comum marcar quatro golos de bola parada. Às vezes, aguentamos e aguentamos uma época inteira só para ver um. Ali, no dérbi, quatro.

Não é esse o ano em que o Manuel José ganha duas vezes ao Benfica?
Em Abril, para o campeonato da época anterior, 2-1. Golos de Morato, Manuel Fernandes e Maniche. O Sporting não ganhava desde 1965. Há 21 anos. A festa no balneário é indescritível. O João Rocha entrou de fato e gravata, meteu-se debaixo do chuveiro para cumprimentar todos os jogadores, subiu o valor do prémio de jogo e tudo. Só visto. Esse é o jogo que dá o título de campeão nacional ao Porto e permite-lhe entrar na Taça dos Campeões, conquistada na época seguinte. Sabe uma coisa?

Agora já não sou eu quem faz as perguntas.
Pelo Boavista, ganhei três vezes ao Benfica na mesma época. Um-zero na Luz, golo do Casaca. Atenção, o Benfica não perdia em casa para o campeonato desde 1987. E isso foi em 1991. Um-zero no Bessa, pelo Ricky. E dois-um na Luz para a meia-final da Taça de Portugal. Bis do Ricky. Nessa final, ganhámos 2-1 ao Porto.

E depois foi a Supertaça, com o tal 2-1 nas Antas. Que bela maneira de acabar o telefonema.
Ufff, obrigado Rui.