Chaves. Soraia Chaves? Não. Chaves do Areeiro? Também não. Diana Chaves? Muito menos. GD Chaves? Aleluia, sim, sim, claro que sim. Grupo Desportivo de Chaves. A bandeira transmontana no futebol português e única equipa do interior a juntar final de Taça de Portugal mais presença nas competições europeias. Ei-lo de volta ao convívio dos grandes, de onde sai sem honra nem glória em maio de 1999 com uma sequência de oito derrotas e sete empates – a última vitória é de Janeiro desse ano, em Coimbra, na era Augusto Inácio. Depois dele, passam ainda Diamantino Braz e Rodrigues Vaz. Nenhum deles dá conta do recado e o Chaves cai sem nunca mais conseguir levantar-se. Convive até com a desilusão de uma descida à 3.ª divisão na mesma época (2009-10) em que chega ao Jamor, numa final de Taça perdida para o Porto de Jesualdo Ferreira.

Chaves. Voltamos ao mesmo, é uma cidade encantadora. Há quem se lembre dela por um golo específico. Como o leão Douglas, aquele brasileiro das meias para baixo. “Uma vez, marquei um golo de chaleira em Chaves.” Isto já é bom, o que aí vem é melhor ainda. “Chaves, a terra do bom presunto.” Delicioso. E há quem veja Chaves como ponto de partida de uma carreira internacional. Como um outro leão, Cristiano Ronaldo, de seu nome. É lá que se estreia pela seleção, em agosto de 2003, vs. Cazaquistão. E há ainda quem mencione Chaves como parte de um roteiro gastronómico assim-assim. Como Jorge Coroado, a respeito de um jogo do Sporting em 97-98, com a anulação de um golo de Beto e a não marcação de dois penáltis a favor dos visitantes. Como acaba 2-2, a indignação leonina é colossal. Coroado reage com honestidade e recorre às figuras da “azia” e “indigestão desportiva” para ilustrar uma certa frustração. Vai mais longe e diz-se ainda “perturbado, aborrecido e agastado” porque pode ter “prejudicado não só o Sporting, mas a classificação global do campeonato”.

Isto tudo, acredite, é Chaves, a única equipa do Distrito de Vila Real a habitar na 1.ª divisão. Ao todo, 13 épocas, sete delas no top 10. A melhor de todas é a de 86-87 com o quinto lugar e acesso à Taça UEFA, via Raúl Águas (treinador) mais Radi, Jorge Silva e Jorge Plácido (29 golos num total de 39). Saudades. Saudades desse Chaves. E, já agora, do Radi. Grande, enorme. Quando chega a Chaves, já tem 30 anos de idade. “Pelas leis da ditadura comunista”, diz-nos, “podia sair aos 28, em 1984, mas queria jogar a qualificação e a fase final do Mundial-86 e achei melhor continuar na Bulgária. Ganhei essa aposta pessoal porque fomos ao Mundial e até acabou por ser a melhor montra para todos nós. Ainda por cima, joguei sempre e passámos a fase de grupos com Itália, Coreia do Sul e Argentina de Maradona.”

No fim do Mundial do México, “um empresário português em França, o Lucídio Ribeiro, apresentou-me o projeto do Chaves. Tinha 30 anos, vontade de de me aventurar, de conhecer outro país, outra cultura, outro futebol. Não podia dizer não ao Chaves.” Até porque o seu conhecimento sobre Portugal é qualquer coisa. De especial, claro. Em 1981, por exemplo, marca três golos ao Bento num 5-2 à seleção portuguesa em Sofia. Na época seguinte, visita Alvalade. “Pelo CSKA Sofia, para a Taça dos Campeões 82-83. Empatámos em casa [2-2] e também em Lisboa [0-0]. Fomos eliminados na 2.ª eliminatória.

Sabes onde joguei esses dois jogos? A defesa-central. Os dois titulares estavam lesionados e então o treinador pôs-me lá atrás. Em Sofia, lembro-me de ter feito um raide de 50 metros com a bola controlada de uma área à outra e lembro-me de outro lance em que atirei à barra. Em Alvalade, outro bom jogo sem sair do 0-0. Foi aí que tomei contacto com o Manuel Fernandes, um belo capitão.”

Talvez por isso, Radi encolhe-se com o Sporting. Já com Porto, é um ver-se-te-avias. “Marquei em Chaves e no Dragão.” E ao Benfica? “O meu primeiro golo em Chaves é ao Silvino, do Benfica. Perdemos 2-1 e eu fiz o do momentâneo empate. Um ano ou dois depois, voltei a marcar ao Silvino, agora na Luz, e empatámos 1-1.” Pois é, chegámos ao ponto mais interessante deste texto. Ufffff. Chaves vs Benfica. É o jogo deste sábado à tarde. Que o Benfica é mais forte, disso ninguém duvida (nove vitórias em 13 jogos para lá do Marão). Que o Chaves gosta de bater peito com os mais fortes, também não (três vitórias). Curiosidade engraçado (ou não, depende da perspetiva): o Benfica, como campeão, só ganha uma vez em Chaves. Em quatro visitas. Alto lá e pára o baile: o Benfica é campeão e vai jogar a Chaves. Tu queres ver?

A aventura do Chaves começa em 1987-88. No ano anterior, o Porto é campeão europeu. E o Benfica aproveita para ganhar o 27.º campeonato (contra 16 do Sporting e nove do Porto). Na defesa do título, o Benfica de Ebbe Skovdahl perde em Chaves com um golo de penálti de Júlio Sérgio em cima dos 90’. Assinala-o José Guedes, do Porto. No final, Shéu e Carlos Manuel falam de manobras. “O campeonato está minado e vamos detetar essas minas.” Nessa mesma jornada, nenhum dos outros grandes ganha. Culpa do Vitória. O de Setúbal trava o Porto numa tarde imperdível com oito golos (4-4) e o de Guimarães silencia Alvalade (2-2).

O Benfica só volta a ser campeão nacional em 1988-89, com Toni. Que desce para adjunto na época seguinte, com a entrada de Sven-Goran Eriksson. Com um olho na Taça dos Campeões (chega até à final de Viena, perdida para o Milan de Rijkaard) e outro no campeonato, é normal um deslize aqui e outro ali. Acontece exatamente isso em Chaves, para a 9.ª jornada. É o fim de semana em que Aurora Cunha e Conceição Ferreira acabam em 2.º e 3.º na Maratona de Tóquio. É o fim de semana do hat-trick de Madjer ao Feirense, na Feira. É o fim de semana do adeus de Quinito como treinador do Marítimo, na vitória do Sporting nos Barreiros (2-1). É o fim de semana do 0-0 em Chaves. Zero golos, nem sequer de Magnusson, então o melhor marcador do campeonato, à conta de 14 golos (muito, muuuuuito à frente do segundo, o belenense Mladenov, com oito).

Terceiro capítulo. O Porto de Artur Jorge tira proveito da tal epopeia benfiquista até à final da Taça dos Campeões e acaba em primeiro lugar no campeonato 1989-90. Na época seguinte, aquele bis de César Brito nas Antas entrega de bandeja o título ao Benfica. É nessa condição de campeão que o Benfica de Eriksson se apresenta em Chaves a 30 Abril 1992, uma quinta-feira. Sim senhor, 5.ª. Com apenas uma vitória nas últimas cinco jornadas, o Benfica já não chega ao título. Matemicamente, é impossível. O Porto, vencedor na Luz em Março (3-2), assegura o primeiro lugar no dia 25 Abril, com o 1-0 de Kostadinov aos 89’, vs. Salgueiros, no Bessa. Cinco dias depois, o Benfica cumpre calendário em Chaves. E dá-se mal. O árbitro bracarense Neves Fernandes expulsa o lateral José Carlos aos 38 minutos e ainda o adjunto Toni aos 61’. Com menos um jogador no relvado e um treinador no banco, o Benfica ressente-se. Rudez assina o golpe da misericórdia, aos 74’.

Até agora, zero golos marcados pelo Benfica-campeão em Chaves. Incrível e, ao mesmo tempo, verídico. É tudo? Não.

https://www.youtube.com/watch?v=F0h0IgTEAos

Falta só escrever a última parte, a da única vitória benfiquista. Toni volta a ser campeão nacional, em 1993-94 (a tal época dos 6-3 em Alvalade), e nem aparece na época seguinte. A direção aposta em Artur Jorge, com Filipovic a adjunto. O Porto começa aqui a dar sinais de evidente superioridade, com o primeiro passo para o inédito penta. O Benfica aguenta-se como pode. Em Chaves, todo um reflexo da época. Primeira parte sem um remate à baliza, 1-0 do número 10 Edilson de fora da área aos 69’ mais expulsões de Paulo Pereira (duplo amarelo) e Caniggia (vermelho direto, por indicação do fiscal de linha de Paulo Paraty), aos 73’ e 75’. Com nove, até é o Benfica mais perto do golo. Bastón nega-o categoricamente a JVP. É a única vitória do Benfica-campeão em Chaves – e o único golo marcado. Este sábado, quem dá mais?