Rodeado por colonatos israelitas, o campo de refugiados palestinianos de Aida, 1,5 quilómetros a norte da cidade de Belém, tornou-se um epicentro de confrontos entre jovens e o exército israelita.

“Aqui não é o nosso lar, a terra natal é de onde os nossos avôs vieram”, diz à Lusa Murad Abu Srour, 29 aos, que tem estatuto de refugiado porque os seus antepassados são originários de uma das 43 aldeias destruídas em 1948, durante a criação do Estado de Israel.

Belém é conhecida pela Igreja da Natividade, construída sobre a gruta onde Jesus Cristo terá nascido, um centro de peregrinação e turismo religioso cristão encravado na Palestina, mas os 721 quilómetros de muro que cortam os arredores da cidade e demarcam o limite entre o Estado de Israel e a Cisjordânia palestiniana é o símbolo mais evidente da ferida que o conflito israelo-palestiniano mantém aberta.

Os refugiados de Aida convivem diariamente com o vizinho incómodo e humilhante. Em frente ao muro de oito metros de altura, com torres de vigilância a cada 300 metros, há uma escultura de uma chave, a lembrar aos que por ali passam o clamado direito de retorno às terras de onde as primeiras famílias foram expulsas.

“Aida é um ‘hotspot’ (ponto quente). Resume num único lugar todos os desafios que a Cisjordânia enfrenta. Vemos muitos casos de confrontos e uso de gás lacrimogénio. Tudo é muito pior num campo de refugiados, desde desemprego ao acesso a serviços básicos”, disse à Lusa o diretor de operações da agência das Nações Unidas para Apoio aos Refugiados Palestinianos (UNRWA), Scott Anderson.

Em 2015, segundo a UNRWA, foram registadas 84 incursões das Forças de Defesa de Israel (IDF, o exército israelita) resultando na morte de um adolescente, 57 feridos e 44 presos (incluindo 13 menores de idade).

“Não queremos mais enterrar os nossos filhos, queremos que cresçam e sigam o caminho da vida”, diz Murad Abu Srour, que considera o ser refugiado um estigma para toda a vida.

“O meu filho carregará consigo esta identidade. Quero que aprenda a história da Palestina, leve a cultura e o legado dos vilarejos de onde vieram nossas famílias. Eu ouvia do meu avô histórias da sua terra, ele era agricultor e criava carneiros. Nunca pude visitar o local”, lamenta Murad, refugiado de terceira geração e voluntário da ONG Alrowwad no campo de Aida.

Passadas quase sete décadas desde a criação do Estado de Israel, as cicatrizes permanecem abertas e o número de refugiados continua a aumentar saturando os 19 campos de refugiados na Cisjordânia onde vivem 230 mil pessoas.

Segundo as Nações Unidas, existem no total 780 mil palestinianos refugiados a viver na Cisjordânia.

Atualmente vivem no campo de Aida cerca de 5.000 pessoas, mais de 60% crianças e jovens até 24 anos. A média de idade em Aida é de 23 anos e a taxa de desemprego supera os 40%.

Não há clínica médica no campo e os refugiados precisam se deslocar um quilómetro até Beit Jala para receber cuidados médicos.

Murad espera um futuro diferente para a geração mais nova de refugiados que nasceu em Aida. “O direito de regresso (às terras de origem) está sempre na nossa mente. Como podemos pensar em paz se continuam a construir o muro”, questiona.