Novos casos de esfaqueamento de israelitas acabaram com uma rara acalmia em Jerusalém oriental, que durava desde o início do ano, e voltaram a expor a profunda tensão que marca a vida da cidade disputada por israelitas e palestinianos.

Em apenas uma semana foram registados dez ataques em Jerusalém e na Cisjordânia. Esta semana, um jovem de 20 anos esfaqueou dois polícias nos arredores da Cidade Velha.

“Jerusalém nunca esteve tão quieta e silenciosa em vinte anos como agora, nestes últimos seis meses”, orgulhava-se pouco antes destes ataques Nir Barkat, presidente da câmara de Jerusalém, do Likud (União, em hebraico), o partido nacionalista de centro-direita do Primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu.

“Não podemos ser ingénuos ou politicamente corretos. É preciso ter inteligência para salvar vidas e evitar ataques. Temos que ir atrás das pessoas más. Não podemos deixar o terror ganhar espaço”, disse Barkat a jornalistas estrangeiros.

Há exatamente um ano, uma forte escalada de violência eclodiu quando manifestantes palestinianos enfrentaram polícias israelitas junto à mesquita de Al-Aqsa, na Cidade Velha, conhecida por judeus como Monte do Templo e área sagrada para as duas partes.

Administrador de Jerusalém desde 2008, Barkat encarna o discurso da unificação da cidade, materializada em 1967 quando Israel anexou a parte oriental de Jerusalém após a Guerra dos Seis Dias.

“Jerusalém nunca será dividida. A filosofia de Jerusalém é inclusiva. Esta é uma cidade que sofre muitas ameaças. Não fugimos dos problemas e das tensões”, defendeu.

Para Xavier Abu Eid, assessor político do Departamento de Negociações da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), o que está em jogo não é uma disputa por Jerusalém oriental, mas sim pelo fim da ocupação.

“Não é o caso de dois lados brigarem por um pedaço de torta. Estamos sob uma ocupação colonial. O mandato do Sr. Barkat é ilegítimo em Jerusalém oriental cuja anexação nunca foi aceite pela comunidade internacional”, comentou em declarações à Lusa.

Abu Eid afirmou não ser favorável à violência, mas sublinhou que as pessoas “perderam a esperança” no processo político.

“Viver sob uma ocupação militar estrangeira significa ser humilhado diariamente e privado dos direitos básicos. Há mais de 50 anos Israel ocupa a Palestina e tem cometido crimes com total impunidade. A principal fonte da violência é a ocupação israelita”, disse.

Dos 900.000 habitantes de Jerusalém, 36% são muçulmanos; 40% judeus seculares; 22% judeus ultraortodoxos e 2%, cristãos.

Hoje, 38% da população de Jerusalém vive na parte oriental. Apesar de judeus e palestinianos conviverem nos espaços públicos, dificilmente se misturam. A interação não vai além de gestos de cordialidade.

“Temos mais árabes residentes em bairros judeus que o contrário. Os judeus não se sentem seguros nos bairros árabes”, diz Barkat.

O enviado especial da ONU para o Oriente Médio, Nickolay Mladenov, criticou em agosto o aumento da colonização israelita na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental, bem como a continuidade das demolições de casas palestinianas.

A ONU considera ilegais os colonatos civis israelitas nas terras ocupadas desde 1967. Segundo o município de Jerusalém, 25 mil edificações são ilegais, a maioria na parte oriental.

Nenhum dos 163 países com que Israel mantém relações diplomáticas reconhece Jerusalém como capital do Estado judaico, lembra Miri Eisin, professora do Centro Interdisciplinar (IDC) em Herzliya e investigadora do Instituto Internacional de Contra-Terrorismo em Israel, que considera a cidade o espelho da “geopolítica da religião”.