Parece uma serenata virada ao contrário. Quatro homens vestidos de negro nas varandas, cabeça levantada e olhos que nunca largam o Tejo, tocam para um público que se vai adensando aqui no chão, em cima da calçada portuguesa. São fadistas e devem estar felizes, eles e nós. Era esta a conclusão de uma primeira noite de Caixa Alfama 2016.

Não é só um festival. O Caixa Alfama, que começou esta sexta-feira e que continua esta sábado, é um tributo mas também é o presente a acontecer, não estivéssemos nós no mais antigo bairro de Lisboa. Aquela voz masculina que se abre num grito fadista na Travessa do Terreiro do Trigo, azulejos amarelos e azuis, varandas pequeninas com lençóis a secar, um fado sussurrado nas mesas de quem janta na rua, ruelas estreitas e becos com flores e namorados com sapatinho de vela num beijo tímido. Alfama — “al hamma”, diziam os árabes — é tudo isto. Parece cliché mas é mesmo assim.

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Era assim a entrada para o Caixa Alfama 2016. Créditos: samuel matize

Para chegar ao palco principal do Caixa Alfama é preciso atravessar a Avenida Dom Afonso Henriques e enfrentar o rio. Ouve-se espanhol numa das passadeiras, mas muito menos do que nas edições passadas. O ambiente no recinto é familiar, tranquilo, sossegado. Vendem-se pregos, bifanas e cerveja e não há mais do que cinco mesas, cada uma com quatro cadeiras, para os amantes do fado. Daqui veem-se as constelações (se as conhecer, claro), as luzes da Ponte 25 de Abril e a mão direita do Cristo Rei a abençoar o Palco Caixa. Há senhoras de xaile ao ombro, cadeirinhas para quem não conseguiu lugar na bancada. E não há telemóveis: o frio não é muito mas justifica uns abraços discretos no público que vê Gisela João, a primeira artista a atuar no palco principal.

Cantou sem medo do sotaque, diz-se desbocada mas “não é sangue na guelra, é mesmo na veia”. E não tem medo das palavras. Ri, sorri, conversa e salta muito: “Estão felizes? Espero que estejam todos felizes porque ainda é verão no nosso país e porque estamos num festival democrático onde não há cercas à frente do palco a separar os importantes dos menos importantes”. Não é só a voz de menina-mulher irreverente que faz Gisela João: é a forma. A brisa do rio insistia em agitar os folhos e os brilhantes do vestido preto da fadista e empurrava o cabelo para cima de um dos seus ombros. Havia flores no palco, do outro lado dos guitarristas. Havia tudo o que era necessário para que, quando chegasse a tão aguardada “Meu amigo está longe” — uma canção de Ary dos Santos para Amália Rodrigues –, o público visse o mundo parar. Chegou a haver lágrimas ao nosso lado, claro que sim.

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Gisela João foi a primeira a atuar no palco principal. Créditos: samuel matzig

E há Ricardo Ribeiro, aquele que canta sem medo do potencial da sua voz, fá-la elevar-se por cima dos pequenos barcos de pesca atracados ali ao lado no cais, estica-a do pianissimo ao fortissimo porque não dá para ser de outra maneira. Os aplausos são fortes e os olhares são embevecidos. Ricardo Ribeiro tem suspiros que parecem feras — tão delicados como resistentes. E depois não tem medo de nenhuma música do mundo, dos sotaques deste país fora e dos jeitos ciganos que parece dar aos cânticos.

Atrás de Ricardo Ribeiro há um símbolo étnico que faz lembrar a cultura árabe. Faz sentido. O fado nasceu dos cânticos dos mouros após a Reconquista Cristã, com berço para lá da costa do Castelo, na Mouraria. A história é longa e velha, mas só há dois séculos é que ganhou expressão na cultura portuguesa. Das tabernas onde se cantava o “fado vadio”, onde era condenado pela Igreja, passou a entrar nas casas aristocráticas e a conquistar uma melhor fama, até ser canal para expressão do povo em tempos de instabilidade.

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Ricardo Ribeiro no Palco Caixa. Créditos: samuel matzig

Em conversa com o Observador pouco antes do concerto, Ricardo Ribeiro defendeu que a irreverência de ser fadista deve ser mantida, mas que ser fadista e ser cantor de fado são coisas diferentes. “O fado é uma árvore. E precisa de raízes. É uma essência, há coisas quem devem ser só nossas”. Depois lembrou uma canção de Beatriz da Conceição:

Cantam jovens em Paris. É sempre amor, é sempre amor. Já ouvi Madrid cantar. É sempre amor, é sempre amor. Quem ama sempre é feliz pois ter amor é coisa boa. Mas cantar para não chorar só é amor cá em Lisboa”

Já agora: o concerto do último nome a pisar o Palco Caixa, Carminho, foi completamente ditado pela palavra “amor”. Cantou sobre paixão, sobre a esperança que se mantém loucamente depois de um fim, da importância da coragem para lutar, dos momentos de fraqueza. Quando em silêncio, muitas vezes permanecia de olhos seguros no fundo do recinto e braços ao lado do corpo. Um corpo dado às balas. Quando cantava fechava os olhos, levantava a voz com firmeza e era puro teatro (só que não era, lá está).

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Havia correntes penduradas no palco de Carminho. Créditos: samuel matzig

Gemia no início dos versos com o poder de quem sabe o que está a dizer e para quem está a dizer. E tinha gestos assertivos como que num conflito com a sua própria mente. Carminho queria que entendêssemos tudo. Chegou a pedir que todos encontrassem um par para dizer “Bom dia, amor”, uma música inspirada na Carta de uma Corcunda a um Serralheiro, escrito por Maria José (heterónimo de Fernando Pessoa). Jurou que com essa brincadeira já conseguiu dois casamentos: um em Badajoz e outro em Freixo de Espada à Cinta. Carminho foi amor.

A primeira noite do Caixa Alfama, que vai já na quarta edição, deixo ainda uma atuação de Marina Mota que preencheu as expectativas de quem a foi ver, que quem esperava a tradição da revista em cima de um palco. Houve fado à janela e fado rezado. Nos largos nas igrejas e nos palcos. E depois houve tudo o resto que faz a noite de Lisboa e as festas de Alfama. Quase no fim e ainda se viam os pratos por levantar dos restaurantes, mais os peixinhos da horta, o polvo à Lagareiro e as favas. Este sábado acontece tudo outra vez, com nomes diferentes e um tributo a Beatriz da Conceição.

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O Caixa Alfama continua esta noite. Créditos: samuel matzig