A partir da coleção de vasos e potes de faiança existente no seu acervo, o Convento de Cristo, em Tomar, convida, até ao verão de 2017, à descoberta da história da farmácia conventual e do universo da cura.

Construída graças à colaboração de um vasto conjunto de instituições, a exposição “A Botica do Real Convento de Thomar” abre ao público uma parte do edifício Património da Humanidade habitualmente encerrada, a ala filipina, resultante da última grande intervenção no Convento, ocorrida nos séculos XVII e XVIII.

Aos mais de 80 potes e faianças com origem provável na Real Fábrica de Louça, ao Rato, em Lisboa, e na Fábrica de Faiança do Juncal, que integram “o vasto espólio” reunido pela União dos Amigos dos Monumentos da Ordem de Cristo (UAMOC) nas primeiras décadas do século XX, juntaram-se peças cedidas pelos museus da Farmácia e do Azulejo e pelo Palácio Nacional de Mafra para uma exposição que mostra a evolução histórica da farmácia e entra no mundo místico da cura.

A exposição, patente durante um ano, é a segunda do projeto que pretende “expor em contexto” a coleção “escondida” e a “precisar de ser mostrada” existente no Convento, “enriquecendo o percurso de visita e, simultaneamente, dando ao público uma maior proximidade com este monumento através dos objetos, da leitura do quotidiano, dos usos, e até entendimentos económicos da sua sustentabilidade”, disse à agência Lusa a diretora do Convento de Cristo, Andreia Galvão.

Com sete núcleos expositivos, o percurso parte da procura da cura de corpo, espírito e alma, aborda a temática da cura nos conventos, mostra o acervo da botica — com os potes e vasos em faiança azul e branca em destaque – e a enfermaria do convento de Tomar, a organização da vida monástica, o território e as gentes e a evolução da farmácia até à atualidade.

“A viagem alarga-se aos quotidianos religiosos da comunidade de frades que habitavam o Convento de Cristo, onde exercitavam saberes para curar irmãos e populações vizinhas, demonstrando o impacto que tiveram numa região que ainda hoje conserva a sua memória”.

Da documentação à panóplia de objetos (incluindo amuletos), recipientes, instrumentos, referência às matérias-primas, provenientes essencialmente do jardim de plantas medicinais, “espaço presente em praticamente todos os mosteiros porque era aí que se encontrava grande parte dos antídotos galénicos para os males que era necessário curar”, a exposição remete também para a paisagem criada pelas comendas da Ordem de Cristo.

“Fica o ensejo de sair daqui, do monumento, e de entrar nos domínios mais próximos da Ordem, este espaço envolvente da fortaleza, que nos remete também à sua organização inicial”, afirmou.

Andreia Galvão realçou à agência Lusa a colaboração “fundamental” de instituições como o Museu da Farmácia, o Palácio Nacional de Mafra, o Museu Nacional do Azulejo, o Instituto Politécnico de Tomar, a Torre do Tombo, o Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova, o Laboratório Hércules, da Universidade de Évora, entre outros, que emprestaram peças e contribuíram com uma “multiplicidade de saberes”.

Numa das salas, um televisor passa os testemunhos de mulheres da região “que conhecem as ervas e as mezinhas”, resultado de uma recolha da antropóloga Daniela Araújo, uma das especialistas que colaborou na montagem da exposição, e que está também disponível no site criado pelo Politécnico de Tomar.

A partir do material exposto e dos estudos feitos, realizar-se-ão vários eventos, que começam com uma conferência proferida pelo diretor do Museu Nacional da Farmácia, João Neto, intitulada “Da guerra à doença — os Templários e as Ordens Médico-Militares durante as Cruzadas”.

Para janeiro de 2017, está agendado um encontro com todos os colaboradores e investigadores envolvidos no projeto, altura em que será lançado o catálogo da exposição, adiantou.