O acordo de paz assinado, nesta segunda-feira, pelo Governo colombiano e a guerrilha das FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) traz novos desafios às regiões afetadas pelo conflito armado de mais de meio século, de acordo com moradores entrevistados pela Lusa.

Entre os temores dos moradores dos departamentos (estados) de Caquetá, Meta e Vichada, onde a guerrilha possui forte presença, estão o aumento da violência por outros grupos armados e pela delinquência comum, a recolocação dos desmobilizados, que irão regressar às suas casas, e que alguns grupos de guerrilheiros possam negar-se a deixar as armas.

Luz Dary Pineda, 35 anos, vítima da explosão de uma mina antipessoal na cidade de Vista Hermosa, em Meta, afirmou ser a favor do acordo de paz, mas destacou que já há pessoas deslocadas e ameaçadas na cidade por outros grupos armados.

“O governo precisa de trabalhar contra essa outra violência, tem de ter mais presença na região”, disse.

Vista Hermosa é a cidade colombiana com mais vítimas de minas antipessoais, que foram colocadas pelas FARC contra o exército ou para proteger lugares estratégicos.

Carmen Galvis Salcedo, 45 anos, ex-secretária de Assuntos Indígenas do Departamento de Vichada e da etnia Sikuani, disse esperar que o acordo traga algo positivo para as futuras gerações e investimentos para a melhoria de vida da população indígena.

“O nosso temor é o de que os indígenas que fazem parte das FARC se desmobilizem e voltem aos seus resguardos [territórios demarcados] com outra cultura, que não respeitem as autoridades tradicionais e tentem impor-se e ter poder”, disse.

A geógrafa Claudia Romero, 20 anos, nascida em San Vicente del Caguán, em Caquetá, afirmou ser a favor do acordo, mas acrescenta que o tema divide opiniões na sua cidade.

“Dizem que pode ser desastroso porque como as FARC desempenhavam o controlo, sem elas pode haver mais violência, as pessoas podem armar-se e gerar mais roubos, mais extorsão. Eu espero que o governo invista em políticas públicas e desenvolvimento e que haja mais paz. Mesmo que já não seja como em 2007, quando havia atentados a cada dois dias e bombas, ainda há violencia”, disse.

De acordo com Claudia Romero, o acordo pode permitir novas atividades, como a exploração do turismo em zonas até então consideradas inseguras.