O cenário era de obra em construção. Mas estes dois já têm obra mais que feita. Depois de 23 concertos esgotados na primavera passada, o regresso de António Zambujo e Miguel Araújo ao Coliseu dos Recreios para os novos espetáculos depois do verão exigidos pelo público mostrou isso mesmo: o duo improvável das vozes de Maia e Beja dispensa os andaimes e as escadas no palco. Eles são um caso sólido de sucesso, graças à cumplicidade de ambos e da música que tocam e cantam, partilhando materiais e projetos.

E tão inquebrável parece a relação que nem temem evocar outro duo de sucesso que acabou de candeias às avessas — Araújo cantou Simon & Garfunkel para homenagear o seu passado musical em Águas Santas; Zambujo preferiu fado, o estilo musical que o tornava um jovem de sucesso garantido em Beja nos idos de 80, como se está mesmo a ver.

É assim que começa o concerto. Com fado. Mas não com um fado qualquer. Zambujo, nome da árvore que dá as melhores azeitonas, arriscou escolher “Foi Deus”, o tema de Alberto Janes para a voz única de Amália. Ouvem-se os acordes da guitarra elétrica de Araújo e depois os da acústica de Zambujo, até ele começar a cantar sem medo o tema que a tantos amedronta. Haveria de voltar ao fado, com “Nem às Paredes Confesso” ou “Rosinha dos Limões”, sempre com o mesmo à vontade.

É esse o maior segredo desta dupla. Porque não é para todos esgotar 30 espetáculos à conta apenas de vozes com sotaques tão diferentes (e marcados), jeito para os instrumentos de cordas e letras criativas. O que eles fazem é levar-nos para um sítio qualquer onde já todos estivemos, com algum amigo que sabia dedilhar umas notas, a trautear as modinhas tradicionais, os sucessos do momento ou velhas canções do Brasil, porque o importante era todos as saberem de cor. Foi mesmo assim.

Depois de alguns êxitos de ambos, entoados a dois, onde não podia faltar o “Pica do Sete” cantado em uníssono por todo o Coliseu, o concerto tornou-se tão intimista que parecíamos estar entre amigos na nossa sala ou à roda de uma fogueira. E valeu tudo: o cante alentejano, o genérico de uma novela, o que o público quis e pediu.

Eles improvisam. Improvisam muito. Até no arremedo, tentativa falhada, de entoar com a sala a “Bohemian Rhapsody” dos Queen no arranque do primeiro encore, pela primeira vez com Miguel Araújo no velho piano até então abandonado a um canto do ‘estaleiro’. Mas improvisam sempre em perfeita sintonia e cumplicidade. Por isso deixaram para o fim o que sabiam que ia pôr o público aos seus pés: veio a “Lambreta”, “Os Maridos das Outras”, o “Anda Comigo Ver os Aviões” e a “D. Laura” até ao coro final do “Dá-me uma Gotinha de Água”.

O concerto pode ser por isso comparado a uma espécie de obra de Santa Engrácia em eterna construção. Mas é uma obra-prima. Por isso corram a comprar a meia dúzia de bilhetes que ainda deve haver disponíveis. Se forem dos poucos portugueses a falhar o espetáculo ficarão a lamentar para sempre. Comprar o disco é como ver a Sagrada Família já pronta e não ter sido espetador das fases em que ela se foi materializando.

E no fim desta maratona, este dois podem bem ficar conhecidos como o Duo Esgotado. Ou os Mestre de Obra, pronto!

Concertos no Coliseu de Lisboa de 27 a 2 de outubro (sábado, dia 1, é a duplicar)