Nada de guias turísticos, bilhetes de avião para grandes travessias, hotéis reservados, leituras para contextualização histórica. Apenas duas mochilas, uma tenda e a certeza de que seria através do autostop — conceito tornado popular na década de 70 que se traduz em andar de um lado para o outro à boleia –, que conseguiriam chegar mais longe e com menos dinheiro. Foi assim que Tiago Fidalgo e Joana Oliveira planearam a sua volta ao mundo.

Joana tem 26 anos, assim como Tiago. São casados e formados nas áreas de Saúde e de Educação Física. Em 2016, em jeito de lua de mel, decidiram realizar um desejo de há muito: viajar sem se preocuparem com o fim da viagem, conhecer pessoas, diferentes realidades, culturas e formas de viver. O maior desafio? Não, não foi pensar em como gerir a paciência em relação ao tempo passado de polegar estendido mas sim, como dizem, “mostrar a todos que existem muitas formas de viajar e essa possibilidade está ao alcance não dos mais ricos, mas sim dos mais criativos”.

volta ao mundo em boleia

Joana Oliveira e Tiago Fidalgo despediram-se para dar a volta ao mundo.

Tudo começou em março, quando saíram de Painho, à boleia. Ao chegarem a Lisboa, e depois de esticarem novamente o polegar, o condutor que lhes abriu a porta nem queria acreditar no que acabava de ouvir: “Vamos dar a volta ao mundo à boleia, esta é a segunda que apanhamos”. Desde aí, já conheceram 20 países através de 245 boleias. Até ao fim, há muitas mais para apanhar.

O tipo de viagem que estamos a realizar conduz-nos ao conceito de viajantes, em franca oposição ao de turistas: uma vida nómada de mais de um ano, e não uma viagem detalhadamente planeada e marcada. Viajamos, poupando e vivendo de acordo com o que faríamos no nosso país ou, se tudo correr bem, com um plafond ainda menor, sem gastar dinheiro com alojamento, refeições em restaurantes ou transportes extraurbanos”, explicam ao Observador.

Portugal, Espanha, França, Mónaco, Itália, Eslovénia, Croácia, Sérvia, Macedónia, Grécia, Turquia, Geórgia, Arménia, Irão, Turquemenistão, Uzbequistão, Tajiquistão, Quirguistão, Cazaquistão e China foram os primeiros. Em cada país permaneceram entre dois a três dias, mas já aconteceu ficarem apenas um ou duas semanas.

Quanto à estratégia utilizada para viajar, esticar o polegar “tem que se lhe diga”: “Mostramos uma placa com o nome da cidade do nosso destino ou uma cidade intermédia, no caso de vermos que existe necessidade desse passo. Para além das segundas circulares de cada país, também damos preferência a entradas de autoestradas e áreas de serviço ou bombas de gasolina. Dependendo do grau de possibilidade de comunicação, podemos abordar as pessoas e explicar a nossa história – o que depois de atravessarmos a Europa deixou de acontecer. E depois é esperar que alguém pare, vá na mesma direção e nos leve”, contam Joana e Tiago.

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Em média o casal espera entre uma a duas horas para que algum condutor pare e os leve ao próximo destino. Já aconteceu esperarem sete horas.

Manter a boa aparência e ajustar a roupa ao momento e à cultura em que estão inseridos são também pormenores de que não se esquecem e que fazem a diferença. Quanto ao tempo de espera para ir à boleia, uma ou duas horas de espera é a média, mas há exceções:

“Na Turquia, muitas vezes, demorou poucos minutos. Na Itália e Grécia seis ou sete horas. Já no Irão, as pessoas não faziam ideia do que estávamos a fazer e paravam para ajudar pensando que precisávamos de chegar à estação de autocarros. Na Ásia Central também foi engraçado porque não há táxis identificados como tal – as pessoas permanecem nas bermas das estradas e cada carro particular encosta, vê para onde quer ir e assim vão apanhando pessoas pelo caminho. Depois no fim cobram um valor, como sendo um táxi. Algumas vezes não percebiam como queríamos ir sem pagar, o que nos fazia ter de esperar mais tempo.”

Joana e Tiago reconhecem que há também desvantagens nesta aventura das boleias: o cansaço físico e emocional, a dificuldade em comunicar e falar outras línguas, a falta de vontade em despedir-se de quem se acaba de conhecer, tudo isto faz com que sejam raros “os dias descansados”. Quanto ao medo, sentiram-no quando algum condutor parecia desviar-se do caminho, o que acabou por nunca se verificar.

Contudo, não há arrependimentos. Ambos reforçam que as vantagens superam os obstáculos encontrados ao longo do percurso.

“A boleia, do nosso ponto de vista, é a melhor maneira de viajar e a menos dispendiosa. Se quanto ao fator económico não há dúvidas, sabemos que o resto pode ser subjetivo. Mas a nossa crença é óbvia, porque apesar das incertezas e do tempo de espera, o contacto com as pessoas e as suas culturas, os ganhos ao nível de competências sociais e linguísticas e a esperança que nos dá em relação à bondade humana, faz da boleia uma caixinha de surpresas, onde as alegrias superam e suprimem momentos menos positivos. E depois, claro, o facto de nos permitir viajar sem custos também é um fator decisivo”, dizem.

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O casal de passagem pelo Irão.

A média de custos conjunta do casal é de sete euros diários. Dos 1.500€ que gastaram até agora, 700€ são relativos aos vistos necessários, 800€ para o dia-a-dia. Contas feitas, em sete meses julgam ter poupado 4.800€, valor que se justifica não só pelas boleias mas ainda pelas refeições feitas em casa de locais que os hospedam. Em 213 dias, montaram a tenda apenas duas vezes. E destacam as pessoas com que se têm cruzado.

“Conhecemos muita gente, muita com quem nos demos muito bem e alguma com quem seguramente queremos manter o contacto e encontrar no futuro.” Como o camionista que lhes deu boleia no último dia em que estiveram no Irão.

“Sempre prestável e atento, deixou que dormíssemos durante a viagem na sua cama e não só nos ofereceu tudo quanto tinha, como parou várias vezes para nos comprar fruta, pistachos, bolachas e chás para o caminho. Mais tarde, andou até uma aldeia à procura de um restaurante que servisse refeições vegetarianas. Quando nos deixou, percebemos que tínhamos perdido um par de ténis a 25 quilómetros do local onde estávamos”, contam. “Quando o camionista percebeu, entre gestos e farsi — a língua persa –, encostou o camião, ligou o ar condicionado e disse-nos que esperássemos. Apanhou um táxi para voltar atrás os últimos 25 quilómetros e fez por nos encontrar os ténis! Foi soberbo, incansável. Infelizmente não os encontrou e ainda se descalçou para oferecer os próprios ténis, que agradecidamente recusámos.”

No total, são 50 os países que Joana e Tiago vão conhecer, à boleia. Nos próximos meses, segue-se o Sudeste Asiático, Oceânia, América do Sul, Central e do Norte. As histórias desta volta ao mundo à boleia podem ser acompanhadas no blogue O mundo na mão e também no Facebook.

Artigo atualizado às 11h30 de dia 3 de outubro.