Restaurantes

The Mill. Este café serve-se cheio (de sotaque australiano)

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Quando se entra no novo The Mill não será despropositado arriscar a famosa saudação australiana: 'G'day, mates!' Porque é da Austrália que vem o mentor, o barista e o conceito do espaço.

Autor
  • Tiago Pais

Não é difícil encontrar quem garanta que na origem do nome da Rua do Poço dos Negros, em Lisboa, está uma antiga vala comum usada para atirar os corpos de escravos mortos. Segundo o olisipógrafo José Sarmento Matos, o topónimo não terá uma origem assim tão macabra. Mas para acabar de vez com o mito, bem que se podia alterá-lo para alguma coisa relacionada com cafés de inspiração internacional. Rua dos Cafés de Fora, por exemplo.

A sugestão não cai neste texto de paraquedas — no espaço de poucas semanas abriram portas na dita artéria dois cafés com influências claras e assumidas de outras paragens. Primeiro, o escandinavo Hello, Kristoff, (que teve direito a artigo no Observador). Agora, o australiano The Mill, logo no número 1, a primeira porta de quem vem da Calçada do Combro.

E em que é que um café australiano difere de todos os outros? Palavra ao anfitrião e homem da terra, Paul Miller, que cita o que parece quase ser uma lista de mandamentos: “Para começar, tem um ambiente descontraído — como vês estou de calções [e estava mesmo] –, a música tem de ser boa, gostamos de conhecer cada um dos nossos clientes e tratá-los pelo nome e ter excelente café e comida saudável.”

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Os sócios Paul (segundo a contar da esquerda) e Madeleine (a primeira à direita) com a restante equipa do café. (foto. © Tiago Pais / Observador)

Paul nasceu em Sydney — cidade com forte tradição no que a esta matéria diz respeito — mas viveu e trabalhou em Londres nos últimos 15 anos, dez deles passados a fazer a gestão das redes sociais [community manager] da PlayStation para os mercados europeu e asiático. Abrir o seu próprio café, confessa, “era um sonho antigo”. Que ficou mais vivo desde que há coisa de cinco anos, conta, “muitos australianos começaram a abrir espaços deste género em Londres”.

E se o homem sonha, a obra nasce. Nasceu em Lisboa, com ajuda da sócia Madeline, e não em Londres, porque Paul queria um mercado mais pequeno, à medida do seu negócio. Também ajudou que Lisboa lhe tivesse caído no goto há coisa de dois anos, altura em que comprou um apartamento no Príncipe Real. “Estava a vir a Lisboa uma vez por mês, mas há um ano mudei-me definitivamente. Este bairro interessava-me, no Chiado é tudo muito caro e para outro tipo de público, além de que Santa Catarina é uma zona que está em crescimento.”

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Há seis lugares na montra, virados para a rua, um hábito (felizmente) crescente em novos espaços de Lisboa. (foto: © Tiago Pais / Observador)

Um ano foi também o tempo que demorou o processo de abertura do The Mill, da renovação do espaço à aquisição das licenças, passando por encontrar quem quisesse produzir as peças de cerâmica desenhadas por si, inspiradas pelas muitas viagens que fez ao Japão por motivos profissionais, e que não só são utilizadas para servir os clientes como também podem ser compradas à peça. “Fomos ao Algarve, corremos vários ceramistas, mas só a Estrela de Conímbriga, em Coimbra, aceitou fazer as nossas cerâmicas”, explica.

Aliás, a combinação espírito australiano e produtos portugueses é uma constante no The Mill. Da cortiça que decora partes da sala à torrefação dos grãos de café escolhidos pessoalmente por Paul e pelo sobrinho Reuben — barista desde os 15 anos e que, segundo o tio, “vive e respira café” –, processo executado de forma artesanal na sexagenária Flor da Selva, em plena Madragoa. E não será de estranhar ver na montra da casa um brownie de alfarroba ou qualquer outra criação que faça brilhar matéria-prima tipicamente nacional.

“O menu de pequeno-almoço [7,50€, inclui tostas, sumo e café] tem feito muito sucesso nestes primeiros dias”, afirma Paul, com um sorriso. “Foi uma surpresa para nós, não estávamos à espera.”. O segredo talvez resida na intemporalidade: não tem uma hora definida, servem-no sempre que os clientes pedirem. A carta inclui ainda saladas, bagels e tostas diversas, onde se inclui uma especialidade australiana — abacate com piripíri. Para beber há, para já, vinhos portugueses — e uma happy hour entre as 17h e as 19h, em que o jarro de cerveja fica por 6€.

Isto sem esquecer, como é óbvio, o café, que passa por uma La Marzocco que Paul diz ser “o Rolls Royce das máquinas de café” e é servido em todos os formatos clássicos, com e sem leite. O cliente pode escolher entre o blend (mistura) da casa ou o single origin (origem única), que vai mudando todos os meses. “Para chegarmos ao nosso blend devemos ter provado mais 30 ou 40 grãos diferentes de café”, lembra o responsável.

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Brownie de alfarroba e macchiato, uma das combinações possíveis.
(foto: © iPhone do Tiago Pais / Observador)

Como a aventura de Paul e Madeline ainda agora começou, não lhes faltam ideias que pretendem ir introduzindo a pouco e pouco, seja um brunch domingueiro, a criação de novas peças de cerâmica ou o aparecimento de alguns vinhos australianos na carta de bebidas. A ementa também pode ir sofrendo alterações, especialmente no que concerne às propostas diárias. Só não mudam os mandamentos de Paul. E muito menos o seu sotaque. Cheers, mate.

Nome: The Mill
Morada: Rua do Poço dos Negros, 1 (Santa Catarina), Lisboa
Telefone: 92 607 1747
Horário: De segunda a sábado, das 08h às 00h. No futuro irão abrir aos domingos até às 17h para servir brunch.
Site: themill.pt

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