Portugal-Andorra, Estónia-Gibraltar, Holanda-Bielorrússia, Liechtenstein-Albânia. Patati patatá, há mais, muitos mais jogos com interesse abaixo de zero. À excepção, vá, do Itália-Espanha. De resto, é um valente arrrghhhhhh. Arrrghhhhhh de “é semana arrrghhhhhh de qualificação para o Mundial-2018.” Vai daí, apostamos num entrevistado diferente, fora da caixa.

Preparado? Agarre-se bem porque este senhor é um tratado de frases folclóricas. Se tiver dúvidas, ouça lá esta: “Não venha com a problemática que eu dou a solucionática.” Chi-ça. Ouro, isto é ouro. Quer mais? “Quando o Dadá saltava, o defesa conseguia ver o número da minha chuteira.” Mais uma? Força. “Chuto tão mal que o guarda-redes tem de ser eliminado do futebol no dia em que o Dadá marcar um golo fora da área.” Avancemos, isto é produto de primeira qualidade. “Não existe golo feio. Feio é não fazer golo”. Calma, não empurrem, há para todos os gostos. “Só há três coisas que param no ar: o beija-flor, o helicóptero e o Dadá”. Ou, então, “só existem três poderes no Universo: Deus no Céu, Papa no Vaticano e Dadá na grande área.” Para acabar em beleza, fixe bem esta: “faço tudo com amor, inclusive o amor”.

Dadá, quem é esse cara? Dario José dos Santos, conhecido internacionalmente como Dadá Maravilha. É o primeiro rei do marketing e o terceiro melhor marcador brasileiro de sempre, com 926 golos (sem particulares). Joga em 18 clubes, ganha o Mundial-70 ao lado de Pelé e defronta Scolari no Estadual gaúcho. Ah é verdade, e fala na terceira pessoa. Mais engraçado parece impossível.

É o Dadá?
Maravilha, Dadá Maravilha. É o Dadá, sim. Quem fala?

Aqui fala Rui Miguel Tovar. De Portugal, do Observador. Tudo bem?
Ó meu irmão, como vai? Aqui tudo beleza, obrigado.

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Tem uns minutos para falar?
Minutos, não. Tenho horas. Não faço nada mesmo, tenho tempo de sobra para ‘ocê’.

Então dá para contar tudo desde o seu nascimento?
O Dadá nasceu pobre e cresceu pobre. No Rio de Janeiro em 1946. O meu pai era pobre a analfabeto. A minha mãe, pobre e débil mental. Ela, certo dia, jogou querosene no seu corpo e meteu fogo. Se suicidou.

O Dadá entra logo assim, a pés juntos?
Uai [expressão mineira de espanto, retirado do inglês why], ‘ocê’ perguntou e o Dadá respondeu. O Dadá não esconde nada, não. O Dadá fala a verdade. Sempre.

Continue então.
O Dadá viu a mãe se suicidar, sabe? Só tinha cinco anos e me lembro de tudo como se fosse hoje, agora. Como o meu pai não tinha condições de me criar, ele deixou o Dadá no Serviço de Assistência aos Menores, atual Funabem [Casa Pia portuguesa]. Foi lá que o Dadá aprendeu a jogar futebol. Foi lá que o Dadá começou a comer decentemente.

Como era antes?
Antes, o Dadá passava três dias sem comer. Era costume. Como toda a gente tem pena de uma criança, o Dadá pedia e recebia pedaços de pão. O Dadá tem pena é dos velhos e abandonados, que ninguém os ampara na rua.

E como passou a ser a alimentação do Dadá nessa assistência a menores?
Melhorou a mil. Um pãozão com manteiga, um cafezão num canecão. Um bifão a cavalo. Aqueles ovos estrelados que pareciam dois discos voadores. Por isso, o Dadá saltava mais alto que todos.

No futebol, diz?
Em tudo. O Dadá saltava mais alto que todos. Até aos 19 anos, o Dadá não sabia o que era o futebol.

Então, como nasce para o futebol?
Como é o seu nome, mesmo?

Rui Miguel Tov…
Ó Rui, vem cá: o Dadá não nasce para o futebol, o futebol é que nasce para o Dadá. Até aos 19 anos, o Dadá não podia perder tempo com futebol, o Dadá vivia com pouco ou quase nada. Então, o Dadá roubava. Valia tudo. Um dia, o Dadá e um amigo assaltámos uma padaria de um português. O cara apanhou-nos em flagrante e desatou aos tiros. O Dadá fugiu a tempo, o meu amigo já não e morre ali, na hora. Outra morte que vi com os meus próprios olhos.

E depois?
O Dadá se virou para o futebol, através dos juniores do Campo Grande. Dois anos depois, o Dadá subiu para a equipa principal. No ano seguinte, uma transferência para o Atlético Mineiro.

É a sua equipa?
Sou atleticano até morrer. Hoje, o Dadá até é mais atleticano do que brasileiro. Torço mais para o Atlético do que para o Brasil. Eu digo isso sempre, a qualquer um. Podem falar mal de mim. Nem quero saber. Falo mesmo. Quando o Dadá era jogador, era primeiro brasileiro e depois atleticano. Sempre. Mas o Dadá desiludiu-se nos últimos tempos. Antes, éramos patriotas dos pés à cabeça. Chorávamos, vibrávamos, éramos unidos pelo ideal da seleção. Agora? Nem pensar. Insisto neste ponto: a minha seleção de 70 é considerada até hoje a melhor seleção de todos os tempos e o Dadá tem essa certeza absoluta até morrer.

O Dadá foi campeão nesse Mundial.
As equipas ganhavam sempre com o Dadá em campo.

Mas o Dadá jogou muito pouco em 1970.
Qué’isso Rui?

Aliás, o Dadá esteve para nem ir a esse Mundial.
Vou-te contar uma coisa: em 1970, o Dadá era o jogador mais em forma do Brasil. Não tinha como me segurar. Marquei 70 golos, imagina só. Como a imprensa mineira enchia páginas de jornal a elogiar o jogo do Dadá, o selecionador João Saldanha ficou de saco cheio e não foi de modas: disse que Dadá não jogava no time dele. Aquilo me levou à loucura e jurei arrebantar com a seleção brasileira, invicta durante a qualificação para esse Mundial.

Como é que o Dadá rebenta o Brasil?
Há um amistoso [particular] entre o Atlético e a seleção. O Dadá joga pelo Atlético, lógico. E o jogo dá na televisão para todo o país. Ó Rui, quando o jogo dá na televisão, eu me mato. O que interessa, como agora, é vender a imagem. Então, o Dadá só fixou a frase do Saldanha na cabeça e ficou maluco só de o ver ali sentado, no banco. ‘Vou mostrar a esse filho da puta quem é o Dadá.”

E mostrou?
O Dadá deu show, com golo e tudo. O Dadá ganhou do Brasil. Lá em Brasília, onde vivia o presidente Medici, o pessoal vibrou. E o próprio Medici disse que me tinha achado um jogador extraordinário e que devia ir à selecção. A imprensa cutuca o Saldanha e ele responde daquela maneira célebre: ‘O presidente escala o ministério, eu escalo a seleção’. Simplesmente, o Medici pegou no telefone, ligou para a Confederação Brasileira dos Desportos e mandou embora o Saldanha.

Quem entrou?
O Zagallo.

E?
O Dadá é convocado para a seleção.

Que honra, por intervenção do presidente Medici. Como era ele?
Na altura, sabia pouco, muito pouco de política. Entretanto, fui aprendendo e, infelizmente, fiquei a saber de coisas desagradáveis do Medici. Nem vou comentar. Prefiro respeitar a memória do morto.

No Mundial-70…
O Dadá é campeão. Com Pelé, Jairzinho, Tostão, Gerson, Rivellino, Felix, Carlos Alberto, Piazza.

No ano seguinte, começa o campeonato brasileiro.
E o Dadá é campeão. Pelo Atlético Mineiro. Nunca mais esqueço a data: 8 Dezembro 1971, quando a equipa do Dadá ganhou ao Botafogo por 1-0, no Maraca [abreviatura de Maracanã]. O golo foi do Dadá, claro. De cabeça. E olha lá que nesse dia eu estava lesionado. Na véspera, fraturei o pé direito durante a final do campeonato de ténis de mesa, com o Telê Santana [treinador]. O jogo acabava aos 21 pontos e estava 20-20. Aquele ponto era o decisivo. E o Telê a servir. Ele deu num canto e eu fui, ele deu no outro e eu fui, aí ele fingiu que dava para ali e atirou para aqui e craccccc. Só ouviu o estalo, caí, gritei e saí de maca.

Então como é que jogou?
O médico Gregório disse ao Telê que eu não estava em condições de jogar. E o Dadá, todo torto. Gregório passou a noite praticamente a fazer tratamento em mim. Para ser sincero, até dormi com ele. Só fiz um pique em todo o jogo e foi golo. Quando o jogo acabou, os meus companheiros choravam de alegria. Dadá chorava de dor. O pé esquerdo do Dadá estava tão inchado que foi o Gregório quem me tirou a chuteira. Não tinha condição de entrar, nem pelo pé, nem pela coluna. A loucura que eu fiz. No dia seguinte à conquista, já em casa em Belo Horizonte, recebi uma montanha de telefonemas dos companheiros da seleção brasileira do Mundial-70. O Pelé (Santos), o Tostão (Cruzeiro), o Gérson (São Paulo), o Jairzinho (Botafogo), o Ademir da Guia (Palmeiras), o Rivelino (Corinthians), os camisas 10 dos favoritos ao título desse ano. Dadá merece uma estátua.

Só uma?
É, tem razão. Só uma é pouco. Dadá é o maior: campeão mundial, campeão brasileiro. Costumo dizer que só havia duas coisas que o Dadá não sabia fazer: jogar futebol e falhar golos. Para cabecear, sou o maior do planeta. Só se em Júpiter, Marte, Saturno ou Neptuno houver alguém. Os outros são goleadores. O Dadá está acima deles. Dadá é uma máquina.

Aqui em Portugal, jogou o Jardel. Sabe quem é ele?
Se sei? Ó Ruuuuuiiiiiiiii. O Dadá é o maior. O Dadá até ganha em peladinhas no quintal do amigo. Amigo igual a Jardel. Pergunta ao Jardel.

Como?
Deixa para lá, eu te conto. O Dadá estava de férias no Ceará e o Jardel organizou um jogo no seu campo lá de casa. O Jardel escolheu as equipas e a dele era mais forte do que a do Dadá. Foi 10-8, o Dadá marcou oito e o Jardel só seis. Ninguém trava o Dadá. Nem o Felipão.

O Scolari?
Ah pois. É um grande amigo do Dadá. Ele é um cara cinco estrelas. O pior é com a bola no pé. Ele fazia o Dadá ver estrelas. Ele batia no Dadá com força e vontade. Vai ‘zagueiro’ [defesa] perna de pau! O Dadá jogou muitas vezes com ele, no Estadual gaúcho. O Dadá no Internacional e o Felipão no Duque de Caxias.

Como reagia o Dadá na altura em que via estrelas?
Tranquilo. Os caras passavam o jogo todo, todinho a bater em mim e o Dadá ficava tranquilo. Nem reclamava com o juiz. Para quê? O objectivo de um 9 é fazer golo. Aí, eu pensava: “problema dele, vai ter que anular mais dois”. Ninguém enervava o Dadá. A vantagem do Dadá era a tranquilidade. Eu tranquilo, o defesa nervoso. Quem vai levar vantagem?

O Dadá.
Issooooo, o Dadá. Não é como hoje, não. O cara toma um pontapé, xinga o juiz, a mãe do juiz, a mulher do juiz, a irmã do juiz e a cunhada do juiz até ser expulso. Hoje, o cara reclama de tudo. Há muito cartão a sair do bolso do juiz. No tempo do Dadá, isso é impensável. O Atlético foi campeão brasileiro em 1971 sem receber um cartão durante 27 jogos. Time bom não reclama. Jogador bom não reclama. O Dadá não reclama, só ria. E apanhava pau p’ra caramba.

Pois.
Ninguém corria como Dadá, ninguém pulava como o Dadá. Só pulava como o Dadá se tivesse uma escada de bombeiro. Para acompanhar o meu ritmo no sprint, tinha que pegar táxi, meu filho.

Há alguém como o Dadá neste momento?
Qui nada. Hoje, os caras não treinam direito. O Dadá dava cem cabeçadas por dia, chutava à baliza umas cem vezes por dia. O Dadá Maravilha não caiu do céu, não? Há ali treino, treino, treino e mais treino. Hoje, vejo um treino e rio-me. Às vezes, o cara chuta à baliza no treino e erra a baliza. Vaziaaaaa. Hoje não há treino nem exigência. Já não há molecagem, é só ídolo de barro, ainda por cima cheio de dinheiro. O cara treina e vai logo embora, sem querer saber mais daquilo. É um futebol sem alma nem paixão nenhuma. Depois, o problema dos empresários. Quem tem bom empresário, chega longe. Quem não tem, esquece. Já não depende sequer do jogador. Noventa por cento dos jogadores chegam a seniores sem saber coisas básicas do futebol como passes longos perfeitos ou lançamentos em velocidade. Ò Rui, sabe quem era assim bom de bola no meu tempo? O Peres, o portuga. Jogámos juntos em 1975 em Recife. O Sport não ganhava nada há 12 anos e o Dadá lá teve de ser campeão. E com recorde. Numa goleada de 14-0 ao Santo Amaro, o Dadá marcou 10 golos. Dezzzzzz. De todo o jeito: cabeça, calcanhar, pé direito, pé esquerdo, meia bicicleta, quase bicicleta. Dezzzzz, nota 10. O Dadá é o maior.