O presidente da Colômbia Juan Manuel Santos venceu o Prémio Nobel da Paz 2016, distinção atribuída pelos seus esforços para pôr fim à guerra civil daquele país, que durou mais de 50 anos e matou pelo menos 220.000 colombianos, informou o Comité Nobel norueguês esta sexta-feira. Juan Manuel Santos chegou à presidência da Colômbia em 2010 e no passado dia 26 de setembro assinou, com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) um acordo de paz histórico, prevendo a desmobilização dos 5.765 combatentes da guerrilha e a conversão das FARC em movimento político legal.

A distinção foi vista como um “tributo ao povo colombiano que, apesar dos abusos, nunca perdeu a esperança de paz”, assim como um “tributo a todos os partidos que ajudaram no processo de paz”. “O tributo vai ainda para os representantes das inúmeras vítimas desta guerra civil”, acrescenta o Comité em comunicado.

“Ao atribuir este ano o Prémio Nobel da Paz ao Presidente Juan Manuel Santos, o Comité Nobel norueguês pretende encorajar todos aqueles que lutam por conquistar a paz, a reconciliação e a justiça na Colômbia”, explica o Comité, sublinhando que espera que o prémio “dê ao Presidente mais força para continuar o trabalho de conquista do direito à paz até ao último dia em que estará no cargo”. “É esperança do Comité que nos próximos anos o povo colombiano colha os frutos do processo de reconciliação e paz que ainda decorre”, diz.

Juan Manuel Santos chegou a ser dado como um dos favoritos à vitória, mas depois de os colombianos terem chumbado, em referendo, o acordo assinado com as FARC a 26 de setembro, começou a especular-se que teria menos hipóteses de ganhar. Agora, o Comité justifica que o facto de a maior parte dos votantes ter dito que não ao acordo “não significa que o processo de paz esteja morto“. “O referendo não foi um voto a favor ou contra a paz”, diz o Comité do Nobel em comunicado, explicando que o “não” no referendo apenas rejeitou um acordo específico e não o acordo de paz. O Comité expressa agora o desejo de que os partidos colombianos assumam a sua parcela de responsabilidade no processo construtivo de paz.

No comunicado, o Comité Nobel norueguês recorda que Juan Manuel Santos iniciou as negociações que levaram ao acordo de paz entre o Governo colombiano e as guerrilhas da FARC, procurando consistentemente levar o processo de paz adiante. Embora soubesse que o acordo era controverso, o Presidente garantiu que os eleitores colombianos podiam manifestar a sua opinião sobre o acordo em referendo, relembra a organização do Nobel.

“O resultado do referendo não foi o que o Presidente Santos queria: uma curta maioria dos mais de 13 milhões de colombianos que votaram disse não ao acordo. Este resultado criou grande incerteza sobre o futuro da Colômbia. Há um perigo real de o processo de paz parar e de a guerra civil recomeçar. Isto torna ainda mais importante que as partes, lideradas pelo Presidente Santos e pelo líder das guerrilhas das FARC, Rodrigo Londoño, continuem a respeitar o cessar-fogo”.

O momento do anúncio e os principais argumentos para a escolha de Juan Manuel Santos:

Questionada pelos jornalistas sobre se o comité considerou atribuir o prémio a mais partes, nomeadamente ao líder das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), que a 26 de setembro assinou um acordo de paz histórico com Juan Manuel Santos, a presidente do Comité Nobel Norueguês escusou-se a comentar outros candidatos. “Há muitas partes no processo de paz. O Presidente Santos tomou uma iniciativa histórica, ele dedicou-se completamente, com grande força de vontade, para alcançar o resultado”, disse a presidente, Kaci Kullmann Five, acrescentando que o comité vê este prémio como “um forte encorajamento para todas as partes neste processo negocial”.

O Comité norueguês recebeu este ano um número recorde de candidaturas, um total de 376: 228 de pessoas e 148 de organizações. Numa edição sem claros favoritos, além do presidente colombiano, também os habitantes das ilhas gregas que têm ajudado milhares de refugiados, os intervenientes no acordo nuclear iraniano, os “capacetes brancos” sírios e vários ativistas russos chegaram a ser apontados como potenciais vencedores.

No ano passado, o galardão sobre a paz mundial foi atribuído ao Quarteto de Diálogo para a Tunísia, uma composição de quatro organizações que negociaram uma forma de garantir que a Tunísia se mantivesse plural e democrática depois da Primavera Árabe, tendo sido considerado o único caso de sucesso das revoltas no mundo árabe.

Curiosamente este é o segundo prémio Nobel atribuído a um colombiano, sendo que o primeiro foi para Gabriel García Márquez, em 1982, mas na área da Literatura.